12 de maio de 2024 – Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano B

Na vida de cada indivíduo há etapas decisivas, momentos de passagem muito delicados, nos quais se percebe que está em jogo todo um futuro. São momentos de crise, por vezes de angustiante incerteza, de confusão interior e de dor, como acontece em todos os nascimentos.

Também na história da Igreja se verificaram acontecimentos que determinaram mudanças de época, mas nenhum foi tão decisivo como aquele em que se verificou a mudança da presença Jesus. Antes da Páscoa, Ele vivia fisicamente neste mundo e os discípulos eram guiados por Ele, passo a passo; depois da Páscoa, Ele continuou a estar presente, mas já não de forma perceptível aos sentidos, e os discípulos sentiram-se sós e titubeantes, tiveram a sensação de se encontrar perante uma missão que ainda não esta bem definida e que era certamente superior às suas forças.

Como continuar a obra do Mestre? Não seria presunçoso da parte deles considerarem-se capazes de dar início a um mundo novo? Era difícil adequar-se à ideia de que uma tal tarefa tivesse sido confiada a um grupo de pobres pescadores da Galileia.

Os momentos decisivos da vida necessitam de maior clareza. Também o momento da passagem de Jesus de uma presença tangível a uma presença invisível exigiu uma luz particularmente intensa, e os evangelistas procuraram iluminá-lo de várias formas.

A luz que hoje nos é dada provém da última página do Evangelho de Marcos.

O trecho começa com uma cena grandiosa. O Ressuscitado manifesta-se aos Onze e indica a missão que eles são chamados a desempenhar: «Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura».

Causa alguma surpresa o facto de a boa nova dever ser anunciada «a toda a criatura». A expressão designa certamente «todas as pessoas», mas contém também o convite a abrir os horizontes e a contemplar uma salvação que se estende a todo o universo; de facto, todas as criaturas são objeto da complacência afetuosa de Deus.

Devido ao pecado, o ser humano assumiu muitas vezes um comportamento incorreto para com a criação.

Movido pela avidez e pela cobiça insaciável, não entendeu ou traiu as intenções de Deus e, em vez de se comportar como jardineiro e guardião do mundo, transformou-se num déspota e num predador. Não utilizou a ciência e a técnica em sintonia com o projeto do Criador, mas de forma imprudente e arbitrária. Manipulou como quis a natureza, vergando-a aos seus próprios interesses egoístas e arbitrários. Ao agir assim, introduziu de novo o caos.

Por isso – como intuiu Paulo – todas as criaturas aguardam os benéficos efeitos da salvação: «Até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus… na esperança de que também ela será libertada da escravidão da corrupção».

O anúncio do Evangelho liberta o ser humano da convicção de ser um senhor absoluto, dá-lhe a possibilidade de compreender que não tem o direito de intervir na natureza segundo os seus caprichos e leva-o a instaurar uma relação nova, não só com os seus semelhantes mas também com o ambiente, as plantas e os animais.

A salvação e a condenação dependem do acolhimento ou da rejeição da mensagem evangélica e do Batismo.

A Igreja, com os meios de salvação que oferece, não pode ser conscientemente ignorada. Na palavra de Deus que anuncia é o próprio Cristo que se revelam; nos sacramentos que administra é Cristo que, através dos sinais sensíveis e eficazes, comunica a sua vida. Rejeitar estes dons equivale a decretar a própria ruína, que não é a perdição eterna, mas a escolha insensata, feita hoje, de se auto-excluir do reino de Deus.

Mateus recorda as últimas palavras do Ressuscitado: «E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos». Jesus não nos deixou uma foto, uma estátua comemorativa ou uma relíquia; Ele quis permanecer sempre ao lado dos discípulos, mesmo se de uma forma que já não é perceptível com os sentidos.

Está resumido o tema da solenidade de hoje: « O Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevando ao Céu e sentou-se à direita de Deus».

Trata-se de uma afirmação teológica; com efeito, Deus não tem nem direita nem esquerda, e no Paraíso não se está sentado. A imagem evoca os costumes das cortes orientais, onde os súbditos que davam provas de fidelidade heróica para com o seu senhor eram convocados ao palácio real e lá, diante de todos os notáveis, eram convidados pelo soberano a sentarem-se à sua direita. As palavras que o salmista dirige ao novo rei, no dia da sua entronização – «Senta-te à minha direita, e Eu farei dos teus inimigos um estrado de teus pés» referem-se a este costume.

O evangelista quer dizer-nos que Jesus, derrotado segundo o mundo, foi proclamado por Deus «seu servo fiel». Não instaurara o tão esperado domínio terreno do povo de Israel, não submetera os inimigos com a espada, mas dera início ao Reino de Deus, a um mundo completamente novo, oferecendo a sua vida e derramando o seu sangue.

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