19 de abril de 2026 – 3º Domingo da Páscoa

A certeza da vitória de Jesus sobre a morte continua a ecoar ao longo de cada hora deste “grande domingo” que é o tempo pascal. Mas hoje a liturgia lembra-nos, especificamente, que também nós podemos experimentar a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, nos caminhos que todos os dias percorremos. Essa experiência transforma-nos, renova-nos, santifica-nos e faz de nós testemunhas vivas do Ressuscitado.

1ª Leitura
Depois e invocar o testemunho das Escrituras (cf. At 2,16-21), Pedro expõe o “kerigma”, o núcleo fundamental da catequese cristã primitiva: Jesus, creditado por Deus, veio ter com os homens e passou pelo mundo realizando gestos poderosos, gestos que testemunhavam o amor de Deus e anunciavam a sua salvação (cf. At 2,22); no entanto, a proposta apresentada por Jesus chocou com a recusa do mundo e Ele foi morto na cruz “pela mão de gente perversa” (cf. At 2,23); mas Deus ficou do lado d’Ele, ressuscitou-o, fê-lo triunfar sobre a injustiça, a mentira, a violência e a morte. Ao ressuscitar Jesus, Deus deu-lhe razão: disse àqueles que se recusaram a escutar Jesus que Ele estava certo: que uma vida gasta ao serviço do projeto de Deus não pode terminar no fracasso, mas conduz à ressurreição, à vida plena (cf. At 2,24). Pedro é aqui o porta-voz dessa comunidade que testemunhou a oferta de salvação que Jesus veio trazer, que acreditou nela e que recebeu de Jesus a missão de a propor aos homens de toda a terra.
Este anúncio feito por Pedro é dirigido a judeus que conhecem bem as Escrituras e as promessas de Deus. Por isso, Lucas coloca na boca de Pedro argumentos tirados da própria Escritura para fundamentar aquilo que pretende anunciar-lhes sobre Jesus. Em concreto, Pedro refere-se ao salmo 16,8-11, atribuído aqui a David: “O Senhor está sempre na minha presença, com Ele a meu lado não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta e até o meu corpo descansa tranquilo. Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos, nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção. Destes me a conhecer os caminhos da vida, a alegria plena em vossa presença’” (At 2,25-28).
Trata-se de um dos raros textos do Antigo Testamento onde se vislumbra a vitória da vida sobre a morte. O raciocínio do compositor deste discurso é o seguinte: David refere-se, nesse salmo que a tradição lhe atribui (cf. Sl 16,1), a um “amigo de Deus” que haveria de vencer a morte; não se trata, é claro, do próprio David pois, como todos sabem, ele morreu na primeira metade do séc. X a.C. (“o patriarca David morreu e foi sepultado e o seu túmulo encontra-se ainda hoje entre nós” – At 2,29); sendo assim, esse “amigo de Deus” de que David fala será com certeza aquele descendente de David que, segundo a promessa de Deus, haveria de herdar o trono do seu pai e estabelecer um reino eterno (cf. 2Sm 7,12-16). Era a esse rei, da descendência de David, que os judeus chamavam “Messias” (“ungido”); era esse rei, da descendência de David que alimentava a esperança de Israel e que era aguardado ansiosamente (cf. At 2,30). A conclusão parece óbvia: Jesus é esse “amigo de Deus”, anunciado por David, que Deus não abandonou na habitação dos mortos e cuja carne não conheceu a corrupção do túmulo (cf. At 2,31). Portanto, Jesus está vivo: uma vez ressuscitado dos mortos, foi elevado à glória pelo poder de Deus, recebeu o Espírito Santo e derramou-O sobre os discípulos que deixou na terra para serem testemunhas do Evangelho da salvação (cf. At 2,33). Estarão os habitantes de Jerusalém disponíveis para acolher, finalmente, a proposta de salvação trazida por Jesus?
Temos aqui, portanto, o testemunho da comunidade cristã sobre Jesus, o Messias, enviado ao mundo para cumprir o plano de Deus – isto é, para libertar os homens e para instaurar um Reino de justiça, de abundância, de paz e de verdade. A vitória de Jesus sobre a morte e a sua exaltação atestam que Ele é esse Messias enviado por Deus com uma proposta de salvação. Os discípulos de Jesus são as testemunhas disto diante de todo o mundo (“disso todos nós somos testemunhas” – At 2,33). Por agora, esse testemunho é dado em Jerusalém; mas Lucas irá descrever, ao longo do livro dos Atos, a forma como o anúncio sobre Jesus irá conquistando o mundo, até atingir o próprio coração do império (Roma).

