Todos os autores cuidam com particular empenho da primeira página dos seus livros porque constitui a folha de apresentação de toda a obra. Não só deve ser agradável e cativante, mas deve também acenar aos temas essenciais que serão tratados. É um modo de espevitar o interesse e a curiosidade do leitor.
Para introduzir o seu Evangelho, João compõe um hino tão sublime, tão elevado que lhe mereceu, justamente, o título de «águia» entre os evangelistas. Neste prólogo, como na ouverture de uma sinfonia, é possível ver os motivos que depois serão retomados e desenvolvidos nos capítulos sucessivos: Jesus enviado pelo Pai, fonte de vida, luz do mundo, cheio de graça e de verdade, Unigénito no qual se revela a glória do Pai.
Na primeira parte, João parece descolar de uma imagem querida da literatura sapiencial e rabínica: a «Sabedoria de Deus» representada como uma mulher encantadora e deliciosa. Assim se apresenta a si mesma a «sabedoria» no livro dos Provérbios: «O Senhor criou-me, como primícias das suas obras, desde o princípio, antes que criasse coisa alguma. Desde a eternidade fui formada, desde as origens, antes dos primórdios da terra. Ainda não havia os abismos e eu já tinha sido concebida; ainda as fontes das águas não tinham brotado; antes que as montanhas fossem implantadas, antes de haver outeiros, eu já tinha nascido. Ainda Ele não tinha criado a terra nem os campos, nem os primeiros elementos do mundo. Quando Ele formava os céus, ali estava eu; quando colocava a abóbada em cima do abismo, quando condensava as nuvens nas alturas, quando continha as fontes do abismo, quando fixava ao mar os seus limites , para que as águas não ultrapassassem a sua orla; quando assentou os fundamentos da terra, eu estava com Ele».
A segunda parte é um primeiro entreato narrativo que introduz a figura do Batista. Dele não se diz que «estava com Deus». João é um simples homem suscitado por Deus para uma missão. Devia ser a testemunha da luz. O seu papel é tão importante que chega a ser sublinhado por três vezes.
Ele não era a luz, mas soube reconhecer a luz verdadeira e indicá-la a todos.
A terceira parte desenvolve o tema de Cristo -luz e a resposta dos homens perante a sua vinda ao mundo.
O hino abre-se com um grito de alegria: ««O Verbo era a luz verdadeira » Jesus é a luz autêntica, em contraposição ao cintilar ilusório, aos fogos de artifício, às miragens, aos clarões enganadores projetados pela sabedoria dos homens.
A este grito entusiástico contrapõe-se, porém, uma lamentação: «o mundo não o conheceu.» é a recusa, a oposição, o fechar-se à luz. Os homens preferem a obscuridade porque estão afeiçoados às obras do mal.
A quarta parte: «E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós.» É o momento culminante de todo o prólogo e são as palavras do Evangelho que hoje solenemente ouvimos. Estão ainda carregadas com a admiração alegre e estupefacta dos cristãos das primeiras comunidades diante do mistério de Deus que por amor se despoja da sua glória, anula-se a si mesmo e vem habitar a nossa tenda.
A quinta parte é o segundo entreato. Volta a aparecer o Batista, e desta vez ele fala no presente: «dá testemunho» a favor de Jesus. «Exclamando» aos homens de todos os tempos Ele é único.
A sexta parte é um cântico de alegria do qual transborda o reconhecimento da comunidade a Deus pelo dom recebido. Dom incomparável. Também a lei de Moisés era um dom de Deus, mas não era definitiva. As disposições externas que ela continha não tinham a possibilidade de comunicar «a graça e a verdade», isto é, a força que permite ao homem corresponder ao amor fiel a Deus. A «graça e a verdade» foi doada por meio de Jesus.
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