8 de dezembro – Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

A Igreja dirige o seu olhar, na presente solenidade, para Aquela criatura escolhida por Deus para ser a Porta pela qual entra no Mundo a Redenção. Ela própria é a primeira redimida mesmo antes de vir a Terra o Redentor. É concebida Imaculada, sem contrair o pecado original, em previsão dos méritos do seu Filho, Jesus Cristo. No tempo de Advento, que estamos a percorrer, olhemos agradecidos, e admirados, para esta Porta que se abre na Terra para que venha o Céu até nos.

O pecado original e as suas consequências

O tempo litúrgico do Advento, que há pouco começamos, tem como finalidade ajudar-nos a preparar, dignamente, a nossa alma para o Nascimento de Nosso Senhor. O Natal é a comemoração da irrupção de Deus na sua Criação. O Ceu entrou na Terra pela porta humana de uma jovem mulher, Nossa Senhora, escolhida e preparada por Deus para ser a Mãe do Filho Unigénito. Por isso recebeu todos os dons e perfeições necessários para tão altíssima missão e dignidade.

Hoje a Igreja celebra a plenitude de graça que Deus concedeu a Nossa Mãe desde o momento da sua conceição. Essa plenitude leva unida a perfeita isenção de toda espécie de mancha do pecado, incluído o original.

A leitura do livro do Genesis, na passagem referente ao pecado das origens e as consequências para toda a Humanidade, ilumina nossa condição humana atual e o plano divino para nossa redenção.

O pecado fez nascer a vergonha e o remorso da consciência. Desde então há, na pessoa humana, uma debilidade e uma fratura da sua constituição em unidade de corpo e alma. O corpo já não obedece docilmente os desejos do espírito, e tem “desejos” contrários ao bem último da pessoa. Desejos que será necessário dominar, com a ajuda de Deus, para reconstruir a unidade perdida. Essa inclinação desordenada costuma designar-se pelo nome de concupiscência.

A superação da situação decaída e fraturada da Humanidade, depois do pecado original, é anunciada no Genesis na condena dirigida à serpente, que é o demónio. Deus lhe diz: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. O pecado e o demónio serão vencidos pelo amor de Deus que chega até ao extremo de habitar no meio de nós e reparar o mal dos nossos pecados com a sua vida redentora. É esse o amor que esmaga a cabeça da serpente. Um amor que continua junto de nós para que sejamos santos e imaculados, como recorda S. Paulo aos cristãos de Éfeso.

 

A Encarnação e as suas consequências

O evento que, há dois mil anos, transformou a Humanidade e o Cosmos numa nova Criação aconteceu na pequena e humilde casa de Nazaré onde morava Nossa Senhora. Nesse dia e nessa hora, pela total disponibilidade da Virgem Santa ao plano divino, o Eterno entrou no tempo humano, A imensidade de Deus se tornou limitada na pequenez dum corpo e alma humanos, e a omnipotência divina realizou o que supera todo poder: que Deus, em Cristo, fosse perfeito Deus e perfeito homem.

É esse o momento que S. Lucas nos apresenta no seu Evangelho, possivelmente conhecido pelo relato em primeira mão da única testemunha ali presente, Nossa Senhora. Uma mensagem do Céu é dirigida pelo Anjo à “cheia de graça”. “dirige-se a Maria com uma palavra não fácil de traduzir, que significa “cheia de graça”, “criada pela graça”, «cheia de graça» (Lc 1, 28). Antes de chamar Maria, chama-lhe cheia de graça, e assim revela o novo nome que Deus lhe atribuiu e que é mais apropriado do que o nome que lhe foi dado pelos seus pais. Também nós lhe chamamos assim, a cada Ave-Maria.

O que quer dizer cheia de graça? Que Maria é cheia da presença de Deus. E se é inteiramente habitada por Deus, nela não há lugar para o pecado. Trata-se de algo extraordinário, porque infelizmente tudo no mundo está contaminado pelo mal. Cada um de nós, olhando dentro de si mesmo, vê lados obscuros. Inclusive os maiores santos eram pecadores, e todas as realidades, até as mais sublimes, são manchadas pelo mal: todas, exceto Maria. Ela é o único “oásis sempre verde” da humanidade, a única incontaminada, criada Imaculada para acolher plenamente, com o seu “sim”, Deus que vinha ao mundo e deste modo começar uma nova história” (Papa Francisco. Ângelus, Praça de São Pedro, 8 de dezembro de 2017)

Da celebração de este dia podemos retirar duas consequências para nós:

Primeiro que é verdade que somos pecadores, não somos imaculados como nossa Mãe, mas houve um tempo em que sim fomos imaculados. O tempo que se seguiu desde nosso batismo até ao nosso primeiro pecado. Se nesse intervalo temporal tivéssemos morrido, entraríamos no Céu diretamente sem necessidade de purificação. Mas somos históricos, nossa vida é temporal e se desenvolve ao longo do tempo. Por isso a santidade ontológica adquirida no nosso batismo deve ser vivida como santidade moral todos os dias. Os nossos atos livres devem ser coerentes, na nossa biografia, com o nosso ser de filhos de Deus. É verdade, dizíamos que somos pecadores, por isso temos de retificar e reparar as nossas quedas, mas Deus o sabe bem e por isso entregou à sua Igreja o sacramento da reconciliação, que é o sacramento da nossa reconstrução da santidade batismal perdida. O Papa Bento XVI dizia que “quando nos confessamos voltamos a mergulhar no nosso próprio batismo”. Por isso o sacramento do perdão é o sacramento da nossa alegria de filhos de Deus, e os nossos pecados purificados nos tornam mais humildes, mais agradecidos e mais santos.

Em segundo lugar nos convém recordar que Aquela que é a porta pela qual o Filho de Deus entrou na Terra, é também Aquela que nos conduz a nós, filhos de Deus adotivos, até a porta pela qual entramos no Céu. Essa porta está aberta e a nosso lado permanentemente para nos ajudar. Essa porta nos leva a Jesus Cristo, caminho para a verdadeira Vida. Essa porta é a Nossa Senhora que todos os dias nos introduz um pouco mais na Glória eterna para nós preparada. Ela é a porta do Céu, mas não é um limiar que nos aguarda imóvel. Ela nos acompanha no caminho terreno e pela sua mão entraremos um dia na nossa verdadeira Pátria e a nossa primeira alegria será o abraço Maternal dos seus braços imaculados.

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