“Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a Mim.”
1. No livro dos Números encontramos o episódio do Povo de Deus, no deserto, murmurando contra Moisés, porque tinham fome e sede: “Aqui não há pão, nem água.” Deus mandou contra o povo serpentes venenosas que mordiam nas pessoas e morreu muita gente. Entretanto, o povo arrependeu-se e suplicou: “Pecámos contra ti e contra o Senhor. Intercede junto de Deus para que afaste as serpentes.” Moisés orou e obteve esta resposta divina: “Faz uma serpente de bronze e coloca-a num poste. Quem for mordido e olhar para ela ficará curado.”
2. No Evangelho de São João, Jesus recorda esta passagem bíblica para anunciar a sua morte: “Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do Homem será elevado, para que todo aquele que acredita, tenha n’Ele a vida eterna.” (João 3,14) Noutra passagem, afirmou: “Quando Eu for exaltado na cruz, atrairei tudo a mim. Jesus dizia isto aos seus discípulos, indicando como ia morrer.” (João 12, 32-33)
Jesus Cristo elevado sobre a cruz, com admirável amor deu a vida por nós; do seu lado aberto pela lança do soldado, brotou sangue e água, para que todos os homens, atraídos ao Coração de Cristo, pudessem beber, com alegria, nas fontes da salvação. Fixemos o olhar em Jesus, guia da nossa fé, que na árvore da cruz, nos abriu as portas do Paraíso.
Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
3. Ao celebramos a festa da Exaltação da santa Cruz, a liturgia lembra-nos que por nosso amor, Jesus humilhou-se até à morte. No hino cristológico aos Filipenses, São Paulo demonstra que na fraqueza humana, Jesus manifestou o seu poder divino. “Cristo Jesus humilhou-se, assumindo a condição de servo. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo atá à morte e morte de cruz.” Para os discípulos de Cristo, a Cruz representa simultaneamente o despojamento e a glorificação do Senhor. Como o Apóstolo São Paulo, também nos gloriamos na cruz de Jesus: “Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.” (Gal 6,14)
Depois da humilhação, veio a vitória da Ressurreição. Ao nome de Jesus todos se ajoelhem no Céu, na terra e nos abismos: Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. (Filipenses 2,2-11)
4. Nós te saudamos com amor, ó cruz da salvação, em teus braços morreu Nosso Senhor, em ti foi operada a redenção. A festa de hoje ajuda-nos a compreender melhor o mistério da exaltação de Cristo: “Agora foi glorificado o Filho do Homem e Deus foi glorificado n’Ele.” (João 13,31)
A linguagem da cruz é loucura para o mundo; mas para os crentes, a cruz revela o poder de Deus. Salve ó cruz, ó árvore da vida, porque em ti a morte foi vencida. (1Cor 1,18). A cruz é a vontade de Deus Pai, a glória do seu Filho Unigénito, a alegria do Espírito Santo, a honra dos Anjos, a segurança da Igreja, o regozijo de São Paulo, a fortaleza dos Santos, a luz de toda a terra. (Santo André de Creta, Liturgia das Horas, Ofício de Leituras, Santa Maria no Sábado.)
«A cruz é sinal de vitória para nós, na cruz fomos salvos,
naquele percurso que Jesus quis fazer até ao mais baixo, mas com a força da divindade.
E a serpente antiga destruída ainda late, ainda ameaça, mas, é um cão acorrentado:
se não te aproximares não te morderá; mas se a fores acariciar,
porque o fascínio te atrai como se fosse um cãozinho, prepara-te, destruir-te-á.»
Hoje seria bom se em casa, tranquilos, dedicássemos cinco, dez, quinze minutos a estar diante do crucifixo, ou daquilo que temos em casa ou do rosário, a fim de olhar para ele e recordar que é o nosso sinal de derrota que causa as perseguições, que nos destroem, mas é também o nosso sinal de vitória, porque Deus venceu assim.
Hoje a Igreja convida-nos a contemplar a cruz do Senhor, a santa cruz, que é o sinal do cristão. A cruz é aquele sinal que quando éramos crianças, talvez tenha sido o primeiro que aprendemos a fazer no peito e nos ombros, a santa cruz de Deus. E contemplar a cruz, para nós cristãos, significa contemplar um sinal de derrota e um sinal de vitória, ambos.
