12 de junho de 2026 – Solenidade do Sagrado Coração de Jesus – Ano A

Quem é esse Deus em quem acreditamos? Qual é a sua essência? Como é que o podemos definir? A liturgia deste dia diz-nos que “Deus é amor”. Convida-nos a contemplar a bondade, a ternura e a misericórdia de Deus, a deixarmo-nos envolver por essa dinâmica de amor, a viver “no amor” a nossa relação com Deus e com os irmãos.

1ª Leitura 

Dizer que Israel é “um Povo consagrado ao Senhor” significa dizer que Israel é um Povo “santo”, “separado”, “reservado para o serviço de Jahwéh”. A santidade é uma nota constitutiva da essência de Deus; quando se aplica a mesma noção ao Povo, significa que este entrou na esfera divina, que passou a viver na órbita de Deus, que foi separado do mundo profano para pertencer exclusivamente a Deus. Fica, no entanto, claro no texto que o único responsável pela eleição de Israel é Deus. Não foi Israel que se consagrou ao serviço de Deus, ou que se elevou até Deus; foi Deus que, por sua iniciativa, escolheu Israel no meio de todos os outros povos, fez dele um Povo especial e colocou-o ao seu serviço.
Porque é que Jahwéh elegeu precisamente a Israel e não a qualquer outro Povo? Segundo a catequese do autor deuteronomista, a eleição divina de Israel não se baseia na sua grandeza ou poder, mas no amor gratuito de Deus e na sua fidelidade ao juramento feito aos antepassados do Povo. A eleição não é fruto de uma conquista humana, mas é sempre pura graça de Deus. Toca-se aqui o mistério do amor insondável e gratuito de Deus para com o seu Povo, amor estranho e inexplicável, mas inquestionável e eterno.
De resto, a eleição divina de Israel não é um piedoso desejo do Povo, ou conversa abstracta de teólogos; mas é uma realidade que Israel pôde confirmar na sua história… A libertação do Egipto, a derrota do poder opressor do faraó, a fuga do Povo oprimido para a segurança libertadora do deserto confirmam a eleição de Israel e o amor de Deus pelo seu Povo.
Qual deve ser a resposta de Israel ao amor de Deus?
Antes de mais, Israel deve reconhecer que Jahwéh “é que é Deus”. Israel é convidado a prescindir de outros deuses, de outras referências, e a construir toda a sua existência à volta de Jahwéh, do seu amor e da sua bondade (vers. 9-10).
Depois, a resposta do Povo ao amor de Deus deve traduzir-se na observância dos “mandamentos, leis e preceitos” que Jahwéh propõe ao seu Povo (vers. 11). Os mandamentos são os sinais que permitem a Israel manter-se em comunhão com Deus, como Povo “santo” consagrado ao Senhor.

2ª Leitura 

O autor vai, pois, dizer aos crentes que o amor é um elemento essencial da identidade cristã. É o amor que distingue aqueles que são de Deus daqueles que não são de Deus.
O ponto de partida é a constatação de que Deus é amor (vers. 8.16). O que é que isso significa? Significa que o amor é a essência de Deus, a sua característica mais acentuada, a sua actividade mais específica. Significa que, ao relacionar-se com os homens, Deus não pode deixar de tocá-los com a sua bondade, a sua ternura, a sua misericórdia.
Dizer que Deus é amor não significa, portanto, falar de uma qualidade abstracta de Deus, mas falar de acções concretas de Deus em favor do homem. O amor de Deus manifesta-se de forma clara, insofismável, inequívoca, no envio de Jesus, o Filho, que se tornou um homem como nós, que partilhou a nossa humanidade, que nos ensinou a viver a vida de Deus e, levando ao extremo o seu amor pelos homens, morreu na cruz. A cruz manifesta a “qualidade” do amor de Deus pelos homens: amor gratuito, incondicional, de entrega total, de dom radical, que transforma os homens e os projecta para a vida nova da felicidade sem fim.
Ora, se Deus é amor, aqueles que nasceram de Deus e que são de Deus devem viver no amor. “Se Deus nos amou, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (vers. 11). Para um cristão, não chega descobrir que Deus o ama e ficar de braços cruzados a contemplar, com beatitude, esse amor. É que o amor de Deus transforma o coração do homem, insere-o numa dinâmica de vida nova, convida-o a rejeitar o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência e a viver na comunhão com Deus e com os irmãos. Como o amor que Deus tem por nós, também o nosso amor pelos irmãos deve ser gratuito, incondicional, total, até à morte.
Viver no amor é escolher Deus, permanecer em Deus, viver em comunhão com Deus. Quando mantemos essa relação com Deus, o Espírito reside em nós e opera, por nosso intermédio, obras grandiosas em favor do homem – obras que dão testemunho do amor de Deus.
Em conclusão: a esses pregadores heréticos para quem é possível “conhecer Deus”, sem aceitar Jesus Cristo como o Filho de Deus incarnado e sem amar os irmãos, o autor da Primeira Carta de João diz: Deus é amor e Jesus Cristo, o Filho de Deus que veio ao nosso encontro para nos apresentar o projecto salvador do Pai, é a manifestação clara e concreta do amor do Pai; aceitar Jesus Cristo e segui-l’O insere-nos numa lógica de amor gratuito, absoluto, incondicional, que transforma o nosso coração, que nos liberta do egoísmo e que nos leva a amar os nossos irmãos… Quem vive nesta dinâmica, “conhece” Deus e vive em comunhão com Ele; quem não vive pode ter todas as pretensões que quiser de “conhecer” a Deus, mas está muito longe d’Ele.

