2 de novembro de 2026 – Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

Os Fiéis defuntos

Ontem, celebrámos a glória e a felicidade de todos os Santos. Hoje, a Igreja dedica este dia à oração de sufrágio pelos irmãos que adormeceram na esperança da ressurreição. Hoje recordamos a fé na comunhão de todos os crentes em Cristo. Desde o início do século XI, a Igreja consagra o dia dois de Novembro à Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. É uma continuação lógica da festa de Todos os Santos. Se nos limitássemos a lembrar os nossos irmãos santos, a comunhão de todos os crentes em Cristo não seria perfeita. Acreditamos que tanto os fiéis que vivem na glória, como os que vivem na purificação, preparando-se para a visão de Deus, são todos membros do Corpo místico de Cristo, pelo Baptismo. Por isso, a Igreja peregrina na terra, ao celebrar a Igreja da glória, não podia esquecer a Igreja que se purifica no Purgatório.[1] O dia de Todos os Fiéis Defuntos convida-nos a uma mais íntima e profunda comunhão com aqueles que partiram antes de nós, marcados pelo sinal da fé e agora dormem o sono da paz. É dia de oração, de sacrifício e de saudosa recordação. Por este motivo, o dia de Fiéis Defuntos suscitou, desde sempre, um profundo eco no Povo de Deus.[2] “A fé dá-nos a possibilidade de uma comunicação com os nossos queridos irmãos defuntos e dá-nos a esperança de que já possuem a verdadeira vida.” (GS18,2)
O Catecismo da Igreja Católica afirma que nós podemos ajudar os nossos Irmãos Fiéis Defuntos: “Os que morrem na graça e amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do Céu. A Igreja recomenda a esmola, as indulgências e as boas obras em favor dos defuntos.” (1031-1032)
Hoje somos convidados a reflectir na brevidade da vida presente. A vida é breve e o cenário do tempo presente é passageiro como nos ensina São Paulo.
Ao lembramos os nossos irmãos fiéis defuntos, cumprimos um dever de reconhecimento em favor de quem nos deixou o dom da vida, da fé, da amizade. Recordar os nossos familiares e amigos que partiram deste exílio é também celebrar a sua sobrevivência e a sua imortalidade na Pátria definitiva, a casa do nosso Pai celeste. “Pela fé em Jesus Cristo podemos chegar aos nossos mortos, que vivem em Deus. Acreditamos que é um santo e piedoso pensamento. Como é consolador: do passado, o nosso olhar dirige-se para o futuro, para a aurora do regresso de Jesus Cristo.” (Cf. Papa Beato Paulo VI)
“Acreditamos em Jesus que morreu e ressuscitou; do mesmo modo, acreditamos que Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido. Eis o que temos para vos dizer: nós, os vivos, os que ficarmos para a vinda do Senhor, não precederemos os que tiverem morrido. Ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, o próprio Senhor descerá do Céu e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Em seguida, nós, os vivos, os que tivermos ficado, seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens, para irmos ao encontro do Senhor nos ares e assim estaremos sempre com o Senhor. Consolai-vos uns aos outros com estas palavras.” (1 Tes 4,13-18).

«Hoje somos chamados a recordar todos, inclusive aqueles dos quais ninguém se lembra:
as vítimas das guerras, das violências, da miséria; os anónimos, os irmãos assassinados por serem cristãos.»

