17 de julho de 2022 – 16º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Praticai a Hospitalidade

O Cardeal Maria Martini escreveu um livro com este título: “Que beleza salvará o mundo?” Esta pergunta aparece numa obra de Dostoievski, “O Idiota” e é feita por um ateu ao príncipe Myskin: “É verdade que a beleza salvará o mundo? Senhores, o príncipe afirma que o mundo será salvo pela beleza!” “Que beleza salvará o mundo?” [1] O príncipe não respondeu. Mas nós acreditamos com Santo Agostinho, que “a Beleza sempre antiga e sempre nova”, é Deus, o autor de toda a beleza. A Igreja reconhece Jesus, como o mais belo dos filhos dos homens: “Sois o mais belo dos filhos dos homens. A graça se derrama em vossos lábios”[2]. Jesus é o Salvador do mundo. Escreveu o Santo Padre: “Cristo vive: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que Ele toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida. Jesus vive e quer-nos vivos!”[3] Jesus está vivo! Que beleza, sabermos que “Ele vive, fala e sofre em quem padece. Alerta ó almas. Volvamos para Ele o nosso olhar. Busquemos o seu rosto e a sua imagem.”[4] Pode alguém dizer: Bem-aventurados os contemporâneos de Jesus porque podiam convidar e hospedar o Divino Mestre em suas casas. Não nos lamentemos. Jesus dá-nos também a honra de O podermos convidar e receber quantas vezes quisermos: “O que vós fizestes a um destes pequeninos a mim o fizestes.” Depois certamente nos poderá dizer como no Evangelho: “Tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber. Eu fui peregrino e vós Me hospedastes em vossas casas. Estava nu e destes-Me roupa par vestir, adoeci e visitastes-Me, estive na prisão e fostes ter comigo.” Ele nos recompensará, quando chegarmos à eternidade. Dir-nos-á: Em troca da vossa hospitalidade que me oferecestes na terra, recebei, no Céu a eterna felicidade. Pelo que bem que me fizestes, “recebei em herança o Reino, preparado para vós desde o início do mundo.” (Cf Mat 25,34-40)

Como Marta e Maria prestemos assistência a Jesus, presente naqueles a quem ajudamos. São Pedro pedia aos cristãos do seu tempo: “Conservai uma caridade intensa uns para com os outros, porque a caridade cobre a multidão dos pecados. Praticai entre vós a hospitalidade, sem murmuração. Cada um de vós ponha ao serviço dos outros os dons que recebeu, como bons administradores da graça de Deus. Faça-o como um mandato recebido de Deus, para que em tudo seja Deus glorificado, por Jesus Cristo, a quem é devida a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amen.”[5] Também o autor da Carta aos Hebreus nos recomenda: “Seja incessante o vosso amor fraterno. Não vos esqueçais de praticar a hospitalidade; pois agindo assim, mesmo sem perceber, alguns acolheram Anjos em suas casas.” Hebreus 13,1-2

Na primeira leitura, que acabámos de escutar vemos que pela sua hospitalidade o Patriarca Abraão mereceu acolher a Deus na sua tenda: “Abraão ergueu os olhos e viu três homens de pé diante dele. Logo que os viu, deixou a entrada da tenda e correu ao seu encontro; prostrou-se por terra e disse: «Meu Senhor, se agradei aos vossos olhos, não passeis adiante sem parar em casa do vosso servo.”

A hospitalidade aparece na Bíblia como um dever exigido ao povo Hebreu. Eis como deviam agir para com os estrangeiros e os peregrinos: E quando o estrangeiro peregrinar convosco na vossa terra, não o oprimireis; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois também fostes estrangeiros na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.” (Levítico 19,33-34)

A hospitalidade nos nossos dias faz-nos pensar no grande número de pessoas deslocadas. No ano 2000 a ONU instituiu o dia 20 de Junho como “o Dia Mundial do Refugiado.” A hospitalidade faz parte da solidariedade humana. Para os cristãos, a hospitalidade é uma forma concreta de manifestar o nosso amor fraterno, àqueles que precisam de nós. 

