Serenidade

Os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a família têm provocado muita agitação, dentro e fora da Igreja, até porque para lá de eventuais propostas – este é um organismo consultivo, sem poder decisório -, estão problemáticas reais, de pessoas concretas com que muitos se podem identificar.

Do ponto de vista mediático, ficou evidente que houve avanços e recuos na forma errática como alguns temas foram apresentados, deixando infelizmente a impressão de que estaria em curso uma verdadeira batalha pelo poder entre fações opostas. A culpa não pode ser sempre dos jornalistas e em assuntos tão sérios é fundamental diminuir o risco de interpretações incorretas ou de extrapolações, em particular por parte de quem não está tão familiarizado com estas temáticas.

Se o debate correu, como têm dito tantos participantes, de forma aberta e produtiva, espera-se agora que, acima de qualquer mudança sobre a linguagem da pastoral familiar ou da moral sexual católicas, as conclusões sejam apresentadas ao Papa e a toda a Igreja como ponto de partida sereno para o novo Sínodo de 2015, que vai concluir este percurso, sem vencedores nem vencidos.

A Igreja beneficiou deste tempo de debate e vai continuar a crescer com a discussão rumo à assembleia geral ordinária sobre a família. Não é nada de novo na sua história: bastaria recordar que menos de 20 anos depois da morte de Jesus, a primeira comunidade cristã teve de tomar uma decisão absolutamente histórica que lhe permitiu chegar, ao longo dos séculos, a todo o mundo, depois de no Concílio de Jerusalém ter decidido ultrapassar o âmbito específico da tradição judaica. Como se chega de 12 a 1200 milhões é um mistério, mas é sobretudo uma lição.

Sim, a Igreja fala a todo o mundo e quer mesmo que a sua mensagem chegue a todos, independentemente da sua condição. Isso trouxe sempre desafios e sofrimentos, dúvidas e receios, mas também alegrias e realizações que ajudaram a construir um mundo melhor.

O Sínodo dos Bispos tem sido um momento de grande entusiasmo e vibração, mas tudo o que vier a acontecer tem de ser recebido com serenidade. No fundo, a missão que a Igreja tem pela frente é a mesma de sempre e já se percebeu que sabe melhor do que ninguém o que tem a fazer.

Octávio Carmo,

Agência Ecclesia

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