14 de junho de 2026 – 11º Domingo do Tempo Comum – Ano A | Primogénito: uma responsabilidade, não um privilégio

O número de padres e freiras diminuiu dramaticamente, os abandonos aumentam, a média de idade sobe e as perspetivas de uma inversão de tendência são praticamente nulas. Que fazer? A resposta é óbvia: «Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.» sem dúvida que é preciso rezar diariamente pelas vocações sacerdotais e religiosas, mas restringir a estas categorias de cristãos a aplicação do trecho evangélico que nos é proposto hoje é incorreto e até mesmo perigoso: leva a pensar que somente estas pessoas se devem empenhar no serviço à comunidade, e pressupõe que o povo de Deus seja um rebanho de «ovelhas sem pastor», seja uma «seara» que não é ceifada e que se perde por falta de «ceifeiros».
A objeção mais importante a esta interpretação nasce do facto que não se percebe por que motivo se deve rezar a Deus para que mande pastores para o seu rebanho e trabalhadores para o seu campo. Se assim fosse, estaria a comportar-se de uma forma irritante: nós aqui a trabalhar para além das nossas forças, noites e dias dedicados ao estudo da Palavra de Deus, ao anúncio do Evangelho e ao apostolado, enquanto Ele estaria a assistir, impassível, à dispersão das ovelhas e à perda da colheita. Daria vontade de desistir e pensar noutra coisa.
Os doze discípulos – digamo-lo já – não representam os padres e as freiras, mas todo o povo de Deus e, nesta perspetiva, a interpretação do trecho muda. É cada discípulo que é chamado a cumprir uma missão no campo – que é o mundo. Seja qual for a sua condição de vida ( casado ou celibatário, formado ou ignorante, forte ou fraco…) cada um deve empenhar-se na construção do Reino de Deus.
Agora, é clara a razão pela qual é urgente a oração: não se trata de convencer Deus, mas de mudar o coração do homem. Ao homem é pedido que desapegue a sua própria mente e o seu próprio coração dos critérios e juízos deste mundo, que assimile os pensamentos de Deus e que adote a vida nova proposta por Cristo. Como obter esta conversão, esta transformação radical? Só o diálogo com Deus e a meditação da sua Palavra podem realizar o prodígio. É esta a oração que Jesus recomenda a cada um de nós hoje.
Vamos agora ao chamamento e ao envio dos doze.
Há uma diferença notável entre o comportamento do mestre Jesus e o dos rabis do seu tempo. Estes rodeavam-se de discípulos para os tornarem, por sua vez, rabis honrados, e serem servidos e bem retribuídos. Jesus chama os seus para o serviço. Sente compaixão pelo seu povo, porque não vê ninguém que cuide dele: nem os chefes políticos nem as autoridades religiosas. Estes procuram defender os seus próprios interesses, as próprias vantagens e as perspetivas de carreira. Procuram os privilégios, querem melhorar as suas próprias vidas e desleixam o cuidado do povo que tem fome, está doente, vive na opressão e é vítima de abusos.
Jesus é sensível às necessidades e às dores das pessoas. Nos Evangelhos encontra-se apenas doze vezes o verbo splagknizomai e é sempre utilizado para exprimir a íntima comoção de Deus ou de Cristo em relação ao homem. Aqui, é aplicado aos sentimentos que Jesus experimenta: não fica impassível, não olha com desapego e desinteresse a condição em que se debate o seu povo, mas comove-se; experimenta uma emoção visceral (splagkna em grego indica as vísceras).
Esta compaixão leva-o a intervir. Dá início a um povo novo: chama os doze e este número refere-se às doze tribos de Israel.
Jesus ordena a estes discípulos que continuem a sua obra, e por isso quer que eles, antes de mais, rezem, porque somente pela oração podem assimilar os sentimentos de Deus: depois dá-lhes a autoridade de expulsar os demónios e curar os doentes.

Não se deve pensar que os cristãos (e os padres de modo particular) tenham recebido algum antigo poder para realizarem prodígios, para curarem milagrosamente as pessoas. Os demónios e as doenças são o símbolo de tudo aquilo que se opõe à vida – física, psíquica, espiritual – da pessoa, são a expressão de todas as formas de morte com as quais, momento a momento, nos confrontamos.
A autoridade que Jesus dá não é sobre as pessoas, mas sobre o mal, é a força prodigiosa da sua Palavra que é capaz de debelar o mal e criar um mundo novo.
Nos últimos versículos, a missão a que são chamados é lembrada outra vez: «Pelo caminho, proclamai que está perto o Reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios». Trata-se – como é fácil verificar – de tudo aquilo que Jesus fez. Os cristãos são chamados a usar todas as suas energias para «reproduzir), para tornar presente no mundo o seu Mestre. Ele é o primeiro operário enviado para a seara, os discípulos são os seus colaboradores – como bem compreendeu Paulo.
A ordem com que se conclui o trecho – «Recebeste de graça, dai de graça» – é a exigência de completo desapego a qualquer forma de interesse egoísta no cumprimento da ação apostólica.
O discípulo de Cristo não trabalha para obter algum tipo de vantagem pessoal: ser conhecido, estimado, reverenciado, para enriquecer. A sua única recompensa será a alegria de ter servido e amado os irmãos com a generosidade com que viu operar Jesus.

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