4 de fevereiro de 2024 – 5º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Caros irmãos e irmãs, a nossa meditação da Palavra de Deus para este domingo pode iniciar com um olhar para a primeira leitura, retirada do livro de Jó (cf. Jó 7,1-4.6-7).  Trata-se de uma obra onde apresenta de modo dramático as dificuldades de um homem chamado Jó. O texto bíblico faz parte da liturgia da Palavra deste domingo e nos traz palavras negativas, desesperadas, ressaltando o mistério da vida humana.

Jó é apresentado como um homem piedoso, bom, generoso e cheio de temor de Deus. Possuía ele muitos bens e uma família numerosa. Mas, repentinamente, viu-se privado de toda a sua riqueza, perdeu a família e foi atingido por uma grave doença. Ao longo do livro, Jó comenta, com amargura e desilusão, o fato da sua vida estar marcada por um sofrimento atroz e de Deus parecer ausente e indiferente face ao desespero em que a sua existência decorre. Apesar disso, é a Deus que Jó se dirige, pois sabe que Deus é a sua única esperança e que fora dele não há possibilidade de salvação.

O grito de revolta de Jó brota de um coração dolorido e sem esperança e é a expressão da angústia de um homem que, na sua miséria, se sente injustiçado e condenado pelo próprio Deus; mas é também o grito do crente que sabe que só em Deus pode encontrar a esperança e o sentido para a sua existência.

O sofrimento é um drama que atinge o homem e não tem explicação. Muito se pergunta as razões para o sofrimento de uma criança ou uma pessoa boa e justa. Questiona-se também como é que um Deus bom, cheio de amor, preocupado com a felicidade dos seus filhos, permite a dor e o sofrimento. Não temos uma resposta clara para todos estes questionamentos. Somos frágeis e incapazes de entender os mistérios de Deus e os seus projetos.

Tendo como cenário este drama de um homem que sofre, a Liturgia da Palavra nos apresenta um texto evangélico onde Jesus aparece curando muitos doentes.  Na casa de Pedro ocorre o milagre da cura da sua sogra, que está de cama e com febre.  Jesus tomando-a pela mão, curou-a e a fez erguer-se. Podemos sublinhar este pormenor importante que aparece no texto: A indicação de que Jesus tomou a doente pela mão e “levantou-a”.

O verbo grego utilizado pelo evangelista (egueirô – levantar) aparece frequentemente em contextos de “ressurreição” (cf. Mc 5,41;6,14.16;9,27;12,26;14,28;16,6). A sogra de Pedro está prostrada pelo sofrimento que lhe rouba a vida; mas o contato com Jesus devolve-lhe a vida e equivale a uma ressurreição. E a indicação de que a mulher “começou a servi-los”, indica o efeito imediato do contato com Jesus, de onde gera a atividade que se concretiza no serviço aos irmãos.

Também nós necessitamos desta mão do Senhor para nos erguer, para nos levantar.  É Ele que nos segura pela mão e cura as nossas feridas, nossas enfermidades, nossas fraquezas.  Jesus nos pega pela mão através da sua palavra, pois nela encontramos o conforto e a segurança. Também através dos sacramentos somos curados da febre das nossas paixões e dos nossos pecados mediante a absolvição no sacramento da reconciliação. Através deste sacramento Jesus nos concede a capacidade de reerguermos, de estarmos de pé novamente diante de Deus e diante dos homens. Jesus nos eleva e nos cura sempre de novo com o dom da sua palavra, com o dom de si mesmo.

Os enfermos e os possessos do demônio representam, todos aqueles que estão privados de vida, que estão prisioneiros do sofrimento e da dor. O evangelista São Marcos nos convida a ver em Jesus.

Aquele que tem poder para libertar o homem das suas misérias mais profundas e oferecer a ele uma vida nova, pois “Ele assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades” (Mt 8,17).

O texto evangélico continua dizendo que ao pôr do sol, tendo terminado o sábado, o povo levou até Jesus muitos enfermos e Ele curou uma multidão de pessoas atormentadas por doenças de todos os gêneros: físicas, psíquicas, espirituais.  Esta realidade da cura dos doentes por parte de Cristo nos convida a refletir sobre o sentido e o valor da doença. Ao enviar em missão os seus discípulos, Jesus confere a eles um duplo mandato: anunciar o Evangelho da salvação e curar os enfermos (cf. Mt 10, 7-8). Fiel a este ensinamento, a Igreja considerou sempre a assistência aos enfermos uma parte integrante da sua missão.

Estas curas realizadas por Jesus são sinais: não se resolvem em si mesmas, mas guiam para a mensagem de Cristo, guiam-nos para Deus e fazem-nos compreender que a verdadeira e mais profunda doença do homem é a ausência de Deus, da fonte da verdade e do amor. E só a reconciliação com Deus pode doar-nos a cura autêntica, a verdadeira vida, porque uma vida sem amor e sem verdade não seria vida. No entanto, permanece verdade que a doença é uma condição tipicamente humana, na qual experimentamos em grande medida que não somos auto-suficientes, mas temos necessidade dos outros.

