João nunca refere factos da vida de Jesus na sua materialidade pura, utiliza-os sempre para compor páginas de densa teologia: nunca é fácil determinar aquilo que realmente aconteceu. O caso da samaritana é exemplar: o simbolismo que acompanha todo o relato é tão evidente que houve até quem pusesse em dúvida a historicidade do acontecimento e pensasse que fosse uma composição literária do evangelista. Nós consideramos que tenha havido um encontro de Jesus com uma mulher da Samaria, mas que esse facto foi mais tarde redigido com a linguagem, as imagens e as referências bíblicas com que se quis transmitir uma mensagem teológica.
No nosso comentário iremos ter presentes dois níveis – um histórico e outro teológico – concentrando a nossa atenção no segundo.
Antigamente, o poço era o local onde se encontravam as pessoas. Lá se encontravam os pastores que iam dar de beber aos seus rebanhos, paravam os comerciantes com os seus produtos à espera de clientes, iam as mulheres buscar água (e eventualmente mexericar), os enamorados à procura de uma companheira.
A Bíblia relata muitos destes encontros junto ao poço; o que é narrado hoje tem como protagonistas Jesus e uma mulher de Samaria. O poço de que se fala existe ainda, fica na estrada que, partindo da Judeia, conduz à Galileia, tem mais de três mil anos, é muito profundo e dá ainda água boa e fresca, como no tempo de Jesus. Era o local onde todos os viajantes paravam para retemperar as forças.
Também Jesus, cansado da caminhada, se sentou na borda do poço. É meio-dia quando uma mulher vem buscar água, e Jesus pede-lhe que lhe dê de beber.
A admiração da mulher é compreensível: pelo sotaque deu-se logo de conta de que se tratava de um dos odiados galileus. Como ousa pedir-lhe de beber a ela, que é samaritana? Por que viola a norma severa que proíbe que se fale quando se está a sós com mulheres desconhecidas? Os rabis ensinavam que, até mesmo para pedir uma informação, as palavras deviam ser reduzidas ao mínimo. É célebre o episódio que aconteceu ao rabi José, o Galileu que numa encruzilhada perguntou a uma mulher: «Qual é a estrada para a Luz?» Tendo-o reconhecido, a mulher respondeu: «Falaste demais com uma mulher, deverias ter dito apenas: Luz?»
Sendo esta a mentalidade, compreende-se também a admiração dos discípulos que, de regresso da aldeia onde tinham ido comprar alimentos, encontram Jesus que fala com uma samaritana.
A atitude livre do Mestre é um motivo de reflexão, mesmo se marginal em relação ao tema do trecho de hoje. Jesus exige dos discípulos a pureza de coração e de intenções; chega a ser severo acerca deste tema: «Aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração», mas comporta-se de modo livre e recusa qualquer forma de discriminação.
Depois desta introdução, vamos então á parte central do trecho, ao diálogo entre Jesus e a samaritana.
É importante entender quem é esta mulher. O modo como o evangelista a apresenta deixa transparecer claramente a sua vontade de a transformar num símbolo.
Tentemos identifica-la: não tem nome, não é dito de onde venha, o único elemento que a define é «samaritana», que equivale a herética, infiel a Deus. Quem será?
Vinha ao poço e na Bíblia o poço – já o dissemos – é muitas vezes o local de encontro dos enamorados, que depois acabam por se casar. É curioso o facto de o evangelista, para deixar sós Jesus e a mulher, afastar de forma grosseira e pouco verossímil todos os discípulos com a desculpa de «comprar alimentos».
Quem representam então os dois «enamorados» no poço? No Antigo Testamento refere-se muitas vezes o povo de Israel como a esposa à qual o Senhor se uniu com um afecto indefectível (não esqueçamos que Israel, em hebraico, é feminino). Estas núpcias não correram bem. Tinham começado por se enamorar no deserto onde Deus e Israel tinham vivido experiências inesquecíveis. O Senhor pensava com nostalgia nesses momentos: «Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto». Depois tinham começado as infidelidades da esposa, as suas traições, as paixões pelos amantes, o lamento pelos deuses do Egipto, a adoração dos Baal dos Cananeus, os flirts com as atividades dos Assírios, dos Babilónios, dos Persas e, por fim, até mesmo dos Romanos, provocando o ciúme do seu esposo.
Qual será a reação do Senhor? O repúdio, o divórcio, o castigo? Nada disso: «Como se pode repudiar a esposa da juventude? É o teu Deus quem diz. Por um curto momento Eu te abandonei, mas, com grande amor, volto a unir-me contigo». O Senhor vai escolher outra solução. Mesmo que tenha que se humilhar perante a esposa infiel, voltará a cortejá-la, porque o seu único objetivo é reconquistá-la: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração… ela responderá como no tempo da sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egipto».
Então é evidente quem é a samaritana: é a esposa Israel, que carrega consigo toda a sua história de amores e adultérios; teve muitos «maridos» e o que tem atualmente não é o seu esposo. Jesus encontra-a no poço e quer reconduzi-la ao seu primeiro e único verdadeiro amor, o Senhor.
Chegamos assim ao tema central do diálogo entre Jesus e a samaritana.
Os discípulos foram à procura do alimento material; a mulher veio buscar água ao poço. Mas Jesus oferece a todos um alimento e uma água viva que eles não conhecem.
A sede da samaritana é um símbolo das necessidades mais íntimas que atormentam o coração da esposa-Israel: a necessidade de paz, de amor, de serenidade, de esperança, de felicidade, de sinceridade, de coerência de Deus. São estas as necessidades que qualquer pessoa experimenta.
A água do poço indica as tentativas, as astúcias que o homem leva a cabo para placar esta sede que nenhuma «cisa» material consegue satisfazer.
A água viva que Jesus promete é de outro género, é o espírito de Deus, é aquele amor que enche os corações. Quem se deixa guiar por este Espírito tem a paz e não precisa de mais nada.
A mulher da Samaria, no início do diálogo, tinha em mente a água material, nem sequer suspeitava que pudesse existir outra. A pouco e pouco começou a perceber e a acolher a proposta de Jesus.
A sua descoberta progressiva é sublinhada com cuidado pelo evangelista. No início, para ela, Jesus é um simples viajante judeu; depois torna-se um senhor; em seguida um profeta; depois é o messias; por fim, com todo o povo proclama-o Salvador do mundo.
Através deste caminho espiritual da mulher da Samaria, João quer mostrar aos cristãos das nossas comunidades o percurso que é proposto a cada discípulo. Antes de encontrar Cristo, o homem anda preocupado apenas com os aspectos materiais da vida. São realidades importantes, muitas vezes indispensáveis, mas não são suficientes, não podem constituir o único objetivo da vida. Apenas quem encontra Cristo, quem descobre que Ele é o «Salvador do mundo» e acolhe o dom da sua água, sente que toda a fome e toda a sede podem ficar saciadas.
A última parte do Evangelho de hoje apresenta a conclusão do caminho espiritual da samaritana e de cada discípulo. O que faz esta mulher após ter encontrado Cristo? Abandona a bilha (já não lhe serve porque encontrou outra água!) e corre a anunciar a todos a sua descoberta e a sua felicidade.
É o convite a sermos missionários, Apóstolos, catequistas, a comunicarmos a todas as pessoas a alegria e a paz que experimenta quem encontra o Senhor.
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