Durante um curso bíblica em África, um catequista perguntou-me: «Quando Jesus foi conduzido ao pináculo do tempo para ser tentado, quem ia à frente dele, Ele ou o diabo? A esta pergunto poderiam seguir-se outras: onde se encontra o monte muito alto de onde se podem contemplar todos os reinos do mundo? Como conseguiu Jesus resistir tanto tempo sem comer? Que aparência assumiu o diabo? Quem contou a Mateus estes factos? Como se pode considerar Jesus um irmão que se «assemelha em tudo aos seus irmãos», até mesmo nas tentações, se depois Ele é submetido a provações tão diferentes das nossas?
A lista de dificuldades poderia continuar, mas estas são suficientes para nos dar a entender que não estamos perante um trecho de crónica, mas um texto de teologia.
Marcos, o primeiro evangelista, limita-se a recordar que «o Espírito impeliu Jesus para o deserto; ficou no deserto quarenta dias; era tentado por Satanás». Servindo-se da linguagem e das imagens bíblicas, ele pretendia dizer que toda a existência de Jesus, representada no número quarenta, tinha sido um confronto dramático entre Ele e o tentador.
Nos anos seguintes, a reflexão das comunidades cristãs tinha continuado. Os discípulos recordavam sobretudo a mais dramática das suas tentações, na cruz, quando tinha gritado ao Pai «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». Estas palavras podiam parecer blafemas a quem não entendia que, naquele momento, Jesus rezava: recitava o Salmo 22. Como tinha feito durante toda a sua vida, também durante a agonia ele evocava as Escrituras.
Como sintetizar numa página de catequese esta experiência de tentação, que durara uma vida e se concluíra, num crescendo, na cruz?
Examinemos cada uma destas três «parábolas» que representam, de forma esquemática, a maneira errada de se relacionar com três realidades: com as coisas, com Deus, com as pessoas.
A primeira: «Diz a estas pedras que se transformem em pão»
Sem pão não se vive. «Comer» é um dos verbos mais usados na Bíblia: aparece novecentas e dez vezes no Antigo Testamento, e isto demonstra quanto é importante para Deus que cada pessoa tenha com que se alimentar.
Para os cristãos, a Quaresma é tempo de revisão de vida e de conversão. A fé no Ressuscitado não se pode reduzir a uma solicitação à esmola, a deixar cair alguma migalha mais consistente das nossas mesas fartas. É uma provocação a rever claramente o modo de gerir os bens deste mundo.
A segunda tentação: «Lança-te daqui a baixo»
A proposta diabólica é até mesmo baseada na Bíblia «Está escrito… diz o tentador.
A mais manhosa das astúcias do mal é a de se apresentar com um rosto cativante, de assumir um ar devoto, de se servir da própria palavra de Deus – por vezes alterada ou interpretada de modo insensato – para levar por maus caminhos.
O objetivo principal do maligno não é o de provocar alguma queda do ponto de vista moral, de pôr à prova alguma fraqueza, mas o de minar pela base a relação com Deus. Este objetivo é alcançado quando, na mente da pessoa, se insinua a dúvida de que o Senhor poderá não manter as suas promessas, poderá faltar à sua palavra, não dar a sua proteção e, nos momentos cruciais, abandonar quem confiou nele.
A terceira tentação: «Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares»
A escolha é entre dominar e servir, entre competir e ser solidário, entre subjugar e considerar-se servo. Esta escolha manifesta-se em todas as atitudes e em todas as condições de vida: quem tem uma formação erudita ou atingiu uma posição de prestígio pode ajudar a crescer quem teve menos sorte, mas também se pode servir disso para humilhar quem é menos dotado. Quem detém o poder, quem é rico, pode servir os mais pobres e menos favorecidos, mas pode também assumir uma atitude de domínio para com essas pessoas.
O desejo de poder é de tal modo imparável que até mesmo quem é pobre é tentado a dominar quem é mais fraco do que ele.
A autoridade é um carisma, um dom de Deus à sua comunidade, para que cada pessoa possa ser colocada no seu lugar e sentir-se realizada. O poder, pelo contrário, é diabólico, mesmo se exercitado em nome de Deus.
Onde quer que se exerça o domínio sobre a pessoa, onde quer que se lute para levar a melhor sobre os outros, onde quer que alguém seja obrigado a inclinar-se ou a ajoelhar-se perante um seu semelhante, ali opera a lógica do maligno.
A última parte do trecho evangélico de hoje é um convite a revermos a nossa vida e a darmo-nos conta de que os privilégios, os títulos honoríficos não são oferecidos por Deus, mas pelo tentador. Aos seus filhos, o Pai de Jesus oferece apenas… serviços a prestar humildemente aos irmãos.
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