31 de maio de 2026 – Solenidade da Santíssima Trindade | Em que Deus acreditas?

Não é suficiente acreditar em Deus, convém verificar em que Deus se acredita.
O trecho evangélico de hoje é composto por apenas três versículos, mas muito densos. Bastariam para corrigir a imagem distorcida de Deus que está presente ainda na mente de muitos cristãos – a imagem do juiz severo e inflexível – e abrir de par em par as portas do coração à confiança no seu amor.
«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita nele não pereça, mas tenha a vida eterna». Pode ser considerado o vértice a que chegou a revelação bíblica acerca do sentido da criação, da vida, do destino do homem.
Contemplando, surpreendido, a revelação do projeto de Deus, João descobre que na origem de tudo está o seu amor gratuito. Ao contrário do que afirma na sua primeira carta – onde vê este amor derramar-se sobre a comunidade cristã – aqui o evangelista vê abrirem-se horizontes sem fim: o amor de Deus expande-se, irreprimível, imparável, e enche «o mundo» inteiro. É o oposto da famosa afirmação: «O mundo em que vivemos pode-se ver como o resultado da desordem e do acaso; mas se é fruto de uma intenção deliberada, esta só pode ser a intenção de um diabo.»
Por muito estranho que possa parecer, a imagem de Deus que ama o homem teve dificuldade em impor-se em Israel. Foi preciso esperar pelo profeta Oseias, para a encontrar pela primeira vez. Esta dificuldade era devida ao facto que, nas religiões pagãs, a relação de amor com a divindade tinha conotações equívocas de carácter sexual.
João, que viu com os seus olhos e tocou com as suas mãos o Verbo da vida, chega a afirmar: « Deus é amor», amor que se manifestou ao mundo no seu Filho unigénito. Não o deu apenas na Encarnação, mas entregou-o nas mãos dos homens sobre a cruz. Ali, Ele mostrou o seu verdadeiro rosto, já sem véus. Paulo mostra ter compreendido este prodígio de amor quando, ao escrever aos Romanos, declara: «É assim que Deus demonstra o seu amor para conosco: quando ainda éramos pecadores é que Cristo morreu por nós».
Perante este dom, o que é pedido ao homem? Uma só coisa: que confie, que se abandone nos seus braços – como faz a esposa com o esposo – que se entrega a Ele, imenso amor, com a certeza de encontrar a vida.
Por vezes, quando pensamos em Deus que se fez um de nós, cometemos o erro de considerar este facto como um episódio, um triste parêntesis da sua existência: veio entre nós, ficou por cá trinta e três anos, sofreu e morreu na cruz, e depois voltou para o Céu, distante, e feliz por ter recuperado a condição anterior.
Não é assim, o nosso Deus fez-se homem e permanece para sempre um de nós, não fugiu deste mundo, é e permanece para sempre o Emanuel, o Deus-conosco.

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