O trecho do Evangelho de hoje é tirado do primeiro dos três discursos de despedida pronunciados por Jesus durante a Última Ceia, logo após Judas ter saído para executar o seu propósito de traição. São chamados assim porque neles Jesus parece ditar as suas últimas vontades, antes de enfrentar a paixão e a morte.
A liturgia leva-nos a meditá-los depois da Páscoa por uma razão muito simples: um testamento só é aberto e adquire o seu significado depois da morte de quem o ditou. As palavras pronunciadas por Jesus, durante a Última Ceia, não estavam reservadas para os Apóstolos reunidos no cenáculo, mas eram dirigidas aos discípulos de todos os tempos, e o momento mais indicado para as compreender e meditar é precisamente o tempo da Páscoa.
o trecho de hoje começa com uma frase que pode ser mal interpretada: «Em casa de meu Pai há muitas moradas. Eu vou preparar-vos um lugar. Quando o tiver preparado virei novamente para vos levar comigo. Para onde Eu vou, conheceis o caminho».
Jesus parece querer dizer que chegou para Ele o momento de ir para o Céu, e promete que, lá, preparará um lugar também para os seus discípulos.
Esta explicação não satisfaz, quer porque estamos convencidos de que no Paraíso já há muito tempo que está tudo pronto quer porque a ideia das cadeiras numeradas, correspondentes aos vários graus de prémios a atribuir a cada um, com o consequente perigo de que alguém possa ficar sem lugar, não entusiasma.
O sentido da frase é muito diferente, muito mais concreto e atual para nós e para a vida das nossas comunidades.
Jesus diz que deve percorrer «um caminho» difícil, e acrescenta que os seus discípulos deveriam conhecer muito bem este «caminho», já que muitas vezes falou dele.
Tomé responde, em nome de todos: nós não conhecemos este «caminho»; depois, tendo cumprido a sua missão, voltará e tomará consigo os discípulos, infundirá neles a sua coragem e a sua força, de modo que se tornem capazes de seguir os seus passos.
Agora já é claro de que «caminho» se trata: é o caminho para a Páscoa, percurso difícil porque exige o sacrifício da vida. Jesus falou nele muitas vezes, mas os discípulos tiveram sempre dificuldade em entendê-lo. Quando se referia ao «dom da vida», eles preferiram distrair-se, pensar noutra coisa.
Nesta perspetiva torna-se clara também a questão dos «muitos lugares na casa do Pai». Quem aceitou seguir o «caminho» percorrido por Jesus acaba por se encontrar imediatamente no Reino de Deus, na casa do Pai. Esta casa não é o Paraíso, mas a comunidade cristã, é lá que há muitos lugares, ou seja, muitos serviços, muitas funções a desempenhar.
São muitos os modos de concretizar o dom da própria vida. Os «muitos lugares» não são senão os «vários ministérios: cantores, leitores, ministros da comunhão, acólitos, catequistas, visitadores dos doentes, pastoral social, pastoral familiar, pastoral vocacional, pessoal do acolhimento», as diversas situações em que cada um é chamado a pôr à disposição dos irmãos as próprias capacidades, os muitos dons recebidos de Deus.
Jesus diz que, no desempenho do próprio ministério, não podem existir motivos de inveja e de ciúme: os «lugares», isto é, os serviços a fazer pelos irmãos, são muitos e só quem não foi ainda sacudido pela novidade da vida comunicada pela fé no Ressuscitado pode ficar inativo.
O lugar preparado para cada pessoa por Jesus é avaliado em termos de serviço: o «lugar» melhor é aquele onde se pode servir mais e melhor os irmãos.
O trecho é um convite à verificação da vida comunitária: qual é a percentagem dos membros ativos? Há tarefas que ninguém quer assumir? Há competição para apoderar-se da responsabilidade de algum cargo? Dos muitos «lugares de trabalho», preparados por Jesus, há ainda muitos por preencher? Há «desempregados»? porquê?
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