O trecho do Evangelho é interpretado por vezes como uma breve antecipação da experiência do Paraíso, concedida por Jesus a um grupo restrito de amigos, preparando-os assim para suportarem a dura prova da sua paixão e morte.
É preciso que sejamos sempre muito prudentes quando nos debruçamos sobre um texto evangélico, porque aquilo que à primeira vista pode parecer a crónica de um facto, após um exame mais atento revela-se muitas vezes um texto de teologia, redigido segundo os cânones da linguagem bíblica. O relato da transfiguração de Jesus, referido de modo quase idêntico por Marcos, Mateus e Lucas é disso mesmo exemplo.
Na leitura de hoje é proposta a versão de Mateus. Esta começa com uma anotação aparentemente irrelevante, que não consta da leitura aqui feita: «Seis dias depois» Depois de quê? Não é dito, mas a referência mais provável parece ser a do debate acerca da identidade de Jesus que acontecera na região de Cesareia de Filipe. E por que motivo Jesus leva consigo apenas três discípulos, e sobe a um monte?
Comecemos por este último pormenor. É curioso o facto de Jesus, sobretudo no Evangelho de Mateus, sempre que faz ou diz algo de importante, subir a um monte: a última tentação acontece no cimo de um monte; as bem-aventuranças são pronunciadas no cimo de um monte; é num monte que são multiplicados os pães e os peixes, e, no final do Evangelho, quando os discípulos encontram o Ressuscitado e são enviados a todo o mundo, encontram-se «no monte que Jesus lhes tinha indicado».
É suficiente percorrer o Antigo Testamento para descobrir a razão de tanta insistência. O monte, na Bíblia – como, de resto, para todos os povos da Antiguidade – era o local do encontro com Deus: foi no Sinai que Moisés teve a manifestação de Deus e recebeu aquela revelação que depois transmitiu ao povo; foi no cimo do Horeb que também Elias encontrou o Senhor.
Mas há mais: se lermos Êxodo 24 vemos que também de Moisés se diz que subiu ao monte; que passaram seis dias, que não foi só, mas levou consigo Aarão, Nadab e Abiú e foi envolvido por uma nuvem. No monte também o seu rosto se transfigurou pelo esplendor da glória divina.
À luz destes textos é claro o objetivo do evangelista: quer apresentar Jesus como o novo Moisés, como aquele que entrega ao novo povo, representado pelos três discípulos, a nova lei; Jesus é a revelação definitiva de Deus.
Podemos resumir assim o significado da cena: todo o Antigo Testamento (Moisés e Elias) ganha sentido com Jesus; porém, Pedro não entende o significado do que está a acontecer. Mesmo que proclame com a boca que Jesus é «o Messias», está profundamente convencido de que Ele é somente uma grande personagem, ao nível de Moisés e Elias, e por isso sugere que se façam três tendas iguais. Mas os três já não podem ficar juntos, Jesus destaca-se claramente dos outros, é absolutamente superior.
Deus intervém para corrigir a falsa interpretação de Pedro: Jesus não é somente um grande legislador ou um simples profeta, é o «Filho muito amado» do Pai.
Israel tinha escutado a voz do Senhor que lhe tinha sido transmitida por Moisés e pelos profetas. Agora esta voz – diz o Pai – chega aos homens através de Cristo. É a Ele e só a Ele que os discípulos devem escutar, e por isso é dito que, quando os três levantam os olhos, não vêem mais ninguém senão Jesus. Moisés e Elias desapareceram, cumpriram a sua missão: apresentaram ao mundo o Messias, o novo profeta, o novo legislador.
Realizou-se a promessa feita por Moisés ao povo, antes de morrer: «O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar».
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