 

Betânia

“Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-Lhe lá um jantar: Marta andava a servir. (João 11,1)

 «Marta recebeu Jesus em sua casa. Maria escolheu a melhor parte.» Lucas 10, 38-42

A Bíblia narra várias visitas de Jesus à casa de Lázaro, Marta e Maria, a quem podemos chamar os hospedeiros do Senhor. São Lucas mostra-nos que Jesus aceitou a hospitalidade oferecida por esta família: “Jesus entrou em certa povoação e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa.” Essa povoação chama-se Betânia e fica situada na vertente oriental do Monte das Oliveiras, perto de Jerusalém, na estrada que liga Jerusalém a Jericó. Betânia vem da palavra hebraica “Bêth-ani”, que significa “casa dos pobres”. São Paulo diz que “Jesus Cristo, sendo rico, fez-se pobre por nossa causa, para nos enriquecer com a sua pobreza.” Assim as duas irmãs puderam acolher Jesus em sua casa.

São João afirma que Jesus amava Marta e Maria. (Jo 111,5) Marta tinha um temperamento activo, Maria tinha um temperamento contemplativo. O Evangelho de hoje (Luc 10, 38-42) fala de uma simples refeição de Jesus em casa destas suas amigas. Na última semana da sua vida, Jesus é acolhido várias vezes por elas: Mateus 21,17; 26,6; Marcos 11,11; João 11,1-18; 12,1. Todas estas passagens da Bíblia que falam de Marta e de Maria, sublinham a complementaridade dos seus temperamentos. Marta tratava dos preparativos para a refeição. Maria tratava do acolhimento pessoal de Jesus.[6] Deste modo Jesus e os discípulos podiam sentir-se felizes com esta maravilhosa e amável hospitalidade. O serviço prestado por Marta é indispensável. Jesus fez-nos saber que Ele mesmo é honrado por todo o amor com que acolhemos os outros: “Vinde benditos de meu Pai. Vós me destes de comer, vós me destes de beber. Vós me acolhestes. (Mat 25, 34-35)

Marta, significa Senhora. Pertencia-lhe o cuidado da casa. Ela preparava tudo o que era necessário para a um bom acolhimento. Diz Santo Agostinho: “Marta recebeu-O como costumam ser recebidos os peregrinos; e no entanto, era uma serva que recebia o seu Senhor, uma doente que acolhia o Salvador, uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para Lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. Com efeito, o Senhor quis tomar a forma de servo e nesta condição de servo quis ser alimentado pelos servos, por condescendência e não por necessidade. De facto, também foi por condescendência que Se apresentou para ser alimentado, porque tinha assumido um corpo sujeito à fome e à sede. E assim pôde ser hospedado o Senhor.”

Maria ficou sentada aos pés de Jesus, numa atitude de escuta e de contemplação. É bom hospedar e cuidar bem das pessoas, mas Jesus também nos adverte que, no meio da multiplicidade das ocupações deste mundo, há um bem único pelo qual devemos suspirar. Jesus valorizou a atitude de Maria e advertiu Marta por “andar inquieta e agitada com muitas coisas. Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada.” A palavra de Jesus eleva-nos acima de todas as preocupações e cuidados do mundo presente. Não deixemos que o nosso coração ande inquieto com os cuidados temporais, que nos desviam dos bens eternos. Mas ninguém oponha a actividade à contemplação, porque contemplação não é sinónimo de ociosidade. E actividade não é sinónimo de agitação. São felizes os que unem a acção e a contemplação: “Felizes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática.” (Lucas 8,21)

Escutemos de novo Santo Agostinho: “Marta e Maria eram duas irmãs, ambas irmãs não só de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam o Senhor corporalmente presente. Marta estava ocupada com muitos serviços. Na outra pátria, não haverá peregrinos a quem hospedar, nem famintos com quem repartir o pão. Lá, não haverá nada disto. Que haverá então? O que Maria escolheu: lá, seremos alimentados e não daremos alimento. Lá, há-de cumprir-se em plenitude aquilo que Maria aqui escolheu: daquela mesa opulenta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. “Em verdade vos digo, que o Senhor nos mandará sentar à Sua mesa e, passando no meio de nós, Ele nos servirá.” (Lucas 22,37)[7]

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