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Somos do mundo ou estamos no mundo?

Uma das características que sempre reconheci nos cristãos – sendo um deles – é o facto de serem pessoas normais. Jesus era um homem normal.

Se conhecermos bem os evangelhos, vemos como Jesus não tinha o comportamento de um guru com uma filosofia de vida irresistível pela qual vale a pena pagar centenas de dracmas para ouvir a sessão e sair de lá transformado. Deu tudo porque deu-Se, sobretudo, a Verdade sobre si mesmo. Porém, o mundo odiava-O e ele explica a razão.


”Se viésseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, como não vindes do mundo, pois fui Eu que vos escolhi do meio do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.” (Jo 15, 19)

Mas talvez o mundo tenha percebido que o ódio estava a gerar mártires e, sem querer, criou algo melhor do que odiar quem não era dele: o consumo da nossa atenção. E pela atenção, o mundo digital parece estar a consumir-nos até nos tornarmos mundo.

Quando deixamos a nossa vida ser conformada pela proposta cristã, reconhecemos estar no mundo, sem fazermos parte dele. E não fazemos parte do mundo pelos valores que norteiam as nossas escolhas, gestos, pensamentos e estilos de vida. Pois, viver em Deus implica ser como Ele nos revelou ser: Amor. Por isso, de cada vez que surge uma novidade no mundo que pode transformar a vida das pessoas e a cultura, deveríamos questionar se essa novidade entra em sintonia com os nossos valores.

Mas será assim ainda hoje?

Por exemplo, temo que um cristão muito activo nas redes sociais tolere mais um ateu do que tolera outro cristão que não esteja nas redes sociais. Experimentei isto na pele quando um dia ao partilhar que tinha saído das redes sociais, a pessoa a quem partilhava não quis saber porquê e recebi logo o comentário – ”não acho bem.”

O papel que as novas tecnologias têm na nossa vida cristã tem muito a ver com esta passagem de S. João, isto é, com este estar no mundo, sem ser do mundo. O que me questiono é se o entusiasmo dos cristãos pelas redes sociais quer dizer estarem no mundo ou serem do mundo. Reparem na abordagem dos Amish.

A ideia que temos dos norte-americanos que pertencem às comunidades Amish pode ser muito diferente da realidade. Muitos pensam em pessoas anti-tecnologia, e parados no tempo por altura de meados do século XVIII.

Kevin Kelly, um dos fundadores da revista tecnológica Wired, diz que «a vida dos Amish é tudo menos anti-tecnológica. De facto, nas várias visitas que lhes fiz, percebi serem hackers e latoeiros engenhosos, os especialistas do faça-você-mesmo. Surpreendentemente, ele são muitas vezes pró-tecnologia.» A leitura que Cal Newport faz no seu livro Minimalismo Digital (Actual, 2019) é particularmente relevante para entender os Amish. Diz Newport que «os Amish (…) fazem algo de radicalmente chocante e simples na actual era do impulso e consumismo complicado: eles começam com as coisas a que dão mais valor, e, depois, fazem o exercício de andar para trás questionando se uma nova tecnologia produz mais danos do que benefícios no que diz respeito a esses valores.» Ou seja, colocam em primeiro lugar quem são e depois avaliam se uma determinada nova tecnologia concorre para o bem ou não dos valores intrínsecos à sua identidade.

São diversos os valores cristãos, como a vida humana e toda a criação, a paz, a fraternidade, a relação, a proximidade, e até mesmo o sofrimento que nos purifica do supérfluo e mantém-nos no essencial que o tempo nos permite. A vontade de Deus realiza-se sempre em fazer bem o que temos para fazer agora, pelo que, o momento presente tem um valor enorme para o cristão.

As redes sociais isolam-nos num mundo editável da aparência. Parece um paradoxo quando milhares de milhões de pessoas estão conectadas entre si, mas interagem a maior parte do tempo através do seu ecrã, vivendo para o que é partilhado e não partilhando realmente o que se vive. São inúmeros os testemunhos de como sair das redes sociais levou muitas pessoas a encontrar uma paz e serenidade na vida que há muito não experimentavam. Alguns chegando mesmo a retornar ao telemóvel simples com teclas.

