Há uma tentação subtil em todas as instituições que se sabem portadoras de uma mensagem moral: aplicar aos outros os critérios que proclamam e reservar para si uma zona de exceção. Também a Igreja conhece este risco. Por isso, uma das afirmações mais exigentes da Magnifica Humanitas talvez seja esta: a Doutrina Social da Igreja deve constituir «um exame de consciência para a Igreja» (n. 86).
A frase altera a direção habitual do olhar. Aquilo que parecia uma janela aberta sobre o mundo transforma-se também em espelho. Se a Igreja fala de dignidade, participação, justiça, transparência ou bem comum, não pode tratar essas palavras apenas como princípios destinados à política, à economia ou às empresas. O Evangelho não concede imunidade institucional a quem o anuncia. Quanto mais alta é a palavra proclamada, maior é o dever de lhe dar corpo.
É aqui que se decide uma parte da credibilidade cristã. Não porque a Igreja tenha de se apresentar como comunidade sem falhas – pretensão impossível e teologicamente suspeita –, mas porque deve aceitar ser corrigida pela verdade que anuncia. Uma instituição credível não é a que nunca erra; é a que não transforma os próprios erros em território protegido.
Leão XIV aproxima sinodalidade, subsidiariedade, transparência, prestação de contas e avaliação (nn. 86-87). O essencial não está na importação de técnicas de gestão, mas numa antropologia do poder. Quem exerce autoridade permanece limitado, responsável e necessitado da palavra dos outros. Na Igreja, governar não pode significar possuir a totalidade da visão. A subsidiariedade recorda isto: há decisões, saberes e responsabilidades que devem permanecer onde a vida acontece. Concentrar tudo pode parecer eficiência; muitas vezes é apenas desconfiança organizada.
Também a Eucaristia, no n.º 88, surge sob uma luz exigente. Se ela «nos educa para a partilha», não pode ser reduzida a consolação litúrgica sem consequências. O altar não suspende a justiça; torna-a mais urgente. Não faria sentido celebrar sacramentalmente um Corpo unido e aceitar relações construídas sobre silêncios impostos, desigualdades naturalizadas ou dependências que diminuem a liberdade. A comunhão cristã não encobre conflitos: atravessa-os sem destruir pessoas.
É, porém, no n.º 89 que o texto se torna mais cortante. A justiça eclesial exige eliminar «desigualdades, opacidades e prevaricações» e reconhecer que a escuta das vítimas, a reparação e a prevenção pertencem ao caminho da Igreja. A verdade não termina quando os factos são conhecidos: pede consequências. Escutar sem reparar pode tornar-se piedade estéril; pedir perdão sem transformar estruturas pode converter a linguagem penitencial num mecanismo de autopreservação.
Talvez por isso «toda a autoridade está ao serviço do povo de Deus» (n. 89) deva ser lida menos como elogio da autoridade do que como seu critério de prova. A autoridade cristã mede-se pela capacidade de criar liberdade responsável, permitir correção, acolher contraditório e tornar possível que a instituição aprenda. O poder que apenas se protege pode continuar juridicamente intacto e estar espiritualmente ferido.
Há aqui uma ideia maior do que qualquer reforma organizativa. A Igreja só poderá anunciar conversão ao mundo se aceitar permanecer em atitude de conversão. Só poderá pedir responsabilidade às instituições se não considerar a sua própria responsabilidade uma ameaça. Só poderá falar de justiça se consentir que a justiça atravesse também as suas estruturas.
No cristianismo, o juízo começa sempre perto. Antes de ser palavra lançada contra o mundo, o Evangelho ilumina e corrige quem o proclama. Talvez seja essa uma das formas mais humildes da fidelidade: não usar a fé para escapar ao exame, mas deixar-se examinar por ela. Uma Igreja que não pode ser corrigida dificilmente poderá anunciar, de modo credível, a conversão.
Fonte: https://www.diariodominho.pt/opiniao/2026-09-12
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