20 de setembro de 2026 – 25º Domingo do Tempo Comum – Ano A | «Deus dá o prémio conforme os méritos»: É o epitáfio no túmulo do amor

Há qualquer coisa de injusto e de irritante no comportamento do proprietário de quem fala a parábola: mostra-se generoso sem tomar em consideração os méritos. Ninguém lhe proibia de fazer beneficência com o seu dinheiro, mas premiar aqueles que tinham aparecido às 17h e que, até àquele momento, tinham ficado sem fazer nada, e que talvez até se tivessem entretido a vadiar, está fora de qualquer lógica. Se havia alguém que merecia uma recompensa eram os que tinham trabalhado mais, os operários da primeira hora. Nós estamos habituados a estipular os contratos de acordo com certos princípios que aqui, na parábola, não são respeitados.
É precisamente no modo provocatório de agir do proprietário que está o ensinamento principal do relato. Então vejamos.
É a época da vindima, e quando a uva está madura tem de ser recolhida e esmagada, tendo em atenção o momento e a lua certa. Para os proprietários dos grandes vinhedos são dias de tensão, precisam de trabalhadores, e aqueles que não têm um trabalho fixo sabem disso e aproveitam a urgência dos patrões para lhe arrancar um contrato favorável. Os mais disponíveis posicionam-se em lugares estratégicos ainda antes do nascer do dia e esperam que passe alguém que lhe dê trabalho. É aqui que começa a nossa parábola.
Ainda antes do nascer do Sol, eis que chega, ofegante, um vinhateiro. Já está a pé há mais de duas horas, programou o trabalho para aquele dia, arrumou as dornas, os cestos, os pipos; cozeu o pão e preparou as azeitonas que irá distribuir aos trabalhadores a maio do dia; nota-se a tensão no rosto e, pelo olhar, os gestos rápidos, quase nervosos, deixa transparecer toda a sua pressa e preocupação. Algumas palavras rápidas para acordar o pagamento e o primeiro grupo, o dos madrugadores, já está na vinha.
O proprietário tem uma grande urgência em concluir o trabalho, e de facto sai mais quatro vezes à procura de trabalhadores: a meio da manha, ao meio-dia, às três da tarde e, quando chama o último grupo, são já as 17h00, falta apenas uma hora para a conclusão da jornada.
Até aqui não há nada de estranho, é tudo lógico, normal.
Vamos começar a identificar as personagens: o proprietário representa Deus ou Cristo; os trabalhadores são os discípulos que, em momentos diferentes da vida de cada um, respondem ao seu chamamento; a vinha é a comunidade cristã, onde o trabalho nunca falta e deve ser feito com grande urgência. Catequistas, leitores, acólitos, acolhimento durante as celebrações, cantores, pastoral social. A pressa é a mesma que encontramos na disposição que Jesus dá aos seus enviados: «Não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho» porque não há tempo a perder. O dia é a imagem da vida de cada pessoa e o entardecer é o momento do justo juízo de Deus.
Todos conhecemos os termos eucaristia e carisma. Derivam do termo grego charis que significa benevolência, dom gratuito, prenda que dá alegria, felicidade.
É grande a satisfação que podemos experimentar quando nos é entregue o diploma da licenciatura, depois de muitas canseiras e noites insones; mas é imensa a alegria que suscita em nós a simples flor que a pessoa amada nos entrega no momento em que declara o seu amor.
A prenda comunica uma emoção única, porque é sinal de alguém que pensa em nós, que nos ama, que pronuncia com ternura o nosso nome.
A introdução na relação com o Senhor dos critérios da justiça retributiva, da contabilidade, dos prémios e dos castigos, das lisonjas e das ameaças, do registo dos méritos e das transgressões é uma deformação diabólica da fé. Os rabis tinham catalogado os homens em quatro categorias: justos, se observavam toda a lei; ímpios, se prevaleciam as infrações; medíocres, se os méritos e as culpas eram equivalentes; arrependidos, se pediam o perdão dos seus pecados. Com o princípio: «a recompensa só se recebe por uma boa obra» tinham decretado o fim da relação de amor.
O diálogo entre Deus e o homem só se instaura onde há o encontro livre, o dom gratuito, o amor recíproco sem condições. Quem ama não pretende nada, não espera mais nada senão ver a pessoa amada sorrir e alegrar-se.
Na linha dos profetas, os melhores dos rabis diziam ao Senhor: «Nisto se manifesta a tua salvação: Tu tens misericórdia daqueles que não possuem um tesouro de boas obras» «Tudo o que Tu nos fizeste é graça, pois nas nossas mãos não havia boas obras» Jesus fez sua esta justiça de Deus.

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