24 de março de 2024 – Domingo de Ramos na paixão do Senhor – Ano B

A cruz era o instrumento mais cruel e horrível dos suplícios, era a pena capital reservada aos bandidos, aos escravos rebeldes, aos marginais da sociedade culpados de delitos atrozes. Cícero, o orador e escritor romano que viveu no século I a. C., refere-a como «uma tal condenação da qual o próprio nome deve ser afastado, não só da pessoa dos cidadãos romanos, mas também dos seus pensamentos, dos seus olhos, dos seus ouvidos».

Professar-se seguidor de um crucificado? Era uma loucura! Uma vergonha, uma escolha contrária ao bom senso. Paulo escreve aos Coríntios: «Enquanto os Judeus pedem sinais e os Gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os Judeus e loucura para os gentios».

Venerar a cruz não significa inclinar-se diante de um objeto material, nem sequer contemplar o aspeto dolorista da paixão de Jesus. A cruz indica uma escolha de vida, a do dom de si próprio. Contemplá-la significa como ponto de referência para cada decisão.

Todos os evangelistas contam que os discípulos, logo que se deram conta que Jesus não reagia, não lutava, não convidava a combater, fugiram. Só Marcos lembra um pormenor curioso: «Seguiu-o um jovem, envolto apenas num lençol. Agarraram-no, mas ele, largando o lençol, fugiu nu».

O detalhe é de facto marginal e talvez tenha sido inserido pelo evangelista como uma referência autobiográfica: com efeito a tradição identificou naquele rapaz o próprio Marcos.

No entanto, a cena algo cómica do jovem que foge nu reproduz, na intenção do evangelista, o comportamento desenvolvido de muitos cristãos que facilmente ignoram os seus compromissos. Para seguir o Mestre, os Apóstolos abandonaram tudo, agora, no momento em que se dão conta que a meta da viagem é o dom da vida, abandonam tudo. Desta vez já não para seguir o Mestre, mas para fugir. É o que acontece – insinua Marcos – também aos cristãos: chamados por vezes a confrontar-se de modo evangélico com as contrariedades da vida, para evitar riscos abandonam a veste batismal que os identifica e renunciam às escolhas corajosas que a sua fé impõe.

Todos os evangelistas põem em revelo que, depois de um acolhimento inicial entusiástico, as multidões foram-se gradualmente afastando de Jesus, que no final acabou por ficar só com os doze. Estes, por sua vez, fugiram no momento da escolha decisiva. Mas nenhum como Marcos evidencia a solidão de Cristo durante a paixão.

Completamente só, Jesus experimentou a angústia de quem, mesmo se certo de estar empenhado numa causa justa, se sente derrotado. O seu grito: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» parece escandaloso, mas exprime o seu drama interior. No momento da morte, Ele fez a experiência da impotência, do fracasso na luta contra a injustiça, contra a mentira e a opressão exercida pelo poder religioso e político.

Quem se empenha a viver de modo coerente a própria fé – é a mensagem de Marcos aos cristãos das suas comunidades – deve ter em conta que, no momento crucial, será deixado só, poderá ser traído pelos amigos e rejeitado pela família, sentir-se abandonado por Deus e poderá também chegar a perguntar-se se valerá a pena sofrer tanto para depois acabar derrotado. Nestes momentos poderá lançar o seu grito ao Pai, mas, para não cair no abismo do desespero, deverá gritar com Jesus. Só assim receberá uma resposta aos seus apelos angustiantes.

No relato da paixão, segundo Marcos, Jesus está sempre em silêncio.

 

Às autoridades religiosas que lhe perguntam se é Ele o Messias, e a Pilatos que quer saber se é rei, responde simplesmente: «Eu sou». Depois mais nada. Durante o processo não sai uma só palavra da sua boca. Perante os insultos, as provocações, as mentiras, Ele está calado, não replica; Sabe que quem o quer condenar está consciente da sua inocência. Sabe que os seus inimigos já decretaram a sua morte e não vale a pena abaixar-se ao seu nível, aceitando uma discussão que nada mudaria.

Há um silêncio que é sinal de fraqueza e falta de coragem: o de quem não intervém para denunciar injustiças porque teme perder amigos, meter-se nalguma complicação ou criar inimizades entre as pessoas que contam. Há, pelo contrário, um silêncio que é sinal de força de ânimo: o de quem não reage às provocações, não se descompõe perante a arrogância, o insulto, a calúnia. É o silêncio nobre de quem está certo da própria lealdade e retidão e convicto de que a causa justa pela qual se bate acabará por triunfar.

O cristão não é uma pessoa pávida que se resigna, que não luta contra o mal; é alguém que se esforça por estabelecer a verdade e a justiça, mas que também – como o Mestre – tem a força de calar, recusando recorrer aos meios desleais utilizados pelos seus adversários: a calúnia, a mentira, a violência. Não teme a derrota e não se preocupa com a vitória dos seus inimigos: sabe que esse triunfo é efémero.

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