A pregação de Jesus, o milagre de Jesus, tudo o que Jesus fez na vida, acabou numa “falência”, faliu na cruz. Todas as esperanças que os discípulos depunham nele foram desatendidas: nós esperávamos que ele fosse o Messias, mas foi crucificado. E a cruz é aquele patíbulo, aquele instrumento cruel de tortura. Ali acabou toda a esperança das pessoas que seguiam Jesus. Uma verdadeira derrota.
Não tenhamos medo de contemplar a cruz como um momento de derrota, de falência (Filipenses 2, 6-11). Paulo quando faz a reflexão sobre o mistério de Jesus Cristo diz-nos coisas fortes, diz-nos que Jesus se esvaziou, se aniquilou, assumiu todos os nossos pecados, todos os pecados do mundo: era um “trapo”, um condenado. Por conseguinte, Paulo não tinha medo de mostrar esta derrota e também isto pode iluminar um pouco os nossos momentos maus, os nossos momentos de derrota.
Mas a cruz é também «um sinal de vitória para nós cristãos. A ponto que na tradição havia aquela aparição: “com este sinal tu vencerás”, sinal de vitória para nós. E a leitura de hoje (Nm 21, 4-9) reproposta também pelo trecho evangélico de (Jo 3, 13-17) fala do momento em que o povo devido aos murmúrios foi punido pelas serpentes; fala das serpentes como instrumento de morte. E por detrás está a memória de Israel, a serpente antiga, a do paraíso terrestre. Satanás, o grande Acusador. Era profético pois o Senhor disse a Moisés para erguer uma serpente, erguer. Mas o que te dava a morte, o que era pecado, tudo será elevado e isto dará a saúde. Esta é uma profecia.
Jesus feito pecado venceu o autor do pecado, venceu a serpente. Com efeito, Satanás era feliz na sexta-feira santa; sentia-se tão feliz que não se apercebeu que havia a grande cilada da história na qual teria caído. Viu Jesus tão arrasado, rebaixado e, como o peixe faminto que cai na isca amarrada ao anzol, ele foi lá e engoliu Jesus. Dizem isto os padres da Igreja.
A sua vitória cegou-o, engoliu este “trapo”, este Jesus destruído. Sentia-se feliz mas naquele momento engoliu também a divindade, porque era a isca amarrada ao anzol com o peixe. Naquele momento satanás foi destruído para sempre. Não teve força. A cruz, naquele momento, tornou-se sinal de vitória.
A nossa vitória é a cruz de Jesus, a derrota daquele que tinha carregado sobre si todos os nossos pecados, estava quase destruído, todas as nossas culpas; e a vitória diante do nosso inimigo, da grande serpente antiga, do grande Acusador. Por isso, a cruz é sinal de vitória para nós, na cruz fomos salvos, naquele percurso que Jesus quis fazer até ao mais baixo, ao mais baixo, mas com a força da divindade.
“Quando for elevado, atrairei todos a mim”. Jesus elevado e satanás destruído. A cruz de Jesus deve ser para nós a atração: olhar para ela, porque é a força para ir em frente. E a serpente antiga destruída ainda late, ainda ameaça, mas, como diziam os padres da Igreja, é um cão acorrentado: se não te aproximares não te morderá; mas se a fores acariciar, porque o fascínio te atrai como se fosse um cãozinho, prepara-te, destruir-te-á. E assim, com esta vitória da cruz, com Cristo ressuscitado, que nos envia o Espírito Santo, vamos em frente, em frente, sempre; e aquele cão acorrentado, ali, ao qual não me devo aproximar senão ele morde-me, a nossa vida vai em frente.
A cruz ensina-nos isto, que na vida há a falência e a vitória. Devemos ser capazes de tolerar as derrotas, de as carregar com paciência; as derrotas, também dos nossos pecados porque ele pagou por nós. Tolerá-las nele, pedir perdão nele mas nunca se deixar seduzir por este cão acorrentado.
Papa Francisco, Meditações matutinas, Capela da Casa Santa Marta, 14 de setembro de 2018
Paróquia São Luis – Faro Paróquia de São Luis de Faro – Diocese do Algarve – Noticias, Eventos …