10 de junho de 2021 – Santo Anjo da Guarda de Portugal

O culto à Pátria, fenómeno frequente na história e nos países, tem sempre uma vertente limitativa do contributo que esse mesmo povo poderá dar à luz de um olhar universal da humanidade. No entanto, a diluição das características e da personalidade de um povo naquilo que é a experiência do todo internacional é, também ela, um risco à diversidade e à riqueza que reside na diferença inter-cultural e internacional. Por este motivo, a nação não é um fim em si mesmo, mas enquadra-se num desejo amoroso de Deus em construir uma história de maravilhas operadas entre os Homens. Neste dia do Anjo de Portugal, olhemos o contributo que, enquanto país poderemos conceder ao mundo, e rezemos para que os governantes e todos os portugueses saibam implorar de Deus o progresso humano e espiritual que é da Sua vontade.

1.     A CERTEZA DOS ANJOS

Nas últimas décadas, procurando dar prioridade a alguns temas da doutrina cristã, tem havido uma certa dificuldade em encontrar tempos e espaços de esclarecimento de outros temas que, por serem esquecidos, não deixam de ser de grande interesse. Um desses temas é a existência e a acção dos anjos na vida dos homens. A maior parte dos cristãos reza e tem ouvido falar do seu anjo da guarda, embora nem sempre se compreenda bem o seu sentido e o alcance da sua acção.

Em primeiro lugar é necessário referir que, nos últimos tempos, a astrologia e o esoterismo têm defraudado e desvirtuado o papel dos anjos, bem como o sentido do seu existir. Na internet e em muitas revistas, que dão lucro aos quiosques e editoras, existem inúmeras revistas de anjos que os reduzem a pequenos deuses, a guarda-costas dos seres humanos ou a pequenos amuletos de sorte.

Todavia, é necessário compreender os anjos com sentido de justiça e verdade acerca do que eles realmente são a partir dos dados bíblicos e da reflecção teológica. A existência dos anjos é constante nos documentos da Igreja, sempre em função das afirmações bíblicas. Mas vejamos como o IV Concílio de Laterão faz uma profissão de fé nestes seres criados por Deus: «Firmemente acreditamos […] que um só é o verdadeiro Deus […] Criador de todas as coisas, das visíveis e das invisíveis, espirituais e corporais […] criou do nada uma e outra criatura, a corporal e espiritual, a angélica e a mundana, e depois a humana, como comum, composta de espírito e corpo.» (Dz. 800).

 

2.     “GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS”

O Evangelho que acabámos de escutar narra uma das dimensões mais relevantes daqueles que partilham a condição de criaturas de Deus: dar glória a Deus.

Vivendo num tempo em que há um exacerbado culto ao corpo, às ideologias, às vedetas da cultura e à própria pessoa, quase que se poderia dizer que está em risco a possibilidade do Homem poder transcender-se a si mesmo e aos seus egoísmos. As vivências egocêntricas destes novos tempos, próprias de visões antropológicas suicidas, colocam a existência dos homens e mulheres de hoje numa rampa abismal, onde o ser humano nega a sua própria condição e todas as suas potencialidades em favor de um novo culto: o Eu.

Desta forma, encerrando o seu olhar e a sua experiência existencial em si mesmo, o homem hodierno nega a possibilidade do encontro com o outro, do reconhecimento do outro e da possibilidade de fazer o bem em favor de alguém. Poder-se-ia justificar que o encontro com o outro depende do próprio, mas a experiência de sociedades ditas “mais avançadas” revela a catástrofe humana e existencial que existe a partir do desejo de auto-suficiência do homem. Deste modo, urge que o centro gravitacional seja o próprio Deus. Um olhar sobre o mistério de Cristo, como nos revela a passagem do Evangelho, leva-nos a descobrir como a Glória de Deus se manifesta no meio dos Homens. Estamos, portanto, diante da própria ousadia de Deus que vem ao encontro do Homem à luz de um Amor que se expõe e que explode ao encontro de quem pode e tem de ser amado. Como resposta a isto, a atitude da adoração e da contemplação da Glória é a grande caminhada do homem vivo, no seguimento dos passos do Filho de Deus.

 

3.     O ANJO DE PORTUGAL

Tal como podemos compreender nas leituras escutadas, Deus não perde oportunidades e meios para atingir o coração do Homem com a protecção e a proximidade necessárias para que este lhe responda com Fé e Confiança. Tal como confia aos anjos o cuidado pelos seres humanos, também os povos são protegidos pelo próprio Deus. Partindo da História da Salvação é possível testemunhar o cuidado que Deus tem com Israel enquanto Povo escolhido. É Deus que conduz o Povo, que o envia, que o defende e que lhe faz promessas. O Antigo Testamento realça muito esta relação de Deus com o conjunto de homens e mulheres que pertencem ao povo que Ele escolheu para Sua herança. Assim sendo, é fácil compreender que o cuidado de Deus é pessoal e colectivo. A subjectividade do homem é importante aos olhos de Deus, mas a sua inserção comunitária e as suas pertenças sociais, culturais e étnicas também são constitutivas do ser humano, dotando-o de particularidades que são também potencialidades de olhar o Criador. Também Portugal, enquanto Povo, é olhado por Deus com carinho; não sob um patriotismo balofo, mas para que seja um povo ousado no testemunho de fé norteado pela constante presença do Senhor que o conduz para a Pátria Eterna.

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