O facto dos cristãos estarem presentes nas redes sociais significa que, antes de mais, estão no mundo, mas quando vejo a gradual incapacidade de se desapegarem dessas tecnologias, que não são essenciais para viver os valores do Evangelho, começo a pensar se não passam a ser do mundo que atrai o seu tempo e atenção. Basta pensar naqueles jovens e adultos que vi consultarem os seus murais do Facebook durante uma missa. Não estou certo de ser em Deus que pensam. Hoje, quando assisto a essa atitude, nem sei sequer se pensam se estão cientes da razão profunda e autêntica para estarem ali. Mesmo assim, prefiro a sua presença física apesar da ausência espiritual.

Depois de ter saído das redes sociais, o meu tempo aumentou. Sinceramente, eu não fazia a ideia de quanto tempo gastava a ver qual a reacção das pessoas às partilhas do que escrevia, ou responder a comentários. Ainda que fosse por pouco tempo de cada vez, disperso ao longo do dia, tudo somado perfazia mais tempo do que pensava.

A sensibilidade ao que se passa ao meu redor aumentou, de tal modo que comecei a reparar o quanto as pessoas estão sistematicamente a tirar o telemóvel do bolso para interagir com esse. Eu pensava que isso se restringia aos que são do mundo, mas não. Por exemplo, havia encontros de cariz espiritual em que éramos sempre confrontados com pessoas que não conhecíamos, vindas de várias partes do mundo, e com as quais as circunstâncias nos impeliam a falar com elas, vencendo a barreira da língua e dos costumes – ”De onde vens? A viagem durou quantas horas? Como se diz ‘olá’ na tua língua?” – mas hoje, cada um está ocupado com o seu ecrã (portátil, tablet ou smartphone) e, inclusive, temos medo de interromper e estar a incomodar.

Os Amish dão mais prioridade aos benefícios gerados por agir intencionalmente em relação à tecnologia, do que aos benefícios que perdem quando decidem não usá-las. Os estudos têm mostrado que as redes sociais tendem a tornar os relacionamentos cada vez mais superficiais. Mas há quem pense que são o meio de chegar a muitas pessoas com um simples clique e, por isso, uma oportunidade de alimentar as comunidades cristãs com conteúdo que as edifica. Eu acredito nesta visão positiva, mas apenas enquanto serve de portal para os sites das próprias comunidades. O que uma pessoa vê no seu mural depende de algoritmos que tendem a uniformizar as massas através de uma análise estatística do seu comportamento. Será isto agir com intenção ou estar à mercê dos algoritmos?

As redes sociais não são essenciais ou estimulam a agir com intenção, mas antes educam-nos a estar à mercê daquilo que mais nos entretém. Nesse sentido, prefiro as newsletters que deixam uma pessoa livre de se subscrever ou desubscrever.

Como cristão, reconhecemos que não somos do mundo, mas de Deus. Porém, o mundo está a pôr-nos à prova de modo subtil. E, sem nos darmos conta disso, corremos o risco de passarmos a ser do mundo, em vez de estarmos intencionalmente no mundo.

Para um cristão, o outro é Jesus e tem um valor acima de qualquer notificação ou email a responder. A originalidade da vida cristã está na doação total daquilo que somos. Isso inclui o nosso tempo, a atenção, a presença autêntica e a vulnerabilidade dos relacionamentos que nos fazem crescer reciprocamente. É esse o modo cristão de estarmos no mundo. É essa a diferença que podemos fazer na vida daqueles que deixaram de ter, ou nunca tiveram, uma referência cristã. E, se pensarmos bem, não preciso de estar nas redes sociais para amar o outro. Basta silenciar da vista o digital, e olhar o real à nossa volta.

 

Autor: Miguel Oliveira Panão

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt

 

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