Mensagem para a Quaresma de 2021, do Bispo do Algarve, D. Manuel Neto Quintas

QUARESMA 2021

Celebrar e viver a Quaresma em tempo de pandemia

 Estamos às portas da Quaresma. Tempo litúrgico ao qual associamos o convite a percorrer um caminho, com caraterísticas próprias, que nos conduz à celebração da Páscoa da Ressurreição. A Igreja, como mãe solícita, coloca à disposição de todos os seus filhos, os meios indispensáveis para o seu percurso, de modo a atingir o fim pretendido.

 Este ano, pelas circunstâncias que vivemos, temos a sensação de que a Quaresma se antecipou, tão exigente tem sido este tempo de confinamento, tempo tão atípico em que nos sentimos constrangidos, para bem de todos, a assumir a privação da participação presencial na Eucaristia dominical e noutras celebrações públicas; o encerramento das escolas; o teletrabalho;a ausência de contatos e gestos de afeto, mesmo a nível familiar, sobretudo com os mais idosos; o não poder visitar quem está sozinho em casa, ou internado no hospital; a impossibilidade de acompanhar os últimos momentos de entes queridos, sem a despedida que o coração impunha, ou mesmo sepultados sem a dignidade que lhes é devida… situações que perturbam, geram ansiedade e insegurança, aumentam a falta de esperança e a impaciência connosco e com os outros, mesmo com os que nos são mais próximos.

Celebrar e viver a Quaresma em tempo de pandemia, pode ajudar-nos na compreensão da importância da espiritualidade – vida segundo o Espírito – e da valorização do seu contributo como apoio pessoal e familiar na vida quotidiana, sobretudo quando nos vemos mergulhados em situações difíceis de explicar e de assumir.

A razão da Quaresma, o fim essencial deste caminho que somos chamados a percorrer, é a celebração da Páscoa, com a certeza de que a luz que brota de Cristo Ressuscitado está já presente ao longo deste caminho. Queremos que esta luz ilumine a nossa vida, sobretudo as situações mais obscuras, nomeadamente as provocadas por esta pandemia. Queremos conhecer melhor e corrigir o que em nós não espelha a nossa condição de batizados e discípulos de Cristo, impedindo a nossa identificação com Ele.

Então, sim, a renovação das promessas batismais em dia de Páscoa, como culminar do caminho quaresmal, corresponderá a um verdadeiro renascimento espiritual. Seremos homens e mulheres renovados pelo Espírito, decididos a produzir os frutos da sua ação em cada um de nós: “amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl 5,22).

 Ao longo deste caminho, somos guiados e fortalecidos pela Palavra de Deus, que, tanto na liturgia dominical como na ferial, nos faz diversas propostas.

O primeiro convite que escutamos, logo no rito de imposição das cinzas, sintetiza o sentido deste caminho: arrependei-vos e acreditai no Evangelho (Mc 1,15). Dois imperativos que traduzem o conteúdo essencial da Boa Nova do Reino e da nossa adesão a Cristo. No arrependimento e na conversão pessoal está sempre implícito o acreditar no Evangelho, acreditar em Cristo, tornar-se seu discípulo, aceitar ser irmão e irmã de todos, com tudo o que isso significa, inclusive nas situações mais diversas e adversas da vida. Está sempre implícito o convite à reconciliação (cf. 2 Cor 5,20) com Deus e com todos.

Para progredir, sem esmorecer, no caminho de resposta a este duplo imperativo, temos meios oportunos que nos fortalecem e nos ajudam a medir a verdade da nossa conversão: a esmola, a oraçãoe o jejum(cf. Mt 6,16-18): a esmola discreta, desprendida e generosa que se concretiza na partilha fraterna e no dom de si mesmo; a oração sincera, silenciosa e confiante,

que permite dar mais espaço à presença de Deus e dos outros na própria vida; o jejum, igualmente discreto e simples, que é muito mais do que privar-se de alimento. “Sabeis qual é o jejum que me agrada?” pergunta e responde Deus pela boca de Isaías: “quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos(…) repartir o pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao semelhante” (cf. Is 58, 6-7).

A impossibilidade de celebrar o domingo, com a participação presencial na Eucaristia e noutras celebrações quaresmais, deve levar-nos a dar mais espaço à escuta orante da Palavra de Deus. A nível pessoal e melhor ainda como família e Igreja doméstica, a Quaresma celebrada e vivida em tempo de confinamento, pode constituir uma oportunidade para se sentar à mesa da Palavra e “reconhecer que é Cristo que se faz presente e se dirige a nós para ser acolhido” (VD 56). Hoje há inúmeros subsídios que permitem ter sempre “à mão” as leituras bíblicas da Eucaristia de cada dia, bem como a Liturgia das Horas, permitindo, inclusive rezar as Laudes e as Vésperas, bem como outras orações, através da aplicação gratuita iBreviary, com versão portuguesa.

Também este ano queremos unir-nos, como Igreja diocesana, na partilha fraterna presente na renúncia quaresmal, fruto das nossas privações e sinal do caminho de conversão percorrido. Atendendo ao pedido e à orientação que nos chegou, este ano terá como destino a Cáritas diocesana. O ano passado não foi possível realizar o seu peditório público, bem como o ofertório nas Eucaristias do dia que lhe é dedicado. O mesmo acontecerá este ano, privando esta Instituição de uma receita significativa, de modo a responder, como é sua caraterística, aos muitos e crescentes pedidos, que não se limitam a bens de primeira necessidade.

 

Exorto todos, à semelhança dos anos anteriores, à generosidade nesta partilha fraterna. Queremos que a nossa renúncia quaresmal, seja expressão da nossa comunhão eclesial na resposta ao apoio dos mais necessitados.

 

Unidos na oração, sobretudo pelas vítimas da pandemia e suas famílias, confiemos a Maria este nosso caminho quaresmal, certos de que ela nos guiará pela estrada segura, que conduz ao encontro de Cristo Vivo e Ressuscitado, fonte de esperança e de vida plena.

 

Faro, 16 de fevereiro de 2021.

† Manuel Neto Quintas Bispo do Algarve

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