2 de junho de 2024 – 9º Domingo do Tempo Comum – Ano B

No tempo de Jesus, a festa de sábado começava na sexta-feira à noite, ao pôr-do-sol. Àquela hora, em cada localidade, um homem subia ao terraço de uma casa e tocava três vezes o corno. Ao primeiro toque eram suspensas as atividades dos campos, ao segundo interrompiam-se os trabalhos de casa. Depois, quando no céu aparecia a terceira estrela, o encarregado tocava o corno pela última vez e então cada mãe colocava na janela de casa uma lâmpada acesa. Era o sinal da alegria de um povo que «dava as boas-vindas» ao sábado e o acolhia com a lâmpada acesa, como se faz com a esposa, porque o sábado era considerado «a esposa e a rainha de Israel».

O Evangelho de hoje introduz dois episódios que provocaram duas disputas; destas deduz-se claramente em que perspetiva deve ser enquadrado o sábado. Para descobrir a razão pela qual o Senhor ordenou: «Guarda o dia de sábado para o santificar», Jesus remonta às origens.

A primeira disputa explode quando alguns fariseus notam que os Apóstolos, ao atravessar um campo de trigo, recolhem algumas espigas e comem-nas.

Não se tratava de um fruto, já que a lei permitia a quem atravessava um campo que recolhesse algum fruto para saciar a própria fome. A culpa de que eram acusados era muito mais grave: a violação do repouso de sábado.

Jesus responde à crítica dos fariseus citando o exemplo de David: também este rei, abençoado por Deus, transgrediu um dia a lei que proibia a quem não era sacerdote, de comer os pães da proposição que se encontravam no templo. Tinha-se comportado desta forma porque tanto ele como os seus companheiros tinham fome. A Bíblia refere este episódio sem o condenar, portanto ensina que a fome da pessoa é superior a qualquer lei, quer civil quer religiosa.

A frase conclusiva da disputa é muito significativa: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado». Com esta expressão Jesus lembra, antes de mais, que o sábado foi instituído para «humanizar» o homem, não para o escravizar com imposições absurdas; depois estabelece um princípio geral que permite determinar quando devem ser observadas e quando podem (ou até mesmo devem) ser violadas as leis, incluindo as que parecem mais sagradas. O ponto de referência é o bem da pessoa. As disposições, as leis, os preceitos só devem ser observados se favorecerem a vida da pessoa, caso contrário perdem a sua força obrigatória. Aquilo que conta diante de Deus é a pessoa, não a observância dos preceitos.

A segunda parte do trecho apresenta outra disputa, mais violenta que a anterior, entre Jesus e os fariseus.

Os factos acontecem numa indeterminada sinagoga da Galileia. Na reunião de sábado está presente um homem com uma mão paralisada; não se refere quem seja nem como se chama, porque não interessa. É uma pessoa e isto é suficiente, alguém que nem sequer faz o pedido de ser curado.

O evangelista Lucas especifica que a mão inválida era a direita, a mais importante. O homem estava impossibilitado de trabalhar, de ser auto-suficiente, de dar o melhor de si mesmo no exercício de todas as suas capacidades.

Quem tem a mão atrofiada, rígida, não só é incapaz de trabalhar, mas também de acariciar, de demonstrar o próprio afecto; não pode apertar a mão de outra pessoa para estabelecer uma relação amigável, para estipular um pacto; não consegue receber um dom e oferecê-lo; não está em condições de partir o pão ao esfomeado.

Curar quem tem a mão paralisada significa voltar a dar-lhe aquela parte de humanidade que lhe faltava. É lícito isto ao sábado?

Os rabis ensinavam que o sábado podia ser violado para ajudar quem estivesse em perigo de vida. Diziam: «Tu, para salvares uma vida, deves profanar o sábado, de modo que a pessoa a quem tu salvas a vida possa observar muitos sábados»; mas esta condição não se verificava no caso em questão, já que Jesus podia muito bem esperar pela noite, que era o fim do dia de descanso, para fazer a cura.

Mas vejamos como Ele se comporta. Perante a necessidade de um homem e o seu pedido de ajuda tácito, toma a iniciativa de violar publicamente a lei de sábado. Começa por ordenar ao homem que venha para o meio da assembleia, de modo a obrigar todos os presentes a tomar uma posição, a seu favor ou contra si.

A cena é dramática. Contemplemos as personagens: de um lado Jesus que se deixa conduzir apenas pelo amor para com o homem, do outro aquelas pessoas com o culto da lei e que não toleram que alguém a viole, seja qual for o motivo.

A pergunta de Jesus é provocatória: «Será permitido, ao sábado, fazer bem ou fazer mal, salvar a vida ou tirá-la?» Para Ele é preciso sublinhá-lo – não prestar ajuda a uma pessoa equivale a tirar-lhe a vida.

Segue um silêncio pesado. Nada se move senão o olhar de Jesus, que passa em revista, numa clara atitude de desafio, os rostos dos «defensores da Lei».

Também Mateus e Lucas referem este episódio, mas apenas Marcos releva que Jesus os olhou com indinação. É evidente que os outros evangelistas experimentaram um certo embaraço diante desta reação de Cristo e evitaram referi-la. Mas, pelo contrário, ela é preciosa: revela o desdém de Deus para quem se opõe ao bem do homem.

Todos ficam calados, e Jesus ordena ao homem: «Estende a mão.» Ele estende-a e a mão fica curada.

Com esta ação provocatória Jesus declara que Deus não aceita que se ponham limites à ação a favor do homem. É ele quem está em primeiro lugar, tudo o resto, incluindo a mais importante das leis, está ao seu serviço.

Há outro perigo: é de que o «dia do Senhor» sirva apenas para recuperar do «stress» da semana de trabalho e poder depois recomeçar com maior energia a atividade em que se está envolvido. Isto é como a pescadinha de rabo na boca. Para ser verdadeiramente humanizante, o dia de descanso deve ser também um tempo livre para dedicar ao Senhor, à meditação, à oração. A interrupção das ocupações materiais serve sobretudo parar celebrar a própria liberdade em relação às coisas, e para elevar o pensamento a Deus.

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