«O Senhor salva os oprimidos e dá pão aos que têm fome» são as palavras com que o israelita piedoso professa a sua fé na providência. O mesmo diz Maria no seu canto de louvor: «aos famintos encheu de bens».
Mas como podem ser verdadeiras estas afirmações se um quarto da humanidade vive em condições de miséria absoluta, se em cada dia morrem de fome dezenas de milhar de crianças, se milhões de pessoas procuram comida na lixeira? Deus, que veste os lírios do campo e alimenta os pássaros do céu, ter-se-á talvez esquecido dos seus filhos? Por que é que o Pai não ouve a oração de quem todos os dias lhe pede «o pão nosso de cada dia nos dai hoje»?
Os indigentes têm fome, mas também os que vivem na abundância estão tristes, frustrados, sós; a gratificação de possuir dura poucos dias, ou até mesmo poucas horas, e depois volta a ansiedade, e o vazio interior obriga a procurar desesperadamente outros bens. Querer ter mais não sacia, mas aumenta a fome, e desencadeia um vórtice de morte sem saída.
Esta espiral pode ser interrompida. É possível encontrar o pão que sacia e o banquete onde abunda o vinho da alegria, mas há só um caminho para lá chegar, não há atalhos. As estradas que passam pelas boutiques, pelas ourivesarias e pelos antiquários são vistas como «vias da felicidade», mas são enganadoras. O caminho milagreiro, aquele de quem convida a suplicar por intervenções sobrenaturais, é igualmente ilusório; o Senhor não tem intenções de se substituir ao homem.
Há, porém, um prodígio que Ele promete, e que é realizado pela sua palavra: lá onde o Evangelho é acolhido, os corações desintoxicam-se do egoísmo e desabrocha a solidariedade e a partilha. Quando emergem estes sentimentos, a fome de pão desaparece e é saciada a sede de amor.
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