2ª Leitura
Dirigindo-se aos batizados, o autor da carta exorta-os a viverem como filhos de Deus. Isso significa abandonar completamente os “desejos antigos” e optar pela santidade (cf. 1Pe 1,14-15). Citando a Escritura, lembra-lhes o pedido de Deus: “sede santos, porque Eu sou santo” (1Pe 1,16).
Como devem viver aqueles que são chamados à santidade e que invocam a Deus como Pai? De acordo com o autor da Carta, devem viver “com temor, durante o tempo de exílio neste mundo” (1Pe 1,17). O “temor” traduz, na linguagem vétero-testamentária, a atitude de obediência, de confiança, de entrega a Deus, de total conformação com a vontade de Deus.
Para dar mais força à sua exortação, o autor da carta lembra aos batizados que não têm o direito de voltar atrás, pois Deus pagou um alto preço para os resgatar da antiga maneira de viver; e esse preço não foi pago com bens corruptíveis, como o ouro ou a prata, mas sim com algo infinitamente precioso: o sangue de Cristo, derramado na cruz. Foi um preço bem alto que, no entanto, Deus não hesitou em pagar… Poderá esse enorme “investimento” de Deus ser malbaratado e desprezado pela ingratidão dos batizados?
O verbo “resgatar” (“lytróô”), aqui utilizado pelo autor da carta para falar da ação salvífica de Deus em favor do homem, é um verbo usado no grego profano para designar a libertação de uma pessoa (nomeadamente de um escravo), mediante o pagamento de uma determinada quantia. No Antigo Testamento, contudo, o verbo tem um alcance eminentemente teológico e refere-se à atuação salvífica de Deus, que intervém para salvar o seu povo do cativeiro egípcio (cf. Dt 7,8; 15,15), do exílio babilónico (cf. Es 41,14; 43,1) ou do pecado (cf. Sl 130,8). Em algumas passagens, o mesmo verbo inclui o sentido de “adquirir”: Javé resgata Israel para que ele passe a ser o povo de Deus (cf. 2Sm 7,23; 1Cr 17,21), a tribo da sua herança (cf. Sl 74,2), a comunidade que pertence a Deus e que está ao serviço de Deus. Dizer que Deus “resgata” quer então dizer que Deus, no seu amor, liberta Israel da escravidão e do pecado, a fim de fazer dele um Povo consagrado ao seu serviço.
É provavelmente neste contexto que devemos entender a afirmação do autor da Primeira Carta de Pedro. A referência a Cristo como “cordeiro sem defeito e sem mancha” (1 Pe 1,19) leva-nos ao cordeiro pascal (é nesses termos que se fala do “cordeiro pascal” em Ex 12,5, o cordeiro que os escravos hebreus sacrificaram e comeram na noite em que fugiram da escravidão para a liberdade) e, portanto, à tipologia do Êxodo. Assim como o “cordeiro pascal” marcou a libertação dos hebreus da escravidão do Egito e assinalou o nascimento de um povo dedicado ao serviço de Deus, assim também a morte de Cristo “resgatou” o homem da escravidão do pecado e fez nascer um povo novo e santo, cuja vocação é servir a Deus e colocar a sua fé e a sua esperança em Deus (cf. 1Pe 1,21).
Os que foram batizados são convidados a contemplar o plano de salvação que Deus quer concretizar em favor do homem, um plano que passa pela entrega de Jesus (o “Cordeiro sem mancha nem defeito” na cruz. Constatando a grandeza do amor de Deus e a sua vontade salvífica, os batizados – apesar das dificuldades e perseguições que enfrentam – aceitam comprometer-se com Deus e renascer para uma vida nova e santa. Dessa forma, nascerá um Povo novo, consagrado ao serviço de Deus.

