07 de junho de 2026 – 10º Domingo do Tempo Comum – Ano A | Como ajudar quem errou? Excluindo-o do banquete?

O chamamento de Mateus não é relatado para nos informar acerca das circunstâncias em que aconteceu, mas para transmitir uma mensagem que diz respeito a todos os discípulos.
A cena descrita recalca claramente a da vocação dos primeiros quatro Apóstolos; Jesus caminha, vê alguém que está a fazer o seu trabalho, dirige-lhe o convite a segui-lo, este abandona tudo e segue-o.
O chamamento de Mateus é diferente do de Pedro, André, Tiago e João apenas por um detalhe significativo: a sua profissão não é a profissão simples e honrada dos pescadores, mas sim a do cobrador de impostos, um trabalho que faz com que seja malvisto pelo povo, não só porque ninguém gosta de pagar impostos, mas também porque o publicano é considerado uma pessoa impura, um colaboracionista da estrutura estatal opressiva, e também um ladrão. A sua salvação é considerada praticamente impossível, de facto, a lei estabelece que quem roubou deve restituir o produto do roubo acrescido de vinte por cento. Como poderia um cobrador de impostos satisfazer esta condição se nem mesmo ele sabe quanto – e a quem – roubou?
Nesta chamada de atenção para a profissão está a primeira mensagem do trecho. O evangelista indica quem são as pessoas que Jesus convida para o seguirem.
Os rabis não admitiam entre os próprios discípulos as pessoas de má fama, os pecadores, os pobres da terra, os pastores, os leprosos com os quais não tinham nenhum relacionamento. É precisamente a estes que Jesus dirige o seu convite. Ele não chama quem merece, quem é bem intencionado, quem está preparado espiritualmente, mas quem precisa da sua salvação.
Curiosamente, a vocação de Mateus assemelha-se à do paralítico que o evangelista acabou de relatar. Mateus não está imóvel numa cama, mas numa cadeira, está «sentado no posto de cobrança dos impostos»; tem os olhos fixos no dinheiro e nos registos, e nenhuma força parece ser capaz de o mover, nenhuma palavra humana é capaz de o levantar. Porém, o olhar e a palavra de Jesus conseguem aquilo que ninguém ousava imaginar. Logo que ouve o convite do Mestre, Mateus levanta-se, segue-o – precisamente como fez o paralítico – e encaminha-se «para sua casa», onde encontra preparado um grande jantar. O prodígio aconteceu: o camelo passou pelo buraco da agulha, o rico entrou no Reino dos Céus; aquilo que «aos homens era impossível» foi realizado por Deus.
Por que é que Jesus chamou Mateus, onde queria levá-lo?
A esta pergunta responde a segunda parte do trecho: convidou-o para uma festa. «Chamar os pecadores» não significa censura-los,
Atirar-lhes à cara as misérias morais em que caíram, humilha-los, chamar-lhes a atenção para o cumprimento de deveres e preceitos; é, antes de mais, anunciar-lhes que são esperados na sala onde está preparado um banquete. Talvez tenham experimentado todo o tipo de prazeres, mas nunca saborearam a alegria. Agora, Jesus quer levá-los à alegria do Reino de Deus, porque «o Reino de Deus é alegria».
Em que casa se fez a festa? Lucas afirma explicitamente que foi organizada na casa de Levi onde, para a ocasião, ele convidou uma multidão de colegas seus. A versão de Mateus é diferente; ele diz: «Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos». Marcos é mais explícito: «Depois quando se encontrava à mesa em casa dele». Então não é à casa do novo apóstolo que chegam e tomam lugar à mesa «muitos publicanos e pecadores», mas à de Jesus. Assim se explica melhor o desdenho dos fariseus que censuram o Mestre que «acolhe os pecadores e come com eles» e se comporta como «amigo de cobradores de impostos e pecadores». Aqui a referência não é tanto ao edifício material, quanto à comunidade; é esta a casa onde Jesus acolhe todos os pecadores.
Os gestos, como sabemos, são muitas vezes mais expressivos que as palavras. Comer e beber servem para satisfazer uma necessidade biológica, mas sentar-se à mesa com alguém não equivale a matar a fome e a sede, é sinal de intimidade e comunhão. É por este motivo que, nas primeiras comunidades cristãs, os judeus cumpridores se recusavam a sentar à mesa com os seus irmãos de fé provenientes do paganismo. Também Pedro, durante um certo período, esteve hesitante: antes «comia juntamente com os gentios», depois «retirava-se e separava-se, com medo dos partidários da circuncisão».
O comportamento provocatório de Jesus, comendo à mesa com os publicanos, não podia ser entendido e aceite logo; constituía uma surpresa para todo o israelita piedoso, educado na expectativa do banquete do Reino de Deus reservado aos justos, aos piedosos.
Esta observação introduz-nos na terceira parte do trecho onde é descrita a inevitável disputa com os fariseus. Perante Jesus que quebra as regras, os «justos» reagem. O que é que os irrita no seu comportamento? Não é certamente a tentativa de levar ao arrependimento e à conversão os pecadores. Se fosse apenas isto, os fariseus – qe « percorriam o mar e a terra para fazer um prosélito» – só poderiam apreciar o seu zelo e dar-lhe os parabéns.
O gesto de Jesus contém uma mensagem explosiva para a mentalidade judaica: Ele oferece a salvação a todos, não só aos justos.
A sua resposta às crísticas é articulada em três frases decididas, que não admitem réplica. Cita antes de mais um antigo provérbio, não sem uma ironia subtil: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes»; depois introduz uma citação bíblica que é talvez a mais revolucionária de todo o Evangelho: Ide aprender o que significa: «Eu quero obras de amor ao homem, não sacrifícios». Por fim, resume a sua escolha com a frase: «Não vim chamar (para a festa, claro!) os justos, mas os pecadores».
O erro dos fariseus (cujo nome significa «separados», «santos») é imaginarem que Deus «santo» não queria ter nada a ver com os pecadores, e pensarem estar a imitá-lo ao afastarem-se de quem transcura a lei de Deus, ou, pior ainda, renega o Senhor. Com a sua atitude, Jesus declara que Deus não aceita ser associado a tais discriminações.
Não há dúvida que a comunidade cristã atual tem o dever de apresentar, de forma íntegra, o Evangelho, e não pode fazer «descontos» em relação a tudo aquilo que Jesus ensinou. Tem também o direito de fazer notar, a quem não quer seguir Cristo, que certas escolhas colocam a pessoa fora da comunidade e do Reino de Deus; no entanto, há que perceber se é oportuno que alguém seja juridicamente expulso. O perigo de «apagar a torcida que fumega» é sempre grave e é um risco que seria melhor não correr.

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