14 de setembro de 2021 -Festa da Exaltação da Santa Cruz

Celebrar a santa Cruz de Nosso Senhor é celebrar o Amor misericordioso com que Deus nos ama. Mas é também aceitar o convite do Senhor a pegar na cruz de cada dia e caminharmos com Ele.

A exaltação da Santa Cruz

A festa que hoje celebramos tem a sua origem em Jerusalém. Após a descoberta da S. Cruz por S. Helena, o Imperador Constantino mandou construir um conjunto basilical que guardasse no seu interior o lugar do Calvário e o Santo Sepulcro. Ali se conservou também a preciosa relíquia da Santa Cruz. O templo foi dedicado o 13 de setembro de 335, e anualmente era celebrada a festa da dedicação e da S. Cruz no mesmo dia. Tornou-se, contudo, habitual que, para satisfazer a devoção dos fiéis, no dia seguinte se realizasse a exposição e adoração da santa Cruz. Um bispo subia para uma espécie de tribuna, magnificamente adornada, e depois de adorar a santa Relíquia, levantava-a e mostrava-a ao povo que permanecia ajoelhado. Esta cerimónia era denominada “Exaltação da santa Cruz”. A festa acabou por passar para o dia 14, e foi tomando uma dimensão cada vez menos local. No ano de 628 o resgate da santa Cruz, então em poder dos persas, pelo imperador Háraclio, contribuiu a solenizar a celebração em todo o Oriente. Mais tarde estender-se-ia à Igreja universal.

A devoção ao instrumento da nossa salvação insere-se na devoção e adoração ao próprio Salvador, porque ela resume e simboliza o Amor infinito de Deus que sofre em Jesus Cristo todas as penas devidas aos nossos pecados. Por isso a “Vera Crucis”, e todos os crucifixos e cruzes, são a presença sempre atual do Amor redentor que nos salva.

Chesterton no seu romance “A esfera e a cruz” descreve dois singulares personagens que viajam num avião, a baixa altura, sob o céu de Londres. O piloto é o professor Lucifer e ao seu lado encontra-se o monge Miguel, de longa barba branca e túnica da mesma cor. Quando passam junto da torre da catedral encimada por uma esfera e sobre ela a cruz, Lucifer profere uma blasfémia contra a cruz. Miguel, em resposta, conta a história de um homem que também odiava a cruz. Esse homem retirou todas as cruzes da sua casa, até do pescoço da sua mulher e de todos os quadros. Dizia que era o símbolo da barbárie, contrário ao gozo e à vida. Chegou, até, a escalar, um dia, a torre sineira da igreja e arremessar para o chão a cruz que nela havia.

Aquele ódio acabou transformando-se primeiro em delírio e depois em loucura furiosa. Uma tarde de verão deteve-se a fumar o seu cachimbo, num passeio campestre, junto duma paliçada que se estendia pela pradaria. Pareceu-lhe contemplar a paliçada convertida em um exército de cruzes unidas ente si. Então, agarrando na sua pesada bengala atirou-se a elas e foi derrubando todos aqueles paus ao longo do caminho. Quando chegou a sua casa continuava a ver cruzes por todas partes, desfez a pontapé todos os móveis e lhes pegou fogo, e na manha seguinte o encontraram morto a flutuar no rio.

Então o professor Lucifer com raiva disse: Essa história foste tu que a inventaste. É verdade, disse Miguel, acabo de a inventar; mas exprime muito bem o que estão a fazer tu e os teus amigos ateus. Começais por despedaçar a cruz e acabais por destruir o mundo.

De facto, retirar a presença da cruz da nossa vida é retirar a presença do amor de Deus por nós, e sem sermos amados tornamo-nos todos inimigos. Procuremos ter sempre por perto o crucifixo, olhemos para ele, beijemos com piedade esse sacramental, e recordemos o amor misericordioso com que somos amados para praticar a caridade e a misericórdia.

 

 

A serpente de bronze

Jesus, na conversa com Nicodemo, desvela o sentido típico da passagem do Livro dos Números que ouvimos na primeira leitura. A serpente de bronze levantada no meio do acampamento é uma imagem de Nosso Senhor levantado sobre a Cruz no cume do Calvário.

A serpente aparece no libro do Génesis identificada com o tentador e como imagem do pecado. Ela é a personificação da desobediência a Deus destilada na alma de Adão e Eva como um veneno. A serpente, no Paraíso, é a causa da morte, e a serpente de bronze, no deserto, é causa de cura e vida, preparando essa nova “serpente”, Nosso Senhor, que colocando-se no lugar do pecador, “feito pecado”, é causa da nossa Salvação e a nossa Vida

Jesus crucificado é a máxima expressão da humilhação (2ª leitura), amor e entrega de Deus por nós. O Filho de Deus percorre um caminho cada vez mais fundo de humildade. Faz-se homem, servo e finalmente ocupa o lugar do pecador e malfeitor. Assim nós, como o filho pródigo da parábola, podemos percorrer o caminho inverso: de pecadores podemos passar a servos (o rapaz conformava-se com ser criado) mas o Pai nos acolhe, em festa, como filhos muito amados. Esse caminho que leva à Gloria é aberto por Jesus. Por isso Deus o exaltou como Senhor de toda criatura. De essa exaltação jorra a luz que ilumina a sua Cruz gloriosa. Ela deixa de ser instrumento de tortura para participar, de algum modo, da gloria do Salvador.

