Para celebrar melhor a Reconciliação

Estamos tão habituados a aplicar aos Sacramentos a linguagem da “administração” que quase nos esquecemos de que a graça não é uma “coisa” e de que os sacramentos são, antes de mais, uma celebração do mistério de Cristo em que nos é dado participar, numa situação concreta, através dos sinais sensíveis e eficazes, na plenitude da santificação do homem e do culto divino, pela virtude do Espírito Santo. A Reconciliação, portanto, celebra-se.
Evidentemente, os “sinais” mais importantes desta celebração peculiar são aqueles com que se significa e realiza o encontro do filho pródigo com o Pai e se exercita o ministério apostólico da Reconciliação: os atos do penitente (contrição, confissão, propósito, satisfação) e a absolvição ministerial. Neles reside o essencial desta “Liturgia” que, como se depreende, precede a celebração, nela culmina e depois dela se prolonga numa vida reconciliada.
A Igreja, porém, organizou esses “sinais essenciais” estruturando-os num projeto de celebração mais articulado, em que reflete a própria natureza da Igreja e da Liturgia e com o qual se dá mais expressividade à ação sacramental. Esse projeto variou ao longo dos séculos e, no nosso tempo, não é exatamente igual ao da época tridentina que nos precedeu. Hoje dá-se uma nova atenção aos sinais litúrgicos, mesmo na reconciliação de um só penitente. Importa, por isso, conhecer e traduzir na prática a proposta do volume do novo Ritual intitulado Celebração da Penitência. É a seguinte estrutura da celebração:
1) Ritos iniciais (acolhimento)
2) Liturgia da Palavra
3) Liturgia do Sacramento
4) Ritos finais (ação de graças)
Na celebração da Reconciliação de vários penitentes com confissão e absolvição individual os elementos 1, 2 e 4 realizam-se comunitariamente e apenas a 3ª parte (que consta da confissão do penitente, imposição e aceitação da penitência, ato de contrição e absolvição) se realiza no encontro individual do penitente com o ministro.
Se há Sacramento em que o momento do acolhimento deva ser cuidado é certamente este o caso. O pecador, bem preparado e contrito, vai ao encontro do Pai de misericórdia e encontra-O no “sinal” do ministro da Igreja que deve aparecer como tal: nesse sentido se compreende a preferência pelo uso da veste litúrgica que pode também ajudar a evidenciar que se está perante uma liturgia e não um despacho. Lembre-se o sacerdote que, mais do que “juiz”, é ministro e testemunha do “julgamento” de Deus sobre o pecado e a conversão e que, portanto, deve aparecer igualmente como “pai” misericordioso e “médico”, delicado e compassivo. Esteja particularmente atento aos mais pequeninos e débeis: crianças, idosos, doentes ou cristãos mais afastados da prática cristã.
O Ritual introduz, mesmo na celebração individual – ainda que de forma abreviada –, a proclamação da Palavra de Deus. Embora este elemento só seja obrigatório na celebração comunitária, contudo deveria ser mais frequente em todos os casos. Alguns versículos bíblicos ajudarão a viver a Penitência como “sacramento de fé”, que nasce da Palavra. No processo da Reconciliação é o próprio Deus Quem, com a Sua Palavra, julga o pecador, ilumina a consciência, chama à penitência e sustenta numa autêntica conversão. Por isso, é bom que o exame de consciência seja feito à luz da Palavra de Deus e não se reduza a um exercício de introspeção e memória. Se os fiéis se adiantam com a confissão – era essa a «rotina» da praxe anterior à reforma litúrgica – pode o ministro iluminar a situação recordando, mesmo de cor, algum versículo bíblico: a Palavra de Deus consola, corrige, reanima, estimula.
Como acima dissemos, a Liturgia do Sacramento consta dos atos do penitente e da intervenção do ministro, sobretudo com a absolvição. A atitude de joelhos do penitente – pelo menos durante a absolvição – e o gesto da imposição das mãos do ministro, que no final da oração de absolvição traça o sinal da cruz sobre o fiel, devem realizar-se com verdade e expressividade. O sacerdote dê tempo ao penitente para rezar o ato de contrição e, se for o caso, ajude-o. O Ritual, sem pretender ser exclusivo, apresenta 10 fórmulas de ato de contrição à disposição dos fiéis. E a catequese e a Internet disponibilizam outras…
Finalmente, o novo Ritual valoriza também o momento da ação de graças após a absolvição. Eis mais um elemento, frequentemente esquecido na celebração individual, e que permitiria dar a este Sacramento a imagem de “celebração” que, porventura, ainda não tem. A libertação do peso da culpa, a gratidão pelo perdão, o reconhecimento da misericórdia de Deus, a alegria da paz alcançada… tudo isto precisa de ser expresso.

Autor: Cónego João da Silva Peixoto
Diretor do Secretariado Diocesano de Liturgia da Diocese do Porto

 

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