A obra criadora teve início com a separação da luz das trevas; o firmamento foi posto para separar as águas que estão por cima do céu das que se encontram na terra; Deus disse: «Haja luzeiros no firmamento dos céus, para separar o dia da noite». No fim destas separações, o autor sagrado comenta: «Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa».
Desde aquele dia, o homem – talvez pelo medo inconsciente de que os opostos possam de novo fundir-se e voltar a trazer o caos, a desordem que tornava impossível a vida – é levado instintivamente a levantar paliçadas e a estabelecer uma separação entre bons e maus, entre o que é puro e o que é impuro, entre santos e ímpios, entre os amigos de Deus e os seus inimigos. Alguns textos da Bíblia, interpretados superficialmente, parecem aprovar tais discriminações: «Sede santos para mim, porque Eu, o Senhor, sou santo e separei-vos dos povos para serdes o meu povo».
No mundo que saiu bom das mãos de Deus, a presença do mal continua a ser um enigma, um elemento de perturbação que o homem não suporta, e então, impaciente como os servos da parábola, pergunta-se: «De onde vem o joio?» É invalido pelo frenesi de resolver imediatamente as tensões que experimenta, e acaba por recorrer a remédios que são piores que o mal: torna-se impiedoso e intolerante consigo mesmo e com os outros, castiga de forma cruel, desencadeia guerras santas e deixa-se levar por aquela ira que «não deixa fazer o que é justo aos olhos de Deus».
Desta forma comete dois erros: não aceita serenamente a realidade do mundo onde o bem e o mal estão destinados a conviver, e confunde a estação do crescimento com a da colheita.
À parábola do trigo e do joio seguem-se outras duas, mais breves, chamadas «gémeas» porque contêm a mesma mensagem: a desproporção entre o pequeno início e o inesperado resultado final. Um grão de mostarda, quase invisível, dá origem a um arbusto capaz de atingir os quatro metros de altura; poucas gramas de fermento fazem levedar cinquenta quilos de farinha. O contraste é enorme!
Não se trata de um convite a gozar o prestígio presente e a saborear os triunfos futuros da Igreja que, composta inicialmente por um grupo pouco qualificado de pescadores e de pessoas impuras e pecadoras, se tornou uma estrutura respeitada, temida, apreciada, capaz de se fazer notar e de se impor. Não é sequer um anúncio da cristianização progressiva e imparável de todo o mundo.
Assim como acontecia com a parábola precedente, que exortava à paciência e à confiança, estas duas são um convite ao optimismo, derivante da certeza que no Espírito e na palavra de Cristo – mesmo se insignificantes aos olhos do mundo – está presente a força irresistível de Deus.
O evangelista conclui as três parábolas com uma reflexão sobre o objetivo que Jesus quis atingir com elas: desvendar o projeto que, desde o início da criação, Deus tem para o mundo.
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