A experiência da cura dos doentes convida-nos mais uma vez a refletir sobre o sentido e o valor da doença em qualquer situação na qual o ser humano se possa encontrar. A Igreja considera as pessoas doentes como uma via privilegiada para encontrar Cristo, para o acolher e servir. A atenção para com os doentes, o ato de visitar os doentes e servi-los, indica que é servir Cristo: o doente é a carne de Cristo, pois Ele mesmo disse: “Estive doente e cuidastes de mim” (Mt 25,36).

Mas a doença pode ser um momento salutar, no qual podemos experimentar a atenção dos outros e oferecer a quem sofre a nossa unidade. Todavia, ela é sempre uma prova, que pode tornar-se também longa e difícil. Quando a cura não chega, e os sofrimentos se prolongam, podemos permanecer como que esmagados, isolados, e então a nossa existência deprime-se e desumaniza-se. Mas a Palavra de Deus nos ensina que há uma atitude decisiva e fundamental, com a qual enfrentar a enfermidade, e é a da fé na bondade de Deus. Jesus dizia às pessoas curadas: “A tua fé te salvou” (cf. Mc 5,34.36). Até diante da morte, a fé pode tornar possível aquilo que, humanamente, é impossível. Somente no amor e na misericórdia de Deus encontramos uma resposta para o mal e a enfermidade.

Não obstante a doença faça parte da experiência humana, temos dificuldades de habituarmos a ela, não só porque por vezes se torna deveras pesada e grave, mas essencialmente porque somos feitos para a vida. O triste na vida não é sofrer, não é chorar, não é morrer… Triste e miserável é sofrer, chorar e morrer sem Deus, pois só Ele dá sentido à nossa existência.

Diante destas curas realizadas pelo Cristo Senhor, saibamos reconhecer nestes sinais do Reino de Deus que Ele vem nos trazer. E elevemos uma vez mais nossa oração a Maria, a quem invocamos como “Saúde dos Enfermos”, para que, com a sua materna intercessão sustente e acompanhe a nossa fé e nos obtenha de Cristo, seu Filho, a esperança no caminho da cura de todos os nossos males e nos conceda a saúde física e espiritual.  

A 2ª leitura continua com a 1ª carta aos Coríntios, abordando assunto muito especial. 1Cor 8-10 é uma unidade que trata da questão sobre se o cristão pode sempre fazer as coisas que, em si, não são um mal. Trata-se das carnes que sobravam dos banquetes oferecidos pela cidade em honra das divindades locais. Essas carnes eram, depois da festa, vendidas no mercado por “preço de banana”. O cristão, dizem os “esclarecidos”, pode comprá-las e comê-las sem problema, já que não acredita nos ídolos. Paulo, porém, pensa diferente: a norma não é a liberdade, mas a caridade (cf. Gálatas 5,13: usemos da “liberdade para nos tornar escravos de nossos irmãos”). Se o uso de nossa liberdade causa a queda do “fraco na fé”, que tem ainda resquícios de sua tradição pagã, devemos considerar a sensibilidade de nosso irmão.

Paulo não concorda com a pretensa liberdade dos coríntios para fazerem tudo que têm direito de fazer. Existe o aspecto objetivo (carne é carne e ídolos não existem) e o aspecto subjetivo (alguém menos instruído na fé talvez coma as carnes idolátricas num espírito de superstição; 8,7). Portanto, diz Paulo, nem sempre devo fazer uso de meu direito. E alega seu próprio exemplo: ele teria o direito de receber gratificação por seu apostolado, mas, como tal gratificação poderia ser mal interpretada, prefere ganhar seu pão trabalhando. A gratificação de seu apostolado consiste no prazer de pregar o evangelho de graça. Paulo teria os mesmos direitos dos outros apóstolos: levar consigo uma mulher cristã (9,5), ser dispensado de trabalho manual (9,6), receber salário pelo trabalho evangélico (9,14; cf. a “palavra do Senhor” a este respeito, Mt 10,10). Entretanto, prefere anunciar o evangelho de graça, para que ninguém suspeite de motivos ambíguos. Ora, essa atitude não é inspirada apenas por prudência, mas por paixão pelo evangelho: “Ai de mim se eu não pregar o evangelho… Qual é meu salário? Pregar o evangelho gratuitamente, sem usar dos direitos que o evangelho me confere!” (9,17-18). Se tivermos verdadeiro afeto por nosso irmão fraco na fé, desistiremos com prazer de algumas coisas aparentemente cabíveis; e a própria gratuidade será a nossa recompensa, pois “tudo é graça”.

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