O quarto domingo da Páscoa é chamado Domingo do Bom Pastor porque, em um dos três ciclos do ano litúrgico, é proposto um trecho do capítulo 10 do Evangelho de São João. Hoje, lemos a primeira parte deste capítulo onde o tema de Jesus Bom Pastor não é tratado, mas apenas acenado; de facto, a imagem central é a da porta. Mais à frente, no seu longo discurso aos Judeus, Jesus irá proclamar: «Eu sou o Bom Pastor» hoje, Ele apresenta-se, por duas vezes, como a porta. A esta imagem acrescenta-se outras: o aprisco, os ladrões e os salteadores, o porteiro, os estranhos. Quem são, quem representam, qual o significado desta «semelhança»?
Antes de mais, uma nota explicativa sobre os hábitos pastorais da Palestina.
O aprisco era um recinto circundado por muros de pedra, sobre os quais eram postos feixes de plantas espinhosas ou se deixavam crescer silvas para impedir que as ovelhas saíssem e os ladrões entrassem. Podia estar na frente de uma casa ou então ser construído ao ar livre, junto a um penhasco de uma montanha; neste segundo caso era utilizado normalmente por vários pastores que aí deixavam as ovelhas durante a noite; um deles vigiava, enquanto os outros dormiam.
Dizer – como faz Lucas no relato do nascimento de Jesus – que quem fazia a guarda « vigiava» não é de todo exacto. Na realidade, armado com um varapau, o pastor posicionava-se na entrada do recinto – que não tinha porta – agachava-se e, naquela posição, impedindo o acesso, tornava-se ele mesmo «porta». Normalmente dormitava, mas a sua presença era suficiente para dissuadir os ladrões de se aproximarem do aprisco e para impedir os lobos de entrarem no recinto. Só se aproximava das ovelhas quem ele deixava passar.
Pela manhã, quando cada pastor se aproximava da porta, as ovelhas reconheciam imediatamente os passos e a voz, levantavam-se e seguiam-no, certas de serem conduzidas a pastagens de erva fresca e a oásis com água pura e abundante. Seguiam-no porque se sentiam amadas e protegidas, o pastor nunca as tinha desiludido ou traído.
Partindo desta experiência de vida do seu povo, Jesus constrói uma parábola que não é logo clara: nele acumulam-se e sobrepõem-se imagens enigmáticas para os próprios Judeus.
Comecemos por dividi-la em duas partes.
Na primeira, é introduzida a figura do verdadeiro pastor. O início do discurso é de certa forma brusco e provocador. Contém misteriosas alusões a perigos, a inimigos, a a agressores: «Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador»; depois, entra em cena o verdadeiro pastor. A sua característica principal é a ternura: conhece as suas ovelhas pelo nome e chama-as, «cada uma delas».
Para Jesus não existem massas anónimas; Ele interessa-se por cada um dos seus discípulos, tem em conta os talentos, as virtudes e as fraquezas de cada um. Contempla feliz os cabritos que, jovens e ágeis, saltam e correm à frente de todos, porém os seus cuidados, as suas atenções vão para os mais fracos do rebanho: «leva os cordeiros ao colo, e faz repousar as ovelhas que têm crias». Entende as suas dificuldades, não antecipa os tempos, não impõem ritmos insustentáveis, considera a condição de cada um, ajuda e respeita.
Em contraposição a este pastor, aparecem os ladrões e os salteadores. Quem são? Como reconhecê-los? A quem se refere Jesus?
No seu tempo não faltavam certamente os «pastores».
Havia os chefes religiosos e os chefes políticos que assumiam a atitude de guias interessados pelo bem do povo, mas que, na realidade, procuravam apenas o seu próprio interessa; os seus objetivos eram o domínio, o prestígio pessoal, a exploração dos outros; os seus métodos eram a violência e a mentira.
Não eram autênticos pastores, e, por isso, um dia, Jesus, diante das multidões, comoveu-se «porque eram como ovelhas sem pastor», conduziu-as para fora, fê-las acomodar «na erva verde» e distribuiu-lhes com abundância o pão e o alimento da sua palavra.
Note-se, nesta primeira parte do trecho evangélico, a insistência «voz do pastor», que é «ouvida», «reconhecida» e imediatamente distinguida da voz dos estranhos.
Também depois da Ressurreição, Jesus será reconhecido pela sua voz.
Os olhos dos discípulos irão enganar-se: será tomado por um viajante, por um fantasma, por um pescador, mas os ouvidos não, não se podiam enganar, a sua voz era inconfundível.
Hoje em dia, esta voz continua a ecoar, nítida e viva, na palavra do Evangelho. É a única que o discípulo reconhece como familiar; as outras que se sobrepõem, mesmo se fortes e interessantes, são-lhe estranhas.
Quem é «instruído pelo Espírito» consegue, no meio do barrulho de muita outras vozes, discernir qual é a do pastor, e foge quando ouve os passos dos ladrões e dos salteadores, os impostores que vêm apenas para o arrastar por caminhos de morte.
Na segunda parte do techo, Jesus apresenta-se em primeiro lugar como «a porta das ovelhas», e depois como «a porta». Se considerarmos o esclarecimento inicial, podemos dizer que Ele é o guarda que se posiciona na entrada como «porta».
A porta tem uma dupla função: deixa passar os donos da casa e impede a entrada aos estranhos. São estas duas funções que Jesus desenvolve noutras tantas alegorias.
Ele é aquele que decide quem pode ter acesso às ovelhas e quem deve estar longe do rebanho. Pode passar, e é reconhecido como verdadeiro pastor, aquele que assimilou os seus próprios sentimentos e atitudes para com as ovelhas, isto é, quem está disposto a doar a vida como Ele fez.
Pela porta só passa os pastores, mas entram e saem também as ovelhas. Jesus apresenta-se como porta também neste outro sentido. Só quem passa através dele chega às pastagens verdejantes, encontra o «pão que sacia» e «água que brota para a vida eterna», obtém a salvação.
Jesus é uma porta estreita porque pede a renúncia de cada um a si mesmo, o amor desinteressado pelos outros; mas é a única que conduz à vida, todas as outras são armadilhas, ratoeiras que levam a cair em abismos de morte: « Larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele».
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