19 de maio de 2024 – Solenidade de Domingo de Pentecostes – Ano B

Para os primeiros cristãos, o primeiro dia da semana é um dia importante porque é o dia do Senhor, é aquele em que a comunidade costuma reunir-se para partir o pão eucarístico.

Na tarde. A indicação temporal com que começa o trecho evangélico é preciosa: indica talvez a hora tardia a que os cristãos costumavam encontrar-se para a sua celebração.

As portas estão fechadas por medo dos Judeus. Jesus certamente não tinha anunciado triunfos e vida fácil aos seus discípulos; «têm muito que sofrer no mundo» dissera. Todavia, a razão principal pela qual se insiste nas portas fechadas é teológicas: João quer que se entenda que o Ressuscitado é o mesmo Jesus que os Apóstolos viram, conheceram, ouviram, tocaram, mas encontra-se numa condição diferente. Não voltou à vida de antes (como aconteceu a Lázaro), entrou numa existência completamente nova. O seu corpo já não é feito de átomos materiais, é impercetível à verificação dos sentidos.

A ressurreição da carne não equivale à reanimação de um cadáver. É o misterioso desabrochar de uma vida nova a partir de um ser que acaba. Paulo explica este facto pela imagem da semente. Diz que «semeado corruptível, o corpo é ressuscitado incorruptível; semeado na desonra, é ressuscitado na glória; semeado na fraqueza, é ressuscitado cheio de força; semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno, também há um corpo espiritual».

Quando Jesus mostra as mãos e o lado, os discípulos ficam cheios de alegria. Uma reação surpreendente: deveriam entristecer-se vendo os sinais da paixão e morte. Pelo contrário, alegram-se, não porque encontram pela frente o Jesus que acompanharam ao longo das estradas da Palestina, mas porque vêm o Senhor, dão-se conta de que o Ressuscitado que se lhes revela é o mesmo Jesus, aquele que deu a vida.

Colocando as manifestações do Ressuscitado no contexto da tarde do primeiro dia da semana, João pretende dizer aos cristãos das suas comunidades que também eles podem encontrar o Senhor – não Jesus de Nazaré, com o corpo material que tinha neste mundo – mas o Ressuscitado, sempre que se encontram juntos  «no dia do Senhor».

Depois de ter saudado os discípulos pela segunda vez: a paz esteja conosco!, Jesus dá-lhes o seu Espírito e confere-lhes o poder de perdoarem os pecados.

Os discípulos são enviados a cumprir uma missão: «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.»

Quando estava no mundo, Jesus mostrava o rosto e o amor do Pai, agora, tendo deixado este mundo, Ele continua a sua obra através dos discípulos a quem entrega o seu Espírito.

Acolhê-lo era acolher o Pai que o tinha enviado, agora acolher os seus discípulos é acolhê-lo a Ele.

Para compreender a missão confiada aos Apóstolos, o perdão dos pecados mediante a efusão do Espírito, temos que voltar às concepções religiosas do povo de Israel e às palavras dos profetas.

No tempo de Jesus, encontrava-se difundida a ideia de que as pessoas agiam mal, contaminavam-se com os ídolos, eram impuras porque movidas por um espírito mau. E esperava-se que Deus, quem sabe quando, interviesse para as libertar e infundir nelas um espírito bom.

Na Carta aos Romanos, Paulo faz uma descrição dramática da condição infeliz do homem que se encontra à mercê do espírito do mal: «Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço. Ora, se o que eu não quero é que faço, estou de acordo com a Lei, reconheço que ela é boa. Mas então já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico».

Pela boca dos profetas, Deus prometeu o dom de um espírito novo, do seu Espírito: «Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; Eu vos purificarei de todas as manchas e de todos os pecados. Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o meu espírito, fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos.

Esta efusão do Espírito do Senhor iria renovar o mundo. Inundá-lo-á disse o profeta Ezequiel – como uma torrente de água impetuosa que, quando entra no deserto, o fecunda e o transforma em jardim. «Ao longo da torrente, nas suas margens, crescerá toda a sorte de árvores frutíferas, cuja folhagem não murchará e cujos frutos nunca cessam: produzirão todos os meses frutos novos, porque esta água vem do santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas, de remédio». São imagens deliciosas que descrevem de modo admirável a obra vivificante do Espírito Santo.

Ño dia de Páscoa realizam-se estas promessas. Com um gesto simbólico – Jesus soprou sobre eles – é dado o Espírito. Este sopro evoca o momento da criação, quando «o Senhor Deus formou o homem do pó da terra. Insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida». O sopro de Jesus cria o homem novo, o homem que já não é vítima das forças que o levam ao mal, mas é animado por uma energia nova que o leva ao bem.

Onde chega este Espírito, o mal está vencido, o pecado perdoado –  cancelado, destruído – e nasce o homem novo modelado pela pessoa de Cristo.

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