Mensagem do Bispo do Algarve para a Quaresma de 2018

“…edificar a sua casa sobre a rocha…” (cf. Mt 7,24)

1. Vamos iniciar o caminho que nos conduz à celebração anual da Páscoa, memória
sacramental e perene da Páscoa em que o Senhor Jesus se ofereceu para redenção do
mundo. A verdade da nossa vida cristã e a autenticidade do nosso testemunho
dependem do modo como preparamos e celebramos esta “festa das festas”, já que ela
ilumina e dá sentido a cada um dos dias do ano litúrgico e tem em cada Domingo a sua
celebração semanal.
A Quaresma surge, por isso mesmo, cada ano como um tempo propício para
acolhermos, com um coração mais disponível, os apelos da Palavra Deus e nos
dispormos a progredir, de modo mais intenso, na conversão pessoal; um tempo que
culmina com o reacender da luz batismal e o consequente empenho em “iluminar” as
situações mais escuras da nossa vida e de vida do mundo. Acolher na própria vida,
Cristo vivo e ressuscitado, ou deixar-se acolher por Ele, é o melhor que nos pode
acontecer. E anunciá-lO e testemunhá-l’O é, por isso mesmo, a nossa alegria e a nossa
felicidade (cf. EG 1-3).

2. Inspirámos o nosso Programa pastoral para este ano, com o convite a construir a sua
casa sobre a rocha (cf. Mt 7,24); convite acolhido como condição para, alicerçados
em Cristo, rocha imprescindível na construção da vida cristã e de todas as formas de
vida na Igreja, anunciarmos o evangelho da família. Indicámos como eixo à volta do
qual se deve processar a nossa ação pastoral, uma “ação missionária capaz de
transformar tudo”, verdadeiro “paradigma de toda a obra da Igreja”, e a decisão de
enveredar por um caminho de conversão pastoral e missionária, “que não pode deixar
as coisas como estão” (cf. EG 15.25.27).

3. Considero oportuno incluir esta proposta pastoral no caminho quaresmal que nos
preparamos para iniciar, como revisão de vida pessoal, familiar e das próprias
comunidades paroquiais. Estou certo de que a vivência quaresmal adquiriria um ritmo
mais eficaz e mais fecundo se incluísse opções concretas assumidas pelas comunidades
cristãs e, inclusive, pelas próprias famílias.
Sabemos como “o amor vivido nas famílias é uma força permanente para a vida da
Igreja e, simultaneamente, apelo constante a crescer e a aprofundar este amor. Na sua
união de amor, os esposos experimentam a beleza da paternidade e da maternidade;
partilham projetos e fadigas, anseios e preocupações; aprendem a cuidar um do outro
e a perdoar-se mutuamente. Neste amor, celebram os seus momentos felizes e apoiamse
nos episódios difíceis da história da sua vida. (…) A beleza do dom recíproco e
gratuito, a alegria pela vida que nasce e a amorosa solicitude de todos os seus membros,
desde os pequeninos aos idosos, são apenas alguns dos frutos que tornam única e
insubstituível a resposta à vocação da família, tanto para a Igreja como para a
sociedade inteira” (AL 88).
De que modo, cada membro da família, pode contribuir para o cultivo, a maturação e
a partilha destes frutos? De que modo cada comunidade cristã está a apoiar as famílias,
e cada um dos seus membros, na realização da sua vocação e missão? De que modo
cada comunidade está aberta e decidida a acolher, acompanhar, discernir e integrar a
fragilidade das famílias? Como é cultivado o espírito de compreensão e de
acolhimento, e cada comunidade se torna instrumento da misericórdia que é
“imerecida, incondicional e gratuita” (AL 297)?

4. Não podemos permitir que “o amor arrefeça”, alerta-nos o Papa Francisco na sua
mensagem quaresmal, inclusive o amor vivido nas famílias e partilhado nas
comunidades cristãs. Todos os dias nos confrontamos com inúmeros sinais indicadores
de que ele pode arrefecer e mesmo vir a apagar-se.
A oração, a esmola e o jejum, indicados pela liturgia logo no primeiro dia da quaresma,
constituem sempre meios oportunos, para uma conversão pessoal, de procura do
essencial, de purificação e fortalecimento do amor e de maior adequação da vida ao
Evangelho.
A partilha fraterna, fruto da “renúncia quaresmal”, une-nos anualmente como
expressão solidária com os mais necessitados. A comunidade do Vicariato da Pedra
Mourinha manifesta a todos o seu reconhecimento, pela partilha da quantia recolhida
em 2017 (€18.093,54) a qual, unida a outros apoios diocesanos, lhes permitiu avançar
um pouco mais na concretização do seu sonho: a construção de um complexo pastoral,
do qual faz parte a igreja paroquial.
Este ano convido-vos a igual partilha com a comunidade do Rogil (Aljezur). Há muito
que esta comunidade está empenhada em possuir um espaço próprio que responda às
suas necessidades mais elementares, ao nível da catequese e do aprofundamento da fé,
da celebração do culto, do acolhimento pessoal e da promoção da caridade. Exorto,
igualmente, todas as Paróquias, particularmente as que possuem melhores condições
económicas, à partilha fraterna com esta comunidade, como expressão de comunhão
eclesial.

5. Confiemos a Maria, o nosso caminho quaresmal, certos de que ela nos guiará pela
estrada segura que conduz ao encontro de Cristo Vivo e Ressuscitado, rocha e
fundamento da Igreja e de cada família.
A todos asseguro a minha oração para que a nível pessoal, familiar e eclesial,
percorramos unidos este caminho de conversão quaresmal, daí resultando uma Igreja
diocesana mais fraterna e mais missionária.

Desejo a todos uma frutuosa Quaresma e uma santa Páscoa!

Faro, 12 de fevereiro de 2018

+Manuel Neto Quintas 

Bispo do Algarve 

 

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