Ontem pudemos celebrar a Solenidade de todos os Santos e hoje a liturgia convida-nos a recordar os fiéis defuntos. Estas duas comemorações estão intimamente ligadas entre si, assim como a alegria e as lágrimas encontram em Jesus Cristo uma síntese que é fundamento da nossa fé e da nossa esperança. Com efeito, por um lado a Igreja, peregrina na história, alegra-se pela intercessão dos Santos e dos Beatos que a corroboram na missão de anunciar o Evangelho; por outro, como Jesus, ela compartilha o pranto de quantos sofrem a separação das pessoas amadas, e como Ele e graças a Ele, faz ressoar a acção de graças ao Pai que nos libertou do domínio do pecado e da morte.
Entre ontem e hoje, muitas pessoas vão em visita ao cemitério que, como diz esta mesma palavra, é o «lugar do descanso», à espera do derradeiro despertar. É bom pensar que o próprio Jesus nos acordará! Foi precisamente Jesus que nos revelou que a morte do corpo é como um sono do qual Ele nos desperta. É com esta fé que nos detemos — também espiritualmente — perante o túmulo dos nossos entes queridos, de quantos nos amaram e nos fizeram o bem. Mas hoje somos chamados a recordar todos, inclusive aqueles dos quais ninguém se lembra. Recordemos as vítimas das guerras e das violências; tantos «pequeninos» do mundo, esmagados pela fome e pela miséria; recordemos os anónimos, que descansam no ossário comum; recordemos os irmãos e as irmãs assassinados por serem cristãos; e recordemos quantos sacrificaram a vida para servir o próximo. Confiemos ao Senhor de maneira particular quantos nos deixaram durante este último ano.
A tradição da Igreja sempre exortou a rezar pelos finados, de maneira especial oferecendo por eles a Celebração eucarística: esta é a melhor ajuda espiritual que nós podemos oferecer pelas suas almas, particularmente por aquelas mais abandonadas. O fundamento da oração de sufrágio encontra-se na comunhão do Corpo Místico. Como reitera o Concílio Vaticano II, «reconhecendo claramente esta comunicação de todo o Corpo Místico de Cristo, a Igreja dos que ainda peregrinam cultivou com muita piedade desde os primeiros tempos do Cristianismo a memória dos defuntos» (Lumen gentium, 50).
A comemoração dos finados, o cuidado pelos sepulcros e os sufrágios são testemunho de esperança confiante, radicada na certeza de que a morte não é a última palavra sobre o destino humano, porque o homem está destinado a uma vida sem limites, que encontra a sua raiz e o seu cumprimento em Deus. Dirijamos a Deus a seguinte prece: «Deus de misericórdia infinita, confiamos à vossa bondade imensa quantos deixaram este mundo para a eternidade, onde Vós esperais a humanidade inteira, redimida pelo sangue precioso de Cristo, vosso Filho, morto em resgate pelos nossos pecados. Senhor, não olheis para as numerosas formas de pobreza, miséria e debilidade humanas, quando nos apresentarmos diante do vosso Tribunal, para sermos julgados para a felicidade ou a condenação. Dirigi-nos o vosso olhar piedoso, que nasce da ternura do vosso Coração, e ajudai-nos a caminhar pela senda de uma purificação completa. Que nenhum dos vossos filhos se perca no fogo eterno do inferno, onde já não há lugar para o arrependimento. Senhor, confiamos-vos as almas dos nossos entes queridos, das pessoas que morreram sem o alívio sacramental, ou que não tiveram a possibilidade de se arrepender nem sequer no termo da própria vida. Que ninguém tenha medo de se encontrar convosco, depois da peregrinação terrena, na esperança de ser recebido nos braços da vossa misericórdia infinita. Que a irmã morte corporal nos encontre vigilantes na oração e repletos de todo o bem praticado ao longo da nossa existência, breve ou longa que tenha sido. Senhor, nada nos afaste de Vós nesta terra, mas tudo e todos nos sustentem no desejo abrasador de descansar tranquila e eternamente em Vós. Assim seja!» (Pe. Antonio Rungi, passionista, Oração dos finados).
Com esta fé no destino supremo do homem, dirijamo-nos agora a Nossa Senhora, que aos pés da Cruz padeceu o drama da morte de Cristo e depois participou na alegria da sua Ressurreição. Que Ela, Porta do Céu, nos ajude a compreender cada vez mais o valor da oração de sufrágio pelos defuntos. Eles estão próximos de nós! Que Ela nos conforte na peregrinação quotidiana na terra e nos ajude a nunca perder de vista a meta derradeira da vida, que é o Paraíso. E nós vamos em frente com esta esperança, que nunca desilude!

Papa Francisco.

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