Evangelho
No primeiro dia da semana (Lucas começa o seu relato utilizando a expressão “naquele mesmo dia”, o que nos remete para o relato anterior – o relato que descreve como, na manhã de Páscoa, algumas mulheres vão ao túmulo levando os perfumes que haviam preparado para “tratar” o corpo de Jesus e se deparam com “dois homens com vestes refulgentes” que lhes anunciaram a ressurreição – cf. Lc 24,1-12), dois discípulos de Jesus saem de Jerusalém e põem-se a caminho de um lugar chamado Emaús. Um deles chama-se Cléofas; o outro não é identificado. Muito se tem dito sobre esse discípulo anónimo, que alguns identificam com Pedro, outros com Natanael, com Simão e até mesmo com a mulher de Cléofas. Talvez Lucas, ao não identificar o referido discípulo, esteja simplesmente a sugerir que ele podia ser “qualquer um” dos crentes que tomam conhecimento da história.
Percebemos, pelas palavras que os dois viajantes trocam enquanto caminham, porque é que se afastam de Jerusalém: estão desiludidos, pois os seus sonhos de triunfo e de glória ao lado de Jesus ruíram pela base, aos pés de uma cruz. Esse Messias poderoso, capaz de derrotar os opressores, de restaurar o reino grandioso de David (“nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel” – Lc 24,21) e de distribuir benesses aos seus colaboradores diretos revelou-se, afinal, um rotundo fracasso. Em lugar de triunfar, deixou-Se matar numa cruz; e a sua morte é um facto consumado pois “é já o terceiro dia depois que isto aconteceu” (o “terceiro dia” após a morte é o dia da morte definitiva, do não regresso do túmulo). Portanto, os dois abandonam a comunidade dos discípulos – que, doravante, não parece fazer qualquer sentido – e afastam-se de Jerusalém, dispostos a esquecer o sonho, a pôr os pés na terra e a enfrentar, de novo, uma vida dura e sem esperança. A discussão entre eles a propósito de “tudo o que tinha acontecido” (Lc 24,14) deve entender-se neste enquadramento: é essa partilha solidária dos sonhos desfeitos que torna menos doloroso o desencanto.
Chegados aqui, o autor do relato introduz no quadro um novo personagem: o próprio Jesus. Ele alcança Cléofas e o companheiro e põe-se a caminhar ao lado deles; mas os dois discípulos, ocupados a “lamber as feridas” da desilusão, não O reconhecem: acontece-lhes a mesma coisa que a Maria Madalena quando, na manhã de Páscoa, confundiu Jesus ressuscitado com o jardineiro (cf. Jo 20,15). Jesus, com solicitude, questiona-os sobre o assunto que os inquieta tanto (cf. Lc 24,17); e eles, estranhando que o viajante não conheça “o que se passou nestes dias” em Jerusalém, contam-lhe a história do “profeta poderoso em obras e palavras” que os príncipes dos sacerdotes e os chefes entregaram para ser condenado à morte e crucificaram” (Lc 24,19-20). Para eles, infelizmente, a história de Jesus terminou aí e ficou sepultada num túmulo, em Jerusalém, onde colocaram o Seu corpo morto. Falta, na leitura que fazem dos acontecimentos, a fé no Senhor ressuscitado – ainda que conheçam a tradição do túmulo vazio e o testemunho das mulheres que foram ao túmulo na manhã de Páscoa (cf. Lc 24,22-24).
Para sossegar os dois discípulos e para lhes demonstrar que tudo se encaixava perfeitamente na lógica do plano de Deus, Jesus, “começando por Moisés e passando pelos profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito” (Lc 24,27). Lucas não refere em pormenor os textos vétero-testamentários que Jesus teria citado; mas talvez esteja a pensar, concretamente, em Dt 18,18 (“suscitar-lhes-ei um profeta como tu, de entre os seus irmãos; porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu ordenar”), nos cânticos do “Servo de Javé” (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12) e em alguns salmos que enquadram o sofrimento e a glorificação do justo no contexto do projeto salvador de Deus (cf. Sl 22; 35,6; 110,1; 118,22).
Aqueles dois discípulos percebem, então, que “o messias tinha de sofrer tudo isso para entrar na glória” (Lc 24,26). Lucas, por sua vez, parece interessado em sugerir aos discípulos de todas as épocas e lugares que é na escuta e na partilha da Palavra que o plano salvador de Deus ganha sentido; e que só através da Palavra de Deus – explicada, meditada e acolhida – o crente pode perceber que o amor até às últimas consequências e o dom de si próprio não levam ao fracasso, mas geram vida nova e definitiva.
