SABER APRENDER – A esperar numa fila

Na Festa do Baptismo de Jesus dei-me conta de um detalhe que me passou sempre despercebido: para ser baptizado, Jesus esperou numa fila. E a curiosidade deste detalhe não é tanto pensar que Jesus se iguala a qualquer um de nós e, por isso, espera numa fila como os outros. O detalhe é somente: “esperar numa fila”. Não tinha telemóvel para tirar do bolso e andar pelas redes sociais que seria o gesto da maior parte de nós. Poderá “esperar numa fila” ter algum significado para a nossa vida profunda?

Quando sai um novo iPhone é impressionante ver a quantidade de pessoas que não se importa de passar um dia inteiro numa fila que parte da entrada de uma loja da Apple, em Nova Iorque por exemplo, e segue pelas ruas da cidade. Também quando começamos o período de vacinação contra a Covid em Portugal, nas primeiras vezes a fila era enorme e não havia outro remédio senão esperar. As motivações destes dois exemplos são muito diferentes, mas a razão para esperarmos na fila e suportarmos tudo o que essa espera implicava é a mesma: há coisas que possuem um grande valor para nós e vale a pena esperar por elas. Que valor possuía aquela espera na fila para Jesus? A novidade daquilo que João estava a fazer? A cara das pessoas quando voltavam daquele momento que despertava a curiosidade em vivê-lo? Saberia Jesus aquilo que Lhe esperava quando chegasse a Sua vez, de tal modo que valesse a pena esperar? Não sabemos.

Num mundo em Grande Aceleração desde os anos 1950, e com os serviços cada vez mais imediatos, independentemente do lugar de origem da nossa encomenda, se antes dizíamos — “esperar é uma grande virtude”,— no mundo actual, essa frase ganha novos contornos. As pessoas queixam-se do desperdício de tempo quando estão numa fila, mas só se justifica se o valor daquilo que estão à espera supera o que essa espera lhes custa. Na verdade, há quem tenha desenvolvido o tema da “Psicologia de Esperar numa Fila” como o psicólogo americano David Maister.

A psicologia de “Esperar numa Fila” possui oito pontos de análise dos quais gostaria de usar sete para reflectir sobre a situação de Jesus antes de ser baptizado.

1. Tempo ocupado é mais curto do que tempo desocupado

O filósofo americano William James dizia que «o tédio resulta de estar atento à passagem do tempo.» É como olhar para a massa cozer. Se olharmos para a massa dentro da panela parece que nunca mais coze, mas se começarmos a pôr a mesa e a arrumar a cozinha, parece que coze num instante. No relato não se entende se Jesus levou alguma coisa para fazer enquanto esperava para ser baptizado, mas dado o contexto, custa-me imaginar alguém a oferecer-Lhe um folheto sobre o que João Baptista estava a fazer, o tempo só poderia ser ocupado em observação.

2. As pessoas querem é começar que estão a esperar

Quando num restaurante nos servem as bebidas antes de trazerem os pratos pedidos, o objectivo é dar-nos a sensação de que já começámos aquilo que, na verdade, ainda estamos à espera — o prato principal—, dando a sensação de redução do tempo de espera. Não estou a ver que alguém tenha dado uma roupa branca para que Jesus se pudesse trocar (à frente de toda a gente), de modo a preparar-se para o Seu baptismo. O começo só poderia ser interior.

3. A ansiedade alonga a sensação de espera

Quando estamos numa fila de espera, mas existem várias, e a do lado começa a andar mais do que a nossa, a ansiedade aumenta. E quantas vezes não mudámos de fila para essa parar e a fila onde estávamos começar a andar? Mais ansiedade ainda. É a chamada Lei de Erma Bombeck (humorista americana) — «a outra fila anda sempre mais depressa.» Não estou a ver que houvessem várias filas para o baptismo no Jordão, por isso, Jesus só poderia enfrentar o aumento de ansiedade com o aumento do desejo.

4. Tempos de espera incertos são maiores do que os certos

O que custa mais à ansiedade quando estamos numa fila de espera é o tempo incerto que pode demorar cada pessoa atendida. Quando vamos pôr uma carta no correio e aguardamos pela nossa vez, uns podem demorar muito, outros menos e se alguma pessoa que esteja à nossa frente tem um monte de cartas na mão, ou se é idoso e pretende realizar uma operação que envolve tecnologia, ”ai minha mãezinha.” O baptismo, neste aspecto era simples. Uma pessoa chegava, João baptizava e a pessoa saía. Logo, seria de esperar um tempo certo. Mas o que fazer quando é incerto?

5. Esperas inexplicáveis são maiores do que as explicáveis

Pensando no exemplo anterior, se uma pessoa tem um monte de cartas pode ser que sejam os ordenados das pessoas que emprega. E se uma pessoa idosa envolve um atendimento que a obriga a usar tecnologia para a qual tem menos destreza, quem sabe se um dia o mesmo não acontecerá connosco? A imaginação oferece explicações que nos podem ajudar a criar histórias para “explicar” os momentos de tempos incertos de espera. Quem sabe que histórias não terá Jesus imaginado enquanto esperava.

6. Esperas injustas são maiores do que as justas

Quando temos a sensação de que alguém passa à nossa frente, aumentando o nosso tempo de espera, é natural ficarmos irritados. É injusto. Mas se existe um sistema de senhas, esperamos e sentimos ser justo porque não chegou ainda a nossa vez. É possível que tenha havido alguém que se tivesse metido à frente de Jesus para se baptizar, mas… como não dar a vez a alguém que deseja tanto baptizar-se? Não é fácil lidar com estas situações, nem com as pessoas que atendem o telemóvel interrompendo a conversa que estávamos a ter com elas, sobretudo, nos momentos em que éramos nós a falar. Descobrimos que não somos uma prioridade, é injusto como quem passa à frente numa fila, mas seguramente que Jesus foi paciente.

7. Esperar com outros custa menos

Imagina a situação em que estás sozinho numa sala à espera que o médico te atenda. Custa. Porém, quando esperas com alguém podes sempre meter conversa e isso parece encurtar o tempo de espera. Na fila, Jesus estava com outras pessoas. Conhecia muitas delas, provavelmente, e pelo que o Evangelho nos conta, é quase impossível não imaginar Jesus a meter conversa com uma ou outra pessoa. Esperar numa fila pode estimular a nossa capacidade de estabelecer relacionamentos.

«Não tenho tempo ou paciência para esperar tirar qualquer benefício psicológico de estar numa fila.» — Talvez. A vida é feita de escolhas porque somos livres de acolher cada momento esperado ou inesperado.

Jesus seguramente observava, escutava, interiorizava, desejava, respirava profundamente, imaginava, exercia paciência, relacionava,… esperava. No final do tempo de espera escuta o Pai que em vez de lhe dizer coisas mirabolantes, diz a todos que O ama. O grande valor de esperar numa fila está mais naquilo que podemos construir enquanto esperamos do que no prémio final ao fim do tempo de espera. Não é fácil reconhecê-lo, mas o que custa experimentar?

 

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/

Autor:Miguel Oliveira Panão 

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