30 de agosto de 2026 | 22º Domingo do Tempo Comum -Ano A | Dá a vida se não a queres perder

Os Hebreus do tempo de Jesus viviam na expectativa de um mundo melhor, do «século que deve vir», rico de paz e justiça. Baseando-se no capítulo 36 do livro de Ezequiel , os rabis anunciavam, «para os últimos tempos», uma transformação prodigiosa da terra: nos dias do messias – garantiam eles – a Palestina transformar-se-á num jardim, e os jardins tornar-se-ão florestas; a fertilidade do solo será multiplicada por mil, haverá riqueza para todos e abundância de bens, como no período paradisíaco dos inícios.
Também os Apóstolos cultivavam estas esperanças, certos de que a vinda do Reino de Deus estava iminente. Tinham intuído que o seu mestre era o Cristo, o esperado «Filho de David»; tinham-no seguido para verem realizados os seus sonhos de glória. A única coisa ainda não definida, segundo eles, era a quem seriam atribuídos os primeiros lugares.
É no contexto destas expectativas que deve ser visto o primeiro dos três anúncios da paixão que se encontram no Evangelho. A meio da sua vida pública, Jesus dá-se conta de ter que corrigir, firmemente, as convicções dos seus discípulos; não quer que o sigam acalentando vãs ilusões. Para evitar equívocos, declara abertamente que não se encaminha para o triunfo, mas que vai a Jerusalém para sofrer muito, para ser morto e para ressuscitar ao terceiro dia.
A lógica humana não pode deixar de ficar abalada perante uma tal proposta. Os discípulos não conseguem entender, aprenderam dos escribas que o messias não pode morrer; foi-lhes ensinado que, com a sua vinda, os justos que jazem nos sepulcros ressuscitaram para tomarem parte na alegria do seu Reino; Pedro, em nome de todos, reage. Não tem medo dos sacrifícios, um dia dará provas de saber arriscar a vida, se tal for preciso, mas não está disposto a empenhar-se num projeto absurdo, não aceita encaminhar-se por uma estrada que conduz diretamente ao fracasso, e gostaria que também Jesus se desse conta disso e mudasse de ideias.
A cena seguinte é significativa e muito realista. Pedro toma o Mestre à parte, como que para o encorajar num momento de desconforto, como se o quisesse ajudar a entender que, num momento de desorientação, acontece a qualquer pessoa deixar escapar uma frase infeliz.
A reação de Jesus à tentativa de o afastar do seu caminho é dura, quase de irritação: «Vai-te daqui, Santanás» – diz o nosso texto, mas a tradução não é exacta. Jesus não pretende afastar Pedro, mas coloca-lo no caminho certo. «Vai atrás de mim» – diz-lhe – segue os meus passos, não queiras preceder-me, como quem pretende indicar o caminho; este já foi traçado pelo Pai, e tu, Pedro, fazes uma proposta que vem da lógica terrena, das astúcias humanas, que são loucura aos olhos de Deus.
Pedro não comete um erro banal, ele move-se na direção oposta à do Senhor, comporta-se exatamente como Satanás que tentara convencer Jesus a aspirar ao domínio, à conquista do poder. Conduzira-o a um monte muito alto, e mostra-lhe todos os reinos deste mundo com a sua glória, dizendo-lhe: «tudo isto te darei se, prostrado, me adorares»; Jesus reagira dizendo-lhe: «Vai-te, Satanás». Agora, perante a mesma tentação – avançada por Pedro – não pode senão responder com a mesma dureza.
A cena descrita no Evangelho de hoje forma um díptico com a do domingo passado. Simão tinha sido indicado por Jesus como a pedra viva da Igreja porque tinha acolhido a revelação do Pai, tinha aceitado o seu desígnio de salvação, tinha professado a sua fé no Filho do Deus vivo. Agora torna-se pedra de escândalo porque se deixa levar por raciocínios humanos: desejo de glória, de sucesso, de honrarias, e, por isso, constitui um obstáculo no caminho do Mestre e dos discípulos.
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Depois de ter admoestado Pedro, Jesus dirige-se a todos e expõe de forma inequívoca as suas exigências. Não há nenhuma tentativa de mitigar, de as tornar mais aceitáveis! Se o mestre escolheu dar a vida e se «o discípulo não está acima do mestre», então o caminho terá necessariamente que ser o mesmo.
Três condições caraterizam a radicalidade de uma escolha que não admite esperas nem hesitações: «Renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz, segue-me».
Renuncia a ti mesmo significa: deixa de pensar em ti. É a completa inversão dos princípios que neste mundo regulam as relações entre as pessoas, é a recusa daqueles estímulos que todos consideram positivos porque levam à ação: a procura do próprio interesse, a vontade de obter gratificações, reconhecimentos, vantagens. Até mesmo nos gestos de amor mais puros se nota, por vezes, uma forma velada de egoísmo e de ambição.
O discípulo de Cristo é chamado, antes de mais, a renunciar a qualquer interesse pessoal, mesmo do ponto de vista espiritual; não é que faça o bem para acumular méritos no Céu, para subir um degrau no próprio progresso espiritual; ele age a pensar apenas no irmão. Não toma em consideração quanto de positivo pode acontecer a si mesmo devido às boas ações que faz. Ama gratuitamente, sem procurar o ganho, como faz o Pai.
A segunda condição, toma a tua cruz, não se refere à necessidade de suportar pacientemente as pequenas ou grandes tribulações da vida, e, ainda menos, a uma exaltação da dor como meio para agradar a Deus. O cristão não procura o sofrimento, mas o amor.
A cruz é o sinal do amor e do dom total. Lavá-la no seguimento de Cristo significa seguir o caminho que Ele percorreu: dar a vida pelos mesmos ideais; enfrentar, se for preciso, a perseguição e a morte; mas permanecer fiéis ao Evangelho. «Toma a cruz» quem se sacrifica a si mesmo para fazer o bem, para tornar feliz alguém.
A terceira condição, segue-me, não significa «toma-me como modelo», mas partilha a minha escolha, toma parte no meu projeto, aposta a tua vida no amor ao homem; comigo.
Quando se apagarem as luzes que encandearam a cena deste mundo, quando se extinguir o brilho enganador dos ídolos que encantaram e seduziram tanta gente, então brilhará apenas a luz de Deus e será possível ver o verdadeiro valor da vida de cada um.

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