O relato da reanimação de Lázaro é muito longo e, no entanto, a parte dedicada ao milagre propriamente dito é extremamente breve, são apenas dois versículos; tudo o resto é uma série de diálogos que têm como finalidade introduzir o leitor no nível mais profundo do texto, onde é possível entender o verdadeiro significado do sinal operado por Jesus.
Falei de reanimação de Lázaro, e não de ressurreição, porque uma coisa é voltar a este mundo, retomar esta vida material marcada ainda pela morte; outra coisa é deixar definitivamente esta vida e, como aconteceu com Jesus na Páscoa, entra no mundo de Deus, onde a morte, nenhum tipo de morte, tem acesso. Trazer de novo a este mundo significa reanimar, conduzir ao outro significa ressuscitar.
Tendo em conta esta clarificação, vejamos então o trecho, começando por notar algumas incongruências e detalhes pouco verosímeis. Numa página de jornal, onde a notícia deve ser referida da forma mais fiel possível isto seria motivo de surpresa; pelo contrário, no Evangelho de João constitui indícios, preciosos: são uma orientação para a mensagem teológica do relato. Tentemos enumera-los.
– Nos primeiros versículos, aparece uma família algo estranha. Não há pais, não se fala de maridos, de mulheres, de filhos, mas apenas de irmãos e irmãs.
– No versículo 6, é referido um comportamento inexplicável de Jesus: toma conhecimento de que Lázaro está mal e, em vez de o ir curar, fica onde está mais dois dias; parece mesmo querer deixá-lo morrer. Porque não intervém?
– Pouco depois, faz uma afirmação desconcertante: «Lázaro morreu, por vossa causa, alegro-me por não ter estado lá». Como pode alegrar-se por não ter impedido a morte do amigo?
– Naquele tempo não havia telefones; como soube Marta que Jesus estava a chegar? E, enquanto ela vai chamar Maria, o que fica Jesus a fazer ali parado na estrada? Porque espera que Maria saia de Betânia e vá ter com Ele? Nós não teríamos feito assim, iríamos imediatamente a casa do defunto para apresentar condolências.
– Nos versículos 25 e 26, é utilizada por Jesus uma frase nada fácil de interpretar: «Quem acredita em mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em mim, nunca morrerá.» Como pode Ele prometer que o seu discípulo nunca morrerá, quando nós constatamos que os cristãos morrem como todos os outros? Que pretende dizer?
– No versículo 35, refere-se que Jesus chora pela morte do amigo. Como se explica este seu comportamento se já sabe que o vai ressuscitar? Está a fingir?
– Depois deste episódio, a família de Betânia desaparece, sem deixar rasto, do Evangelho de João, e nunca mais aparece em nenhum outro texto do Novo Testamento. Onde foram parar estas três pessoas tão estimadas por Jesus?
É estranho também que um milagre tão clamoroso não seja nem sequer mencionado pelos outros evangelistas.
Estes pormenores são o sinal inequívoco de que João não quis dar aos seus leitores um relato frio de um facto, mas um trecho de teologia. Partindo de uma cura que tinha suscitado grande impressão pelo facto de o doente ter sido dado como morto, o evangelista trata o tema central da mensagem cristã: Jesus, o Ressuscitado, é o Senhor da vida.
Comecemos pelo significado que João quer dar à família de Betânia, composta apenas por irmãos e irmãs. Representa a comunidade cristã onde não são admitidos nem superiores nem inferiores, mas somente irmãos e irmãs. Há um intenso clima afectivo que une estas pessoas a Jesus. O evangelista sublinha com insistência a amizade do Mestre com Lázaro. É o símbolo da ligação profunda entre Jesus e cada discípulo: «Já não vos chamo servos – dirá durante a última ceia -, mas a vós chamei-vos amigos».
Nesta comunidade acontece um facto que desconcerta, que coloca perante um enigma insolúvel: a morte de um irmão. Que resposta dá Jesus ao discípulo que lhe pergunta se este trágico acontecimento pode fazer algum sentido? Quem ama um amigo não o deixa morrer. Se era amigo de Lázaro e se é nosso amigo, por que motivo não impede a morte?
Como Marta e Maria, também nós não compreendemos porque «deixa passar dois dias». Dele esperaríamos, como sinal do seu amor, uma intervenção imediata. A censura velada que lhe dirigem as duas irmãs é também nossa: «Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido».
Deixando morrer Lázaro, Jesus responde a estas questões: Ele não tem a intenção de impedir a morte biológica, não quer interferir no decurso natural da vida. Ele não veio para tornar eterna esta forma de vida, mas para nos levar àquela que não terá fim. A vida neste mundo está destinada a uma conclusão, é bem que termine.
Nesta perspetiva deveria ser reconsiderada a validade da relação que muitos cristãos instauraram com Cristo e com a religião. Quando esta se reduz a contínuos e insistentes pedidos de intervenções prodigiosas, desemboca inevitavelmente em crises de fé e na dúvida de que «Ele não esteja aqui», onde nós esperaríamos que estivesse, onde nós mais precisamos dele, na doença, na dor, na desventura.
O cristão não pode dizer-se tal se não acreditar que a morte é um nascimento, porém não é insensível e não deixar de chorar quando um amigo o deixa. Sabe que não morreu, fica feliz porque ele vive com Deus, mas está triste porque, por algum tempo, terá que ficar separado dele.
Porém, há dois modos de chorar: o choro inconsolável e descomposto de quem está convencido de que, com a morte, tudo acabou; e o choro de Jesus, que diante do túmulo não pôde conter as lágrimas. Estas duas formas de chorar são expressas no texto grego com dois verbos diferentes. Para Maria, Marta e os judeus é usado o verbo klaiein que indica o choro acompanhado por gestos de desespero; pelo contrário, de Jesus diz-se edákrusen, que significa: «as lágrimas começaram a escorrer-lhe dos olhos». Somente este choro sereno, digno, é cristão. Ao choro segue-se uma ordem: «Tirai a pedra.» é dirigida à comunidade cristã e a todos aqueles que ainda pensam que o mundo dos defuntos esteja separado e não comunique com o dos vivos. Quem acredita no Ressuscitado sabe que todos estão vivos, mesmo que participem de duas formas de vida diferentes. Todas as barreiras foram abatidas, todas as pedras foram removidas no dia de Páscoa; agora passa-se de um mundo ao outro sem morrer.
«Desligai-o e deixai-o ir» ordena por fim. O convite é dirigido aos irmãos da comunidade que choram a perda de uma pessoa querida. Deixai que «o morto» viva feliz na sua nova condição.
É doloroso ter sido deixado por um familiar ou amigo, mas é egoísta querer detê-lo, seria como impedir a uma criança de nascer. «Desligai-o, deixai-o ir» – repete hoje Jesus, com doçura, a cada um dos seus discípulos que não se resigna com a passagem de um irmão ou irmã.
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