18 de outubro de 2026 – 29º Domingo do Tempo Comum – Ano A (Ocupados no mundo, mas não do mundo)

A frase com que termina este trecho «Então, dai a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus» é uma das mais conhecidas, mas também das mais enigmáticas; não é fácil determinar o seu significado, pelo que nem sempre é citada a propósito. Por vezes, é utilizada por quem detém o poder para convidar as hierarquias eclesiais a não se imiscuírem nas questões políticas; outras vezes, são estas a recordá-la aos governantes para afirmarem o seu próprio direito de defender e proclamar os valores do Evangelho. Foi usada, inclusivamente, por quem defendia a hierocracia papal e por quem sustentava a autoridade religiosa do Imperador, por quem defendia a laicidade do estado e por quem sonhava com uma subordinação deste ao poder religioso, por quem sacralizava as instituições e por quem justificava o poder temporal da Igreja. Há também quem, de forma banal, a utilize para convidar a dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido.
A pessoa não vive só, é parte de uma sociedade civil e deve estabelecer relações de colaboração com as outras pessoas. Da necessidade de organizar a convivência, deriva a necessidade de determinar direitos e deveres, de criar instituições, de estabelecer formas de contribuir para o bem comum. Não é fácil estabelecer aquilo que é justo: entram em jogo diferentes interesses, perspetivam-se diferentes objetivos; há quem pretenda favores, quem reivindique privilégios, e, então, as tensões surgem, inevitavelmente.
Para complicar ainda mais o problema, há as relações entre o ordenamento estatal e as instituições religiosas, com os seus princípios, normas, hábitos, tradições e pretensões irrenunciáveis. Muitas pessoas, sentindo-se súbitas de dois poderes em competição – que muitas vezes vão para além das próprias atribuições, lançando-se depois acusações recíprocas de invasão do próprio terreno – têm a consciência lacerada. Para resolver o conflito, há quem escolha posições fanáticas e integralistas, pretendendo impor a toda a gente as suas próprias convicções, e quem renuncie a um confronto do qual teme sair derrotado e se afaste.
Na célebre Carta a Diogneto, composta em meados do século II, são sugeridos princípios sapientes e atuais: «Os cristãos, nem por razão, nem por voz, nem por costumes se distinguem das outras pessoas. Vivendo em cidades gregas e bárbaras, como a cada um aconteceu, e adequando-se aos costumes locais no que diz respeito à roupa, à alimentação e a tudo mais, testemunham um método de vida social admirável e, sem dúvida paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam em tudo como cidadãos, e de tudo estão desapegados como estrangeiros. Cada pátria estrageira é a sua pátria, e cada pátria é estrageira. Casam como toda a gente e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem em comum a mesa, mas não a cama. Moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu. Obedecem às leis estabelecidas, e com a sua vida superam as leis. Numa palavra, assim como a alma está no corpo, assim no mundo estão os cristãos.

Check Also

3 de outubro de 2026 – 27º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Cristo: pedra que despedaça os nossos ídolos

Como fizera o profeta Isaías, também Jesus recorre à imagem da vinha para descrever a …

Sahifa Theme License is not validated, Go to the theme options page to validate the license, You need a single license for each domain name.