A cruz escondida

Ucrânia: A Igreja na linha da frente no apoio às vítimas da guerra

Os novos heróis

Todos os dias chegam novos relatos, histórias de padres e irmãs que, com a invasão da Ucrânia, se transformaram em verdadeiros soldados da paz, ajudando, cuidando dos mais frágeis, convertendo igrejas e conventos em ‘bunkers’ que acolhem e protegem as pessoas das bombas, da morte. Eles são os novos heróis de uma Igreja que nunca deixou de estar presente nos momentos mais difíceis da história ucraniana.

A guerra na Ucrânia começou na madrugada de 24 de Fevereiro. Dias antes de a invasão das tropas russas ter começado, a Fundação AIS fez uma conferência, via Internet, sobre a situação muito problemática que já se estava a viver. E um dos convidados foi o Arcebispo Primaz da Igreja Greco-Católica Ucraniana. As palavras de D. Sviatoslav Shevchuk são um refúgio neste tempo de tragédia na Europa. Disse ele que, independentemente da evolução dos acontecimentos, a Igreja iria continuar sempre junto do povo. Ele não podia adivinhar, então, que a invasão já estaria decidida, mas sabia que, se a guerra chegasse, como chegou, qual iria ser a resposta de padres e de irmãs perante a tragédia que se pronunciava. E falou especialmente das regiões de Donetsk e Luhansk, territórios ocupados desde 2014, situação que, de alguma forma, foi o rastilho que justificou a invasão. “Tenho de dizer que os padres que estão lá são os heróis do nosso tempo. Tenho de dizer isso! E vai continuar a ser assim. Não vamos fugir. Vamos ficar com o nosso povo…” E ficaram. E a Fundação AIS, que está profundamente ligada à vida da Igreja na Ucrânia há mais de 40 anos, tem recebido inúmeros testemunhos dessa presença na linha da frente, no meio de ruas que se transformaram em campos de batalha, em igrejas e conventos que abriram as suas portas para acolher as populações em fuga, especialmente idosos, mulheres e crianças, pois os homens foram mobilizados para a guerra, para os combates. É o caso do Pe. Pauline Roman Laba. Ele está em Browary, um subúrbio da capital, Kiev. Laba assistiu aos primeiros ataques com mísseis à capital ucraniana e transformou a cave da igreja num improvisado ‘bunker’. Quando falou para a Fundação AIS, estavam lá cerca de oitenta pessoas. “Hoje acordei às cinco da manhã com um ataque de mísseis. Durante os primeiros ataques à nossa localidade, sete pessoas morreram e cerca de 17 ficaram feridas. Durante o dia ouvi ataques aéreos à cidade aí umas sete vezes… Muitas pessoas de Browary abandonaram as suas casas e partiram para a zona oeste do país.”

“Rezem pela Ucrânia…”

São relatos que se assemelham aos dos jornalistas que partiram também para a Ucrânia para contarem ao mundo os horrores da guerra. Mas Laba não é repórter. É apenas um dos muitos sacerdotes de que falava D. Sviatoslav Shevchuk. Na altura, quando o Padre Roman Laba ligou a câmara do computador para gravar a sua mensagem, a Igreja tinha-se transformado também num lugar muito especial. “Muitas pessoas vieram até à nossa paróquia à procura de ajuda e de refúgio, pois criámos abrigos de emergência na casa paroquial e na igreja que está ainda em construção… Neste momento temos por aqui cerca de 80 pessoas, desde paroquianos a pessoas que vivem em prédios aqui na zona.” A mensagem, de menos de dois minutos, terminou com um apelo. Um apelo que se repete em todas as outras mensagens que se dirigem ao mundo através da Fundação AIS: “Por favor, rezem pela Ucrânia. Muito obrigado!” Infelizmente, desde a madrugada de 24 de Fevereiro que a guerra chegou, brutal, com uma dimensão inesperada. Mas, na Ucrânia, os padres e as irmãs continuam no seu posto, ao lado dos que mais sofrem, ao lado dos que choram, dos que viram o seu país ser invadido e o chão ficar manchado de sangue… A guerra, com o todo o seu horror, entrou-nos pela casa dentro na madrugada de quinta-feira, 24 de Fevereiro. Logo pela manhã desse mesmo dia, com a urgência imposta pelas circunstâncias, a Fundação AIS anunciava que ia avançar também com um pacote de ajuda extraordinária no valor de 1 milhão de euros. Uma ajuda para a Igreja da Ucrânia. Uma ajuda para os heróis do nosso tempo.

Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt

 

Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/

Autor: Paulo Aido

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