Também o sofrimento humano foi transformado pela Paixão do Senhor. Assim o explica o Beato João Paulo II na sua Carta Apostólica Salvifici Doloris: “Na Cruz de Cristo, não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido. (…) Se um homem, se torna participante dos sofrimentos de Cristo, isso acontece porque Cristo abriu o seu sofrimento ao homem, porque Ele próprio, no seu sofrimento redentor, se tornou, num certo sentido, participante de todos os sofrimentos humanos. Ao descobrir, pela fé, o sofrimento redentor de Cristo, o homem descobre nele, ao mesmo tempo, os próprios sofrimentos, reencontra-os, mediante a fé, enriquecidos de um novo conteúdo e com um novo significado” (C.A.S.D., 19). Jesus, levantado na Cruz, do valor salvífico aos nossos sofrimentos.

A serpente, levantada no acampamento do Povo eleito, não é já o réptil venenoso que rasteia e mata. Ela é Jesus Cristo, o rosto humano do amor de Deus. que cura os nossos males e nos convida a oferecer as nossas dores em união com Ele.

 

 

Um olhar que salva

Lemos no livro dos Números que “quando alguém era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado”. Esse olhar aqui referido, não é simplesmente ver. É um olhar que nasce do coração, um olhar de fé, um olhar orante. Um olhar que contempla por trás de aquele pedaço de metal, a presença de Deus rico em misericórdia.

Também no Calvário muitos olhos fixaram Jesus. Uns olhavam com curiosidade, outros com ódio, alguns com pena, os soldados com desprezo e com irritação por ter que realizar aquela tarefa ingrata. O mau ladrão, desesperado com a sua sorte, olha indignado para Nosso Senhor e se une ao coro dos escárnios. Dimas, pelo contrário, alcança a ver a inocência do Senhor e recebe a fé e o Ceu. O olhar das santas mulheres e S. João se entrelaçam com o olhar de Nossa Senhora e com Ela pronunciam um novo “faça-se” entregues à vontade de Deus. Alguns não quereriam olhar, e mesmo os apóstolos, com exceção de João, fugiram com medo, e não estavam ali. Outros como os soldados que repartiam as vestes, desinteressam-se de Jesus e só olham para uns poucos despojos materiais. Mas o centurião que estava enfrente d’Ele, quando expira o Senhor disse: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (Mc 15, 39).

O que é que descobre o olhar de fé, que não enxergam os olhos superficiais? Que realidade invisível alcançam esses olhos por trás do imediato? O que contemplam é o Amor de Deus por nós tão poderoso e imenso, que rende qualquer coração. É um amor “inacreditável”; por isso S.João diz aos primeiros cristãos d Asia Menor: “Nos sabemos o amor que Deus nos tem e acreditamos nesse amor”(I Jo, 4, 16). É preciso acreditar nesse Amor, porque por vezes não acreditamos, ou não acreditamos com todas as consequências, e desanimamos, entristecemos e podemos chegar a desesperar.

Quando olhamos com fé para o crucifixo, não só contemplamos que Deus é Amor, mas que me ama a mim como jamais sonhei que alguém me poderia amar, e ama-me sempre. Além disso os meus sofrimentos aparecem na sua verdade mais funda; são bênçãos de Deus que me convida a pegar na sua Cruz como Simão de Cirene. São por isso carícias do Pai que me ajudam a ser santo e feliz.

Devemos, por isso olhar com fé para a Cruz. E olhamos quando participamos na Santa Missa, quando meditamos a Paixão no Evangelho, quando rezamos os mistérios dolorosos do Rosário, quando fazemos a Via Sacra, quando olhamos ou beijamos o crucifixo, etc. Existe uma breve e simples oração que nos facilita abraçar a Cruz identificados com Jesus: perante qualquer sofrimento digamos com fé “Senhor; aceito, agradeço e ofereço”.

Não esqueçamos, também, a pergunta que Nossa Senhora fez aos três pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” E a resposta, espontânea e simples, das crianças “sim, queremos”.

Também nós queremos aceitar e agradecer os sofrimentos que Deus nos enviar, conscientes de que são manifestação do seu amor, e converte-los em oração reparadora e impetratória. Nossa Senhora, como boa Mãe, nos conduz pela mão, até junto da Cruz do seu Filho, como fez com São João e as santas mulheres.

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