SABER APRENDER – A “metacogitar” sinodalmente

Todos pensamos, mas todos os nossos pensamentos estarão correctos? Quando duas pessoas têm ideias diferentes sobre a mesma coisa, das quatro, uma: 1) ou a primeira pessoa está certa; 2) ou a segunda; 3) ou nenhuma; 4) ou ambas estão a dizer a mesma coisa, mas de duas maneiras diferentes. No caminho sinodal em que nos convidam a partilhar o que pensamos, uma das capacidades mais importantes para o nosso diálogo é a de pensar sobre o que pensamos. Algo que no mundo da educação se chama metacognição. É como se houvesse alguém a dizer-nos — «pensa bem no que estás a pensar. Será mesmo assim?». E isto acontece porque dentro da nossa cabeça existem dois sistemas de pensamento a “metacogitar”: um automático; e outro controlado.

Foto de Clem Onojeghuo em Unsplash
Foto de Clem Onojeghuo em Unsplash

No seu livro “Pensar, depressa e devagar”, o nobel da economia Daniel Kahneman explica estes dois sistemas de pensamento com maior detalhe. Em síntese, o pensar “depressa” é o automático, expedito, que oferece uma solução rápida para qualquer tipo de problema. É o sistema que usamos para perceber quantos pães pedimos ao saber o preço de cada um, ou quanto tempo demora a chegar ao nosso destino conhecendo naquela fase do dia o trânsito e cientes da distância, mas é preciso ter algum cuidado com este sistema de pensamento. Numa aula perguntei — «no total, uma raquete e bola de ping pong custam €1.10, mas a raquete custa mais €1 do que custa a bola. Quanto custa a bola?» — se o leitor estiver a pensar que a bola custa 10 cêntimos terá respondido como o meu aluno, mas a resposta certa é 5 cêntimos. Ora pense bem…

Metacognição é a capacidade de avaliar o que estamos a pensar e a ser críticos relativamente a isso, logo, envolve muito mais o segundo sistema de pensar “devagar” e mais controlado. É aquele tipo de pensar que não responde logo, mas faz uma pausa para compreender bem o que responder e não receia as respostas erradas. Todos estamos cientes (uns mais do que outros) da importância de aprender com os nossos erros. Quando falhamos, acabamos por abrir a possibilidade de evoluirmos no nosso espírito apreendedor, experimentando novas estratégias para abordar os problemas e isso faz parte do nosso crescimento pessoal. Requer humildade, aceitando cada qual como é, mas, também, a capacidade de reconhecer a coragem nas posições vulneráveis. Pois, só falha quem faz alguma coisa. Na partilha dos nossos erros, durante este percurso sinodal que fazemos juntos, é fundamental perceber que isso faz parte da experiência metacognitiva que nos pode re-orientar o caminho na direcção que Deus quiser, não a que pensamos que Ele devia dizer-nos para seguir.

As capacidades metacognitivas do ponto de vista da aprendizagem implicam que se use a ferramenta certa para realizar cada empenho que nos foi confiado, modificar as estratégias quando for necessário, identificar as fontes de bloqueio que nos impedem de atingir os objectivos a que nos propusemos, e ajustar. Se em vez de “aprendizagem” usássemos a palavra Evangelização, as capacidades a desenvolver seriam semelhantes. Porém, existe uma faceta do crescimento metacognitivo aplicada ao caminho sinodal que pode ser menos evidente de aplicar: o pensamento divergente.

O pensamento divergente significa que uma pessoa toma o tempo que precisar para pensar nas diferentes formas de chegar a um objectivo e solução. Isso exige de cada um de nós, um pensar flexível e nem todas as pessoas na Igreja podem estar preparadas para isso. Por exemplo, se o pensamento de Deus só se conhece na medida em que somos sensíveis ao que Ele nos dá a conhecer, ninguém, em rigor, poderá alguma vez dizer — «é este o pensamento de Deus.» Mesmo aquilo que está escrito nos Evangelhos tem sido interpretado e sistematicamente compreendido ao longo dos séculos, na certeza de que, em Jesus, Deus revelou-se totalmente. Por isso, a Boa Nova que Jesus nos pede para anunciar, na sua essência, é a mesma, mas como deve ser permanentemente ajustada à cultura hodierna, “Evangelizar Juntos” é uma missão sempre em renovação.

Existem muitas resistências a mudar o modo como as coisas são feitas na Igreja porque se confunde viver a unidade de pensamento, como um “pensamento convergente”. Por isso, se há muito tempo fazemos, dizemos ou agimos desta maneira, por que razão haveremos de fazer de maneira diferente? Não são esse tipo de modernismos que nos afastam daquilo que Deus quer desde sempre? Parece que acolher um modo diferente de ser Igreja implica, necessariamente, ajustar a fé ao modo como cada época entende as coisas e tememos tornarmo-nos cataventos culturais, esvaziando a fé do seu sentido de eterno. Ora, a unidade de pensamento só é possível se o pensamento for divergente. Explico.

É frequente confundir-se “unidade de pensamento” com termos o mesmo pensamento. O pensamento divergente envolve maior criatividade; porque explora muitos pontos de vista para o mesmo problema. É como se gerasse mais diversidade por reconhecer a natureza poliédrica da realidade. Essa diversidade permite identificar novas oportunidades, encontrar mais caminhos criativos e explorá-los com diferentes perspectivas, favorecendo o diálogo uns com os outros porque todas as ideias têm valor. E quem sabe o que Deus pode inspirar através da ideia de cada um. Por isso, é difícil entender como a diversidade de ideias pode gerar divisão, a não ser que os nossos corações se mantenham fechados na omnipotência da nossa opinião.

Quando procuramos testemunhar a fé e, assim, evangelizar, ao batermo-nos pelas nossas ideias, sem acolher as ideias dos outros, criamos barreiras metacognitivas a nós e aos outros. Diminuímos a diferença que se pode transformar em riqueza criativa para nos mantermos na zona de conforto. A metacognição do pensamento divergente ajudar-nos-á a desenvolver uma capacidade especial, típica da dimensão espiritual da vida humana: a sensibilidade para escutar a voz do Espírito Santo. Em última análise, só com Ele podemos saber aprender a “metacogitar” sinodalmente. Cometeremos muitos erros, mas se reconhecermos que essa é a via agora a percorrer para aprender a cometer menos erros no futuro, assim seja.

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/

Autor: Miguel Oliveira Panão

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