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OS MANDAMENTOS, DEZ PALAVRAS PARA VIVER A ALIANÇA COM DEUS

A partir do dia 13 de Junho passado, o Papa Francisco iniciou nas audiências gerais das quartas-feiras um novo ciclo de catequeses, sobre os mandamentos.

Damos a seguir a alocução da audiência do dia 20 de Junho, em que apresentou os mandamentos, não como simples leis a impor coactivamente, mas como palavras de Deus para orientar o caminho dos homens para a felicidade.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Esta audiência realiza-se em dois lugares: nós, aqui na praça; e na Sala Paulo VI há mais de 200 doentes, que acompanham a audiência através do grande ecrã. Todos juntos formamos uma comunidade. Saudemos com um aplauso quantos estão na Sala.

Na quarta-feira passada demos início a um novo ciclo de catequeses sobre os mandamentos. Vimos que o Senhor Jesus não veio abolir a Lei, mas completá-la. Contudo, devemos entender melhor esta perspectiva.

Na Bíblia, os mandamentos não vivem por si, mas são parte de um relacionamento, de uma relação. O Senhor Jesus não veio abolir a Lei, mas completá-la. Existe aquela relação da Aliança [1] entre Deus e o seu Povo. No início do capítulo 20 do livro do Êxodo lemos – e isto é importante – «Deus pronunciou todas estas palavras» (v. 1).

Parece uma introdução como qualquer outra, mas na Bíblia nada é banal. O texto não diz: «Deus pronunciou estes mandamentos», mas «estas palavras». A tradição hebraica chamará sempre ao Decálogo “as dez Palavras”. E o termo “decálogo” quer dizer exactamente isto [2]. Contudo, têm forma de leis, são objectivamente mandamentos. Por que, então, o Autor sagrado usa, precisamente aqui, o termo “dez palavras”? Porquê? E não diz “dez mandamentos”?

Que diferença há entre um mandato e uma palavra? O mandato é uma comunicação que não requer diálogo. Pelo contrário, a palavra é o meio essencial da relação como diálogo. Deus Pai cria por meio da sua palavra, e o seu Filho é a Palavra que se fez carne. O amor alimenta-se de palavras, e assim é a educação ou a colaboração. Duas pessoas que não se amam, não conseguem comunicar-se. Quando alguém fala ao nosso coração, a nossa solidão termina. Quando se recebe uma palavra, dá-se a comunicação. E os mandamentos são palavras de Deus: Deus comunica-se nestas dez Palavras e aguarda a nossa resposta.

Uma coisa é receber uma ordem, outra coisa é sentir que alguém procura falar connosco. Um diálogo é muito mais que a comunicação de uma verdade. Eu posso dizer-vos: “Hoje é o último dia de primavera, primavera quente, mas hoje é o último dia”. Isto é uma verdade, não é um diálogo. Mas se eu vos disser: “O que pensais desta primavera?”, começo um diálogo. Os mandamentos são um diálogo. A comunicação realiza-se pelo prazer de falar e pelo bem concreto que se comunica entre aqueles que se estimam por meio das palavras. É um bem que não consiste em coisas, mas nas próprias pessoas que se entregam reciprocamente no diálogo (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 142).

Mas esta diferença não é algo artificial. Vejamos o que aconteceu no princípio. O Tentador, o diabo, quer enganar o homem e a mulher neste ponto: quer convencê-los de que Deus lhes proibiu comer o fruto da árvore do bem e do mal, para os manter submissos. O desafio é precisamente este: a primeira norma que Deus deu ao homem é a imposição de um déspota que proíbe e obriga, ou é a preocupação de um pai que cuida dos seus filhos e os protege da autodestruição? É uma palavra ou é um mandato? Entre as várias mentiras que a serpente diz a Eva, a mais trágica é a sugestão de uma divindade invejosa: “Não, Deus tem inveja de vós”; e de uma divindade possessiva: “Deus não quer que tenhais liberdade”. Os acontecimentos demonstram dramaticamente que a serpente mentiu (cf. Gen 2, 16-17; 3, 4-5), fez acreditar que uma palavra de amor era um mandato.

O homem está perante esta alternativa: Deus impõe-me as coisas, ou cuida de mim? Os seus mandamentos são apenas uma lei, ou contêm uma palavra, para cuidar de mim? Deus é patrão ou Pai? Deus é Pai: não vos esqueçais nunca disto! Mesmo nas piores situações, pensai que temos um Pai que nos ama a todos. Somos súbitos ou filhos? Este combate, dentro e fora de nós, apresenta-se continuamente: mil vezes temos de escolher entre uma mentalidade de escravos e uma mentalidade de filhos. O mandato é do patrão, a palavra é do Pai.

O Espírito Santo é um Espírito de filhos, é o Espírito de Jesus. Um espírito de escravos não pode deixar de receber a Lei de modo opressivo, e pode produzir dois resultados opostos: ou uma vida feita de deveres e de obrigações, ou então uma reacção violenta de recusa. Todo o Cristianismo é a passagem da letra da Lei para o Espírito que dá vida (cf. 2 Cor 3, 6-17). Jesus é a Palavra do Pai, não é a condenação do Pai. Jesus veio para salvar, com a sua Palavra, não para nos condenar.

Vê-se quando um homem ou uma mulher viveram ou não esta passagem. As pessoas reparam se um cristão raciocina como filho ou como escravo. E nós próprios recordamos se os nossos educadores cuidaram de nós como pais e mães, ou se somente nos impuseram regras. Os mandamentos são o caminho para a liberdade, porque são a palavra do Pai que nos torna livres neste caminho.

O mundo não tem necessidade de legalismo, mas de cuidado. Tem necessidade de cristãos com o coração de filhos [3]. Tem necessidade de cristãos com o coração de filhos: não vos esqueçais disto!

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[1] O cap. 20 do livro do Êxodo é precedido pela oferta da Aliança, no cap. 19, onde é central o pronunciamento: «Agora, pois, se escutardes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos; pois é minha toda a terra! Vós sereis para mim um reino de sacerdotes, uma nação consagrada» (Ex 19, 5-6). Esta terminologia encontra uma síntese emblemática em Lev 26, 12: «Caminharei no meio de vós: serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo» e chegará até ao nome preanunciado do Messias, em Isaías 7, 14, ou seja, Emanuel, que aparece em Mateus: «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que se chamará Emanuel, que significa “Deus connosco”» (Mt 1, 23). Tudo isto indica a natureza essencialmente relacional da fé judaica e, no máximo grau, da fé cristã.

[2] Cf. também Ex 34, 28b: «E o Senhor escreveu nas tábuas o texto da aliança, as dez palavras».

[3] Cf. João Paulo II, Carta Enc. Veritatis splendor, 12: «O dom do Decálogo é promessa e sinal da Nova Aliança, quando a lei for novamente e definitivamente escrita no coração do homem (cf. Jer 31, 31-34), substituindo a lei do pecado, que aquele coração tinha deturpado (cf. Jer 17, 1). Então será dado “um coração novo”, para que nele habite “um espírito novo”, o Espírito de Deus (cf. Ez 36, 24-28)».

 

 

Fonte: 

Celebração Litúrgica 

Edição nº 5 | Tempo Comum | Agosto/Setembro 2018

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