Todos os evangelistas dedicam bastante espaço ao relato da paixão e morte de Jesus. Os factos são, fundamentais, os mesmos, embora narrados de formas e a partir de perspetivas diferentes. Cada evangelista apresenta também episódios, detalhes e destaques próprios. Estes indicam a sua atenção e o seu interesse por alguns temas de catequese considerados significativos e urgentes para a comunidade.
A versão do relato da paixão que hoje nos é proposta é a de Mateus. No nosso comentário vamo-nos limitar a sublinhar os aspetos caraterísticos.
O primeiro, muito importante, é que Mateus enquadra todo o relato com repetidas chamadas de atenção para o cumprimento das Escrituras.
Ainda quando está sentado à mesa, durante a Última Ceia, Jesus pronunciou uma frase que dá a chave de leitura para tudo o que irá acontecer em seguida: «O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca dele».
Em seguida, no Jardim das Oliveiras, quando os guardas se aproximam para o prender, como se fosse um bandido, Ele reage dizendo: «Tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».
Mateus nota que até mesmo os detalhes mais secundários da paixão, como o da traição de Judas por trinta moedas de prata, tinham sido anunciados pelos profetas.
Temos sobretudo um paralelismo, desejado por este evangelista, entre a paixão de Jesus e o drama vivido pelo justo de quem se fala no Salmo 22.
– É objeto dos mesmos escárnios: «Todos os que me vêem escarnecem de mim; estendem os lábios e abanam a cabeça. Confiou no Senhor, Ele que o livre; Ele que o salve, já que é seu amigo»; é exatamente o que aconteceu ao pé da cruz, e são idênticos os insultos dirigidos a Jesus.
-Também ele, como Jesus, tem sede «A minha garganta secou-se como barro cozido».
– Está envolvido por malvados e diz: «Trespassaram as minhas mãos e os meus pés». Depois continua: «Repartiram entre si as minhas vestes e sorteiam a minha túnica». Foi o que fizeram os soldados aos pés da cruz.
– E por fim, como Jesus, também ele emite um grito.
São tantas e tais as correspondências que somos levados a supor que o autor do salmo queria fazer uma previsão exata, até aos mínimos detalhes, do que um dia iria acontecer ao Messias. Mas não é assim.
As semelhanças surpreendentes são devidas a uma escolha teológica do evangelista, que quis contar a paixão e morte de Jesus tendo em conta o esquema deste salmo. Fê-lo para ajudar os leitores a irem mais além do simples dado de crónica e a entenderem o significado profundo do que estava a acontecer.
Também os outros evangelistas citam as Escrituras, mas nenhum com tanta insistência. É que Mateus escreve o seu Evangelho para os Judeus, que foram educados pelas catequeses dos rabis a esperarem um Messias vencedor, dominador, grande, poderoso. Perante o falhanço com que se concluiu a vida de Jesus, quem tinha a coragem de o apresentar como Messias?
O desafio que, aos pés da cruz, é lançado a Jesus por sacerdotes, escribas e anciãos: «Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é o rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos nele», deve ser entendido nesta óptica. Estão dispostos a acreditar em quem vence, não em quem perde.
Aos Judeus e a todos os que também hoje se escandalizam diante de um Messias derrotado, Mateus responde: as profecias do Antigo Testamento anunciam um Messias humilhado, perseguido e morto; apresentam-no como o companheiro de cada pessoa sofredora e oprimida.
Deus não salvou milagrosamente Cristo de uma situação difícil, não impediu a injustiça e a morte do Filho, mas transformou a sua derrota em vitória, a sua morte em nascimento, o seu túmulo num seio do qual nasce para uma vida sem fim.
Nele, Deus mostrou-nos que não vence o mal impedindo-o com intervenções prodigiosas, mas tirando-lhe o poder de fazer mal; mais ainda, tornando-o um momento de crescimento para a pessoa.
Mesmo deixando-nos guiar e iluminar pelas escrituras – como sugere Mateus – é difícil assimilar esta lógica de Deus; é difícil aceitar que «se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto».
Jesus está à mesa com os Doze e, enquanto jantam, dirige-se a eles dizendo: «Um de vós há-de entregar-me.» Então eles, profundamente entristecidos começam a perguntar-lhe, um a um: «Serei eu, Senhor?» também Judas o traidor, tomando a palavra, diz-lhe: «Serei eu, Mestre?» Jesus respondeu-lhe: «Tu o disseste».
Uma pessoa deveria saber se é ou não um traidor; que necessidade há de o perguntar a Cristo? Judas é hipócrita até ao fim; mas os outros, porque perguntaram: «Serei eu?»
Se as coisas tivessem acontecido desta forma, perante a resposta de Jesus que desmascara o traidor teria havido uma reação imediata da parte dos outros onze, que teriam acertado contas com o culpado. Pelo contrário, a cena continua tranquila.
Há uma preocupação de tipo pastoral que leva Mateus a colocar a pergunta na boca de todos os presentes. Ele quer que cada cristão continue a fazê-la: serei talvez eu um traidor?
Judas é um símbolo do antidiscípulo, ou seja, de quem cultiva projetos opostos aos de Jesus, de quem está disposto a trair a própria fé por amor ao dinheiro e está pronto a comandar quem luta contra as forças do bem.
O verdadeiro discípulo não se ilude de ser imune a este perigo. Conhece a sua própria fragilidade, sabe que pode facilmente ser enganado e, até mesmo de boa fé, transformar-se num traidor, alinhar contra o Mestre, fazer o jogo dos inimigos da vida.
Somente o conforto constante com a palavra de Cristo e com o gesto máximo do seu amor pode evitar seguranças arrogantes ou ingénuas, ilusões trágicas.
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