30 de maio de 2024 – Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo – Ano B

1ª Leitura

O ser humano sente a necessidade de validar com um gesto os compromissos que assume. Na tribo africana onde vivi durante alguns anos, o pacto era ratificado de uma forma muito simples: os dois contraentes pegavam num longo fio de erva, partiam-no e cada um lançava para trás das costas o pedaço que tinha na mão. Desta forma declaravam o empenhamento recíproco a lançar para longe de si qualquer divisão, divergência ou conflito.

Na Antiguidade, eram solenes e muito complicados os ritos com que os grandes soberanos sancionavam a aliança com os seus vassalos. A Bíblia refere alguns, utilizados também pelos Israelitas. O mais cuente consistia em dividir um vitelo em duas partes e fazer passar os contratantes pelo meio delas, declarando estarem prontos a sofrer a sorte do animal caso quebrassem o pacto. É a este rito que faz referência a aliança estipulada por Deus com Abraão, no entanto é preciso notar que, naquela ocasião, foi apenas o Senhor que passou, numa chama ardente, entre os animais divididos.

 

2ª Leitura

Expiar o pecado significa, na acepção comum, descontar uma culpa sofrendo o castigo. Nas religiões pagãs a expiação fazia-se mediante sacrifícios e ofertas que tinham como finalidade aplacar a divindade ofendida.

Na Bíblia, a expiação tem outro significado. Não pretende acalmar Deus que está irado, nem sequer punir a pessoa pelo mal que fez, mas agir sobre aquilo que interrompeu a relação entre eles. Este modo diferente de entender a expiação deriva de um modo diferente de conhecer Deus e o pecado. O Deus de Israel nunca se vira contra o seu povo, mesmo se este foi infiel; quer que se converta, que regresse à vida, e por isso pede-lhe uma mudança nos pensamentos e nas ações.

 

Evangelho

Lendo a primeira parte do trecho, apercebemo-nos que se aproxima um momento dramático, temos a sensação que Jesus e o grupo dos discípulos se move com circunspeção, porque estão em perigo por causa do ódio e das ameaças dos sumos sacerdotes. Estão em Betânia, e para celebrar a ceia pascal devem ir a Jerusalém, o único lugar onde se pode comer o cordeiro. Há um sinal de reconhecimento, combinado – assim parece – por Jesus com o proprietário de uma casa, situada na parte alta da cidade, aquela onde residem os ricos, e este sinal particular acentua ainda mais o ar de mistério que envolve toda a cena. Dois discípulos precedem o grupo para prepararem, no piso mais elevado da casa, uma sala ampla, já pronta para a refeição.

Parar compreender a mensagem que o evangelista quer transmitir é preciso ir para lá daquilo que, à primeira vista, parece um simples relato estenográfico; o primeiro detalhe a pôr em evidência é que a iniciativa de celebrar a Páscoa não parte de Jesus, mas dos discípulos. São eles que querem celebrar a libertação do Egipto, a partir da qual teve início a sua história. Não imaginam o que irá acontecer nessa noite durante o jantar: como representantes das doze tribos de Israel, serão implicados na nova Páscoa.

Um segundo pormenor: a pessoa encarregar de acompanhar os discípulos à sala do banquete é um servo, que desempenha um serviço reservado às mulheres. Não é um detalhe banal, mas o sinal da mudança das relações sociais. É a percepção desta mudança a conduzir os discípulos ao lugar da festa, aquela festa que Jesus está para iniciar. Na sala do banquete entra quem sabe ver as pessoas de modo diferente, quem se deixa guiar pelos sinais surpreendentes dados por Cristo: os ricos que se fazem pobres, os grandes que escolhem tornar-se pequenos, os homens que assumem os serviços humildes até aí impostos às mulheres.

Também a cuidadosa descrição da sala é importante: é espaçosa porque se destina a acolher muitas pessoas, está situada no alto, como o monte de onde ecoava a palavra do Senhor, está mobilada com divãs porque quem entra, mesmo se pobre, miserável ou escravo, adquire a liberdade. Estes pormenores referem-se, de modo evidente à santa Ceia celebrada nas comunidades cristãs.

O sangue da nova aliança é derramado pela multidão, que significa por todas as pessoas.

A Eucaristia não foi instituída para o indivíduo, para permitir a cada um encontrar pessoalmente Cristo, para favorecer o fervor individual ou alguma forma de isolacionismo espiritual. A Eucaristia é o alimento da comunidade, é pão partido e partilhado entre os irmãos, porque é a comunidade o sinal da humanidade nova, nascida da ressurreição de Cristo.

A porta da grande sala, que se encontra no alto, está sempre escancarada, para que todas as pessoas possam entrar. O banquete do reino de Deus, anunciado pelos profetas, está preparado «para todos os povos», todos devem ser acolhidos, ninguém está excluído do amor de Deus. Para Deus não há pessoas puras e pessoas impuras, gente digna e gente indigna; diante da Eucaristia todos estão no mesmo plano, todos são pecadores, indignos, mas convidados a entrar em comunhão com Cristo.

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