 

Evangelho 

A primeira sentença (cf. Mt 11,25-26) é uma oração de louvor que Jesus dirige ao Pai, porque Ele escondeu “estas coisas” aos “sábios e inteligentes” e as revelou aos “pequeninos”.
Os “sábios e inteligentes” são certamente esses “fariseus” e “doutores da Lei” que absolutizavam a Lei, que se consideravam justos e dignos de salvação porque cumpriam escrupulosamente a Lei, que não estavam dispostos a deixar pôr em causa esse sistema religioso em que se tinham instalado e que – na sua perspectiva – lhes garantia automaticamente a salvação. Os “pequeninos” são os discípulos – os primeiros a responder positivamente à oferta do “Reino”; e são também esses pobres e marginalizados (os doentes, os publicanos, as mulheres de má vida, o “povo da terra”) que Jesus encontrava todos os dias pelos caminhos da Galileia, considerados malditos pela Lei, mas que acolhiam, com alegria e entusiasmo, a proposta libertadora de Jesus.
A segunda sentença (cf. Mt 11,27) relaciona-se com a anterior e explica o que é que foi escondido aos “sábios e inteligentes” e revelado aos “pequeninos”. Trata-se, nem mais nem menos, do “conhecimento” (quer dizer, uma “experiência profunda e íntima”) de Deus.
Os “sábios e inteligentes” (fariseus e doutores da Lei) estavam convencidos de que o conhecimento da Lei lhes dava o conhecimento de Deus. A Lei era uma espécie de “linha directa” para Deus, através da qual eles ficavam a conhecer Deus, a sua vontade, os seus projectos para o mundo a para os homens; por isso, apresentavam-se como detentores da verdade, representantes legítimos de Deus, capazes de interpretar a vontade e os planos divinos.
Jesus deixa claro que quem quiser fazer uma experiência profunda e íntima de Deus tem de aceitar Jesus e segui-l’O. Ele é “o Filho” e só Ele tem uma experiência profunda de intimidade e de comunhão com o Pai. Quem rejeitar Jesus não poderá “conhecer” Deus: quando muito, encontrará imagens distorcidas de Deus e aplicá-las-á depois para julgar o mundo e os homens. Mas quem aceitar Jesus e O seguir, aprenderá a viver em comunhão com Deus, na obediência total aos seus projectos e na aceitação incondicional dos seus planos.
A terceira sentença (cf. Mt 11,28-30) é um convite a ir ao encontro de Jesus e a aceitar a sua proposta: “vinde a Mim”; “tomai sobre vós o meu jugo…”.
Entre os fariseus do tempo de Jesus, a imagem do “jugo” era aplicada à Lei de Deus (cf. Si 6,24-30; 51,26-27) – a suprema norma de vida. Para os fariseus, por exemplo, a Lei não era um “jugo” pesado, mas um “jugo” glorioso, que devia ser carregado com alegria.
Na realidade, tratava-se de um “jugo” pesadíssimo. A impossibilidade de cumprir, no dia a dia, os 613 mandamentos da Lei escrita e oral criava consciências pesadas e atormentadas. Os crentes, incapazes de estar em regra com a Lei, sentiam-se condenados e malditos, afastados de Deus e indignos da salvação. A Lei aprisionava em lugar de libertar e afastava os homens de Deus em lugar de os conduzir para a comunhão com Deus.
Jesus veio libertar o homem da escravidão da Lei. A sua proposta de libertação plena dirige-se aos doentes (na perspectiva da teologia oficial, vítimas de um castigo de Deus), aos pecadores (os publicanos, as mulheres de má vida, todos aqueles que tinham publicamente comportamentos política, social ou religiosamente incorrectos), ao povo simples do país (que, pela dureza da vida que levava, não podia cumprir escrupulosamente todos os ritos da Lei), a todos aqueles que a Lei exclui e amaldiçoa. Jesus garante-lhes que Deus não os exclui nem amaldiçoa e convida-os a integrar o mundo novo do “Reino”. É nessa nova dinâmica proposta por Jesus que eles encontrarão a alegria e a felicidade que a Lei recusa dar-lhes.
A proposta do “Reino” será uma proposta reservada a uma classe determinada (os pobres, os débeis, os marginalizados), em detrimento de outra (os ricos, os poderosos, os da “situação”)? Não. A proposta do “Reino” destina-se a todos os homens e mulheres, sem excepção… No entanto, são os pobres e débeis, aqueles que já desesperaram do socorro humano que têm o coração mais disponível para acolher a proposta de Jesus. Os outros (os ricos, os poderosos) estão demasiado cheios de si próprios, dos seus interesses, dos seus esquemas organizados, para aceitar arriscar na novidade de Deus.
Acolhendo a proposta de Jesus e seguindo-O, os pobres e oprimidos encontrarão o Pai, tornar-se-ão “filhos de Deus” e descobrirão a vida plena, a salvação definitiva, a felicidade total.

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