SABER APRENDER – A contemplar o que escutas

Caminhava pela encosta junto à praia na Ericeira. Observava as aves a surfar no vento, as pessoas a surfar nas ondas e outras, caminhantes como eu, que “surfavam” pelos trilhos. A um dado momento, depois de uma subida e diante da decisão de voltar para casa, parei por uns minutos. Pensava que estava a observar o horizonte através daquela linha infinita que distingue o mar do céu azul, mas comecei gradualmente a dar-me conta de que fazia algo mais para além de observar. Escutava.

O vento que refresca e as ondas do mar oceânico produzem o mesmo som desde os primórdios da Terra. Por isso, quando os escuto é como viajasse no tempo e estivesse a escutar o ambiente de uma Terra primitiva antes das plantas e dos animais existirem. «Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus.» — diz o Papa Francisco na Laudato Si’ (n. 84). Por isso, se o universo é a linguagem de amor através da qual Deus nos fala, o que nos está a dizer desde os primórdios do nosso planeta?

No Santuário da Fonte Colombo, S. Francisco escreveria a sua primeira Regra. Entrei na capela de S. Miguel e ali estava, suspensa na parede. Senti-me convidado a sentar, parar, e fazer um momento de silêncio, recolhendo-me como nos tinham proposto naquela peregrinação. Mas não fiquei por ali. Decidi caminhar pela floresta porque gostaria de fazer a mesma experiência que S. Francisco fazia ao imergir-se pela natureza. Na floresta, o canto dos pássaros e das cigarras, o zumbido das abelhas, e outros sons cuja fonte desconheço, sobrepunham-se ao vento que fazia as árvores dançar. O canto primitivo do vento era sucedido na história do planeta pelo canto das criaturas. Nesse momento compreendi a razão da profundidade do escrito de S. Francisco — provinha da experiência de contemplar a escuta. Não poderá esta contemplação da escuta dos sons primitivos, e dos mais recentes, ser uma forma de celebrar o Tempo da Criação? E de onde vem a capacidade de escutar?

Os sons primitivos são impulsionados pelo sol, pela gravidade e pelo calor no nosso planeta Terra. Quando existem diferenças de temperatura, geram-se diferenças de concentração no ar e esse, à procura do equilíbrio, move-se e faz-se vento. A gravidade e o vento, ao interagirem com a superfície do mar geram a ondas que junto à margem encontram a resistência no solo que induz uma diferença na velocidade entre a base e o topo que leva ao rebentamento da onda e ao som tão característico que ouvi nas praias da Ericeira. Existem razões físicas para a escuta dos sons de natureza geológica. Porém, ao contrário do vento e das ondas do mar, por mais fósseis que encontremos, nenhum dá-nos pistas dos sons produzidos pelos primeiros seres multicelulares. É como se durante 3 mil milhões de anos, a terra fervilhasse cada vez mais numa vida silenciosa. O que aconteceu à vida para lhe dar a sensibilidade de ouvir sons?

David George Haskell num artigo para a Resurgence (Jul/Ago, 2022) explica que — «durante aqueles longos, silenciosos anos, a evolução construiu a estrutura que mais tarde transformaria os sons da Terra. Esta inovação – um minúsculo ondulante cabelo na membrana de uma célula – ajudou as células a nadar e a arranjar comida. Este cabelo, conhecido como cílio, projecta-se no fluido em torno da célula.(…) O movimento da água circundante é transmitido ao conjunto de proteínas no núcleo do cílio e volta de novo para a célula, tornando-se o fundamento para a consciência que a vida tem das ondas de som.» Ou seja, a causa da nossa capacidade de escutar está num singelo cabelo ondulante. Contudo, a vida fisicamente transformada para escutar não deveria, em nós, seres conscientes das nossas experiências, produzir uma ligação diferente com a terra?

No seu livro “Artic Dreams”, o escritor Barry Lopez partilha a seguinte experiência — «Um homem de Anaktuvuk Pass, em resposta à questão sobre o que fazia quando visitava um novo lugar, disse-me, “Eu escuto.” É tudo. Eu escuto, queria ele dizer, àquilo que a terra está a dizer. Caminho por ela e apuro os meus sentidos em apreciação a essa por um longo tempo antes de eu próprio falar qualquer palavra que seja. Entrando deste modo respeitoso, acreditava, a terra abrir-se-ia a ele.» Que intimidade em tão grande simplicidade. A vida exterior pela experiência do sentido de ouvir adquire a oportunidade de na vida interior descobrir o sentido de escutar. Mas através da evolução que em nós, humanos, passou a ser cultural, os sons voltaram a mudar.

Acordo cedo e vou para a sala onde se encontra o meu caderno para escrever as páginas pessoais. Abro o estore de uma das janelas que mantenho fechada, e a abro a outra janela mantendo o estore fechado. Assim, renovo o ar da sala com a frescura da manhã e preparo-me para escutar. Porém, não consigo escutar o vento ou o canto dos pássaros. A eles sobrepõe-se o som dos pneus na estrada e dos motores. Naquele momento dou-me conta de como mudámos os sons do planeta com os nossos estilos de vida. E ao perder o contacto com os sons naturais, parece que uma parte de mim encontra-se incompleta.

Neste Tempo da Criação, a que dedicamos o mês de setembro, creio que saber aprender a contemplar o que escutamos pode aumentar a nossa sensibilidade para a necessidade de mudar os nossos estilos de vida. Voltar a caminhar pela floresta, jardim, ou praia, é o mesmo que ir ao encontro da voz de Deus que, através dos sons mais primitivos misturados com os mais actuais, não cessa de nos dizer — «amo-te imensamente…» — e se cada um de nós, por ter escutado, se sentir por Deus amado, será natural querer amar por reencontrar a serenidade de quem se predispõe a escutar. Tudo o que escutamos provém daquele ínfimo cabelo ciliar. Por isso, cada acto de escuta da natureza ou do outro, pode ser aquele ínfimo acto que nos transforma, e ao outro, interiormente. Contemplar o que escutas é dar uma oportunidade para descobrires Aquela Voz que fala interiormente através do silêncio.

 

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/

Autor:Miguel Oliveira Panão 

Foto de Miguel Panão (2022)

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