Os três (Jesus, Cléofas e o discípulo não identificado) chegam, finalmente, a Emaús. Os discípulos continuam a não reconhecer Jesus, mas oferecem-lhe hospitalidade (cf. Lc 24,28-29): é de noite e não é seguro continuar a viagem. Aquele desconhecido encanta-os e eles não querem vê-lo partir. Jesus aceita o convite, entra com eles em casa e senta-se com eles à mesa. Enquanto comem, Jesus, assumindo o papel do dono da casa, “tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho” (Lc 24,30). As palavras usadas por Lucas referem os mesmos gestos que Jesus tinha feito na multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Lc 9,16) e naquela inolvidável ceia de despedida que Ele celebrou com os discípulos na véspera da Sua morte (cf. Lc 22,19). São também as palavras que a Igreja primitiva repetia sempre que se encontrava reunida à volta da mesa eucarística. É então que os olhos dos dois discípulos se “abrem” e eles reconhecem, no companheiro de viagem, o próprio Jesus (cf. Lc 24,31).
A última cena da nossa história põe os discípulos a retomar o caminho, a regressar a Jerusalém e a apresentar-se novamente à comunidade que tinham abandonado horas antes (cf. Lc 24,33-35). Não os inquieta a noite, os quilómetros a percorrer, nem a comida que ficou na mesa; a única coisa que lhes interessa é dar testemunho de que Jesus venceu a morte, está vivo e caminha novamente com os seus discípulos.
Não será difícil vermos, por detrás da construção lucana, uma evidente intenção catequética. Quando Lucas escreve o seu Evangelho (década de 80 do primeiro século), a comunidade cristã defrontava-se com algumas dificuldades. Tinham decorrido cerca de cinquenta anos depois da morte de Jesus, em Jerusalém. A catequese dizia que Ele estava vivo; mas no dia a dia de uma vida monótona, cansativa e cheia de dificuldades, era difícil fazer essa experiência. As testemunhas oculares de Jesus tinham já desaparecido e os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição pareciam demasiado distantes, ilógicos e irreais. “Se Jesus ressuscitou e está vivo, como posso encontrá-l’O? Onde e como posso fazer uma verdadeira experiência de encontro real com esse Jesus que a morte não conseguiu vencer? Porque é que Ele não aparece de forma gloriosa e não instaura um reino de glória e de poder, que nos faça triunfar definitivamente sobre os nossos adversários e detratores?” – perguntavam os crentes das comunidades lucanas.
É a isto que o catequista Lucas vai procurar responder. A sua mensagem dirige-se a esses crentes que caminham pela vida desanimados e sem rumo, cujos sonhos parecem desfazer-se ao encontro da realidade monótona e difícil do dia a dia… Lucas diz-lhes: “Sim, Jesus está vivo e caminha ao nosso lado nos caminhos do mundo. Às vezes, não conseguimos reconhecê-l’O, pois os nossos corações estão ocupados com as nossas preocupações pessoais, com os nossos interesses egoístas, com os nossos preconceitos enraizados, com as nossas visões estreitas… Ficamos amarrados aos nossos limites, incapazes de olhar mais longe e de compreender o projeto de Deus. Apesar de tudo isso, Jesus faz-Se nosso companheiro de viagem, caminha connosco passo a passo, alimenta a nossa caminhada com a esperança que brota da sua Palavra, faz-Se encontrar sempre que nos sentamos à mesa da comunidade para partilhar o pão eucarístico.
Na catequese lucana aparece, sobretudo, a ideia de que é na celebração comunitária da Eucaristia que os crentes fazem a experiência do encontro com Jesus vivo e ressuscitado. A narração sugere claramente o esquema litúrgico da celebração eucarística: a liturgia da Palavra (a “explicação das Escrituras”, que permite aos discípulos entenderem a lógica do plano de Deus em relação a Jesus) e o “partir do pão” (que faz com que os discípulos entrem em comunhão com Jesus, recebam d’Ele vida, O reconheçam nesses gestos que são o “memorial” da sua entrega até ao extremo por amor).
Anotemos ainda uma última sugestão que o “catequista” Lucas nos deixa: depois de fazer a experiência do encontro com Cristo vivo e ressuscitado na celebração eucarística, cada crente é, implicitamente, convidado a voltar à estrada, a dirigir-se ao encontro dos irmãos e a testemunhar que Jesus está vivo e presente na história e na caminhada dos homens.

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