Tensões, conflitos, incompreensões acompanham sempre as relações Igreja/mundo, mas tornaram-se mais evidentes com o advento do empirismo e do racionalismo, que caraterizaram o pensamento dos séculos XVII e XVIII. A visão puramente naturalista do mundo, bem como a confiança incondicional na razão, pareceram minar os fundamentos da própria fé e do sobrenatural.
Ditada pela suspeita e pelo medo, a resposta imediata dos crentes não foi serena, e o movimento de purificação das ideias, da linguagem e das práticas religiosas sofreu atrasos, paragens, repensamentos e involuções. Hoje, já se podem evidenciar as grandes mudanças que, estimuladas pelas provocações seculares, se realizaram, sobretudo, após o Concílio Vaticano II. Do estudo e da meditação da palavra de Deus, finalmente na mão dos cristãos, emerge e é dada ao mundo, não obstante algumas contradições, uma imagem de Deus liberta de categorias arcaicas, um povo rosto do homem, uma Igreja mais evangélica e a proposta de uma sociedade baseada em valores autênticos.
Já no tempo do profeta Elias tinha acontecido algo de semelhante, como nos relata a primeira leitura. Uma mudança de mentalidade ainda maior foi pedida por Jesus aos seus discípulos, como veremos no trecho do evangelho. O caminho da conversão não está ainda concluído. Não só pelos sinais dos tempos, mas também pelas críticas severas dos não-crentes, o Espírito convida os cristãos a projetarem o olhar, a mente e o coração para lá dos horizontes limitados e mesquinhos nos quais o receio de crescer os mantém prisioneiros.
«Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho a percorrer» – disse o anjo do Senhor a Elias, em fuga para o deserto. O profeta levantou-se, comeu, bebeu, e «reconfortado com aquela comida, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus».
Este famoso relato, do dom do pão e da água por parte do anjo a Elias, é seguido pela revelação do Senhor narrada na primeira leitura.
No trecho evangélico a cena repete-se: os discípulos, alimentados com o pão oferecido por Jesus recebem agora a ordem de se porem em movimento, de entrarem no barco e dirigirem-se para a outra margem. Como Elias, também a eles os espera uma velação do Senhor.
Há vários pormenores estranhos neste episódio. Não é fácil encontrar uma razão para a ordem dada por Jesus: por que é que os manda partir sozinhos? Onde vão àquela hora? Por que não vai com eles? Como é que precisam de tantas horas para atravessar o lago? Não parece ser devido ao mau tempo, já que Ele sobe tranquilo ao monte para rezar e fica lá até de madrugada. Mas o mais surpreendente é a pretensão de Pedro em querer caminhar sobre as águas e – tratando-se de um nadador experimentado – o seu receio em afundar.
Estes detalhes singulares fazem desconfiar o exegeta. São um convite a olhar o trecho com circunspeção, porque não se trata do relato de prodígio, mas de uma página de teologia redigida com imagens bíblicas.
Algumas destas imagens são bem conhecidas. A escuridão da noite, que está presente, com a sua carga de significados negativos, em numerosos textos do Antigo Testamento. Lembramos, por exemplo, o salmista que, durante a noite, grita ao Senhor sem encontrar sossego. É com esta escuridão que os discípulos se devem confrontar. Caindo a noite, Jesus «obriga-os» a entrar no barco e a dirigirem-se «para a outra margem». Fica-se com a impressão de que eles não queriam, de que preferiam ficar ao lado do Mestre, mas Ele, após os ter nutrido com o seu pão, quer que partam, que empreendam sozinhos a perigosa viagem. O alimento que lhes deu representa a sua palavra e a sua pessoa presente no sacramento da Eucaristia. Nutridos por este duplo pão, eles têm a força necessária para levar até ao fim a perigosa travessia.
Se Jesus estivesse visivelmente presente no barco, as trevas dissipar-se-iam; a escuridão, porém, é densa.
Ao cair da tarde – digamo-lo já – indica, na linguagem simbólica do evangelista, a conclusão da jornada de Jesus, é o fim da sua vida, é o momento em que Ele «sobe ao monte» sozinho, em que se afasta das multidões e entra definitivamente no mundo de Deus. É por isso que os discípulos estão na escuridão. A escuridão é a imagem da desorientação, da dúvida que surge até mesmo no crente mais convicto. Há momentos em que até mesmo quem é animado por uma fé sólida se sente só, em que faz a experiência angustiante do silêncio de Deus, e em que então se pergunta se as suas opções, os seus sacrifícios, o seu empenho para o bem têm sentido.
Depois há o vento contrário. Os israelitas tinham a experiência do «furação que se levantou do outro lado do deserto» conhecem o «vento leste, que destroça as naus» e o «vento de tempestade» que levanta as ondas e rebenta com os barcos arrastando-os para o abismo, e faz os marinheiros cambalearem como ébrios».
O autor da Carta aos Efésios utiliza esta imagem para descrever o raciocínio insensato do homem, a mentalidade deste mundo, oposta à de Cristo. Lembra ele aos cristãos das suas comunidades: «Deixámos de ser crianças, batidos pelas ondas e levados por qualquer vento de doutrina, ao sabor do jogo dos homens».
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