29 de março de 2024 – Sexta-feira Santa – Celebração da Paixão do Senhor

Hoje é o dia da morte. Da morte de Jesus mas também o dia em que entendemos como Deus se faz tão próximo, mas tão próximo de nós, que quer morrer como nós morremos.

A cruz! Essa é a nossa. Os cravos nas mãos e nos pés são os nossos. Na cruz está tudo o que somos: a nossa fraqueza, a nossa fragilidade, os nossos pecados, as nossas más escolhas. Na cruz encerram-se todos os mistérios do coração humano. A cruz é humana, dura, forte e difícil de transportar. Seguir Jesus implica não só seguir a cruz mas, como Ele diz, carregá-la também.

Hoje, ao olharmos a cruz, vemos nela todas estas dimensões da nossa vida: doenças, mortes de entes queridos, tragédias do mundo. Deus quer estar ao nosso lado, connosco em todas essas realidades. Por isso a cruz hoje não é um símbolo. É uma verdade e uma realidade bem concreta. Se Deus, em Jesus, quis assumir toda essa realidade humana, vemo-lo como o Homem. Ecce Homo, disse Pilatos. Aqui está o homem não disfarçado com nada que oculte o seu sofrimento. Jesus aparece-nos feio, sujo, rasgado, ferido, ensanguentado. Esta foi a realidade do momento. Mas nessas feridas, nessa coroa, nesses cravos espetados violentamente nas suas mãos e pés está todo o Amor. Por isso a cruz torna-se o sinal do amor pleno. Ele quis aceitar e passar por ela. Duas traves que indicam todo o caminho: o caminho de toda a terra, a largueza de todo o mundo e a elevação da terra ao céu. Pela cruz estamos lançados ao mundo todo e do mundo ao céu, a Deus.

Silêncio diante da cruz. O adorno disfarça. O silêncio leva à contemplação, à adoração. Adorar a cruz é adorar com gestos tão simples e nossos esse profundo mistério da plenitude da entrega por amor.

Não há realidade mais forte. Quando passamos por ela. Quando descemos da cruz alguém nosso, amigo familiar, conhecido. Quando enxugamos as lágrimas a outro, quando compreendemos as feridas no coração dos outros. Quando vivemos tudo isso com verdade. Mas também quando nos vemos ali. Hoje a cruz é um reflexo do que somos. E foi Deus que nos quis mostrar como somos.

Estamos diante do amor total que se entrega no pão e no vinho do altar. Hoje a cruz é o supremo altar, o trono do Deus-Amor. O lugar onde se revela a ânsia de Deus por nós.

Toca-nos a palavra ardente e ansiosa de Jesus: Tenho sede! Claro que tem sede. Cansado, esgotado, fragilizado e desgastado até ao limite das suas forças. Claro que tem sede. Mas não quis beber. Deram-lhe vinagre que ele recusou. O vinagre servia para anestesiar a dor e o sofrimento. Não era um gesto, ou mais um gesto de mau trato, servia para atordoar o condenado atingido por dor profunda. Mas ele recusou. A sede Dele era outra: sede de nós. Pede-nos, uma última vez que nos demos totalmente a Ele. Tem sede de cada um nós. Deseja que voltemos a ele.

E quando diz ter sede, diz-nos que precisa de nós. Está de braços abertos a abraçar-nos a todos. Eis a sede de Deus: quer abraçar-nos a todos.

Deus despido na cruz para nos revestir com a veste da festa e da alegria.

Eis a tua mãe. Que bom! Jesus deixou-nos a Mãe para que ao longo da história da nossa vida esse abraço, através da Mãe possa acontecer. Quando não temos coragem para abraçar a cruz, Maria está para nos abraçar a nós. Ela que firme e forte esteve lá, decerto que se abraçou à cruz e nela e com ela todos nós.

Tudo está consumado. Chegou a hora da vitória. O Amor vence. Tudo está consumado para que tudo comece.

Acontece hoje a nova criação na árvore da vida nova que é a cruz, acontece hoje o caminho para a terra prometida, acontece hoje o dilúvio que lava os nossos pecados, acontece hoje um silêncio único de Deus. Uma divina lágrima derramada pelo Pai que não é indiferente, que está lá e cá, quando um filho Seu é crucificado.

Não olhemos só para a cruz, entremos nela, abracemo-la. Ela é nossa exprime todo o amor.

Tenho sede: que cada um de nós responda a este apelo de Jesus com um: estou aqui! Sou teu. E a sede de Jesus é desfeita!

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