Antes de embarcar numa estrada é preciso olhar para a sinalética, é necessário verificar se, por acaso, não nos estamos a aventurar num sentido proibido.
Quando observa o sentido em que se movem as outras pessoas, o discípulo de Cristo tem a sensação imediata e nítida de estar a conduzir em contramão. Se escolhe o caminho da renúncia, da partilha dos bens, do amor desinteressado, do perdão sem limites, da fidelidade à palavra dada, vê o tráfego mover-se no sentido oposto e dá-se conta que, mesmo que conduza com prudência, o embate é inevitável e será sempre ele a sofrer mais, a ser considerado deslocado, a ser acusado de quebrar as regras aceites por todos.
O justo é incómodo para o ímpio, «só o ato de o ver incomoda»; irrita-o porque «a sua vida não é semelhante à dos outros e os seus caminhos são muito diferentes».
Nos momentos de perseguição, pode surgir também no cristão a dúvida de estar no sentido errado.
Depois de ter verificado que está realmente a seguir as indicações do Mestre, não deve deixar-se tomar pelo receio: é aquele o sentido justo, é ele quem está a conduzir com os olhos abertos e caminha na luz.
«O nosso senhor e nosso deus manda que se faça tudo aquilo que se segue…» Começam assim os documentos oficiais emanados em nome de Dominicano, o imperador que mandou levantar, por todo o lado, estátuas em sua honra e queria ser venerado como um deus. O cônsul Flávio Clemente, seu primo, que se converteu a Cristo e que, por causa da sua fé, não pode aderir a tais exigências excêntricas, é condenado à morte, e a sua mulher Domitila é exilada na Sardenha.
O culto ao imperador difunde-se sobretudo na Ásia Menor. Em Éfeso são erigidos um templo e uma estátua colossal ao «deus Dominicano», e as autoridades locais, subservientes ao poder, querem que toda a gente se prostre e adore aquele que o vidente do Apocalipse define como «a besta».
Os cristãos não podem prestar honras divinas ao soberano, e assim começam a sofrer castigos, discriminações, confiscações de bens. Muitos não conseguem aguentar estes abusos contínuos, estão no limite da paciência e paira o risco da apostasia. Como ajudá-los a superar este momento difícil?
Mateus escreve o seu Evangelho neste contexto histórico, e, para encorajar os cristãos das suas comunidades, insere no seu Evangelho as palavras do Mestre que dizem respeito às dificuldades e às perseguições que os discípulos haveriam de sofrer.
Para o cristão, a perseguição não é um incidente de percurso, é um facto inelutável. Também o autor da segunda Carta a Timóteo (escrita mais ou menos no mesmo período) o lembra: «Todos os que quiserem viver a fé em Cristo Jesus serão perseguidos».
E o que diz Jesus aos discípulos perseguidos?
Começa por alertá-los para o medo. O medo tem uma função vital positiva: assinala os perigos, impede gestos ousados, arriscados, insensatos; porém fora de controlo, é um obstáculo às ações corajosas e às escolhas resolutas.
Para quem tomou a decisão de seguir Cristo, o medo constitui muitas vezes o pior inimigo. Manifesta-se no temor de perder a própria posição, de ver diminuir a estima dos superiores, de perder amizades, da privação dos próprios bens; no receio da punição, do degredo, e até mesmo da morte. Quem tem medo já não é livre. É normal ter medo, mas ai de quem se deixa dominar e conduzir pelo medo: acaba paralisado.
No Evangelho deste domingo, por três vezes, Jesus insiste: «não tenhais medo» e de cada vez acrescenta um motivo para justificar a sua recomendação.
Quem anuncia o Evangelho tem medo, antes de mais, porque teme que, devido à violência desencadeada pelos inimigos de Cristo, a sua missão possa fracassar.
Jesus tranquiliza: apesar das provas e das dificuldades, o Evangelho difundir-se-á e transformará o mundo. Para explicar melhor, cita o exemplo dos rabis do seu tempo. Antes de enviarem os seus discípulos a discutirem publicamente nas praças, instruíam-nos em segredo. A sua sabedoria permanecia escondida durante muito tempo, porém, um dia todo o povo era obrigado a reconhecer a sua sapiência e a sua preparação. A mesma coisa – diz Ele – acontecerá aos seus apóstolos. Talvez eles não vejam germinar as sementes de luz e de bem que – com fadiga e na dor – semearam, mas devem cultivar a jubilosa certeza que a seara crescerá e a colheita será abundante. A sua obra não será vã; mesmo que fossem condenados à morte, nenhuma força inimiga poderia impedir a realização do projeto de Deus.
É de grande luz ver o que aconteceu com Jesus: os seus inimigos estavam convencidos de o terem calado para sempre, de terem posto uma pedra enorme e inamovível sobre Ele e sobre a sua mensagem; mas na Páscoa ressuscitou, precisamente da mesma forma que a semente, ao ser lançada à terra, morre, mas para germinar, crescer e multiplicar-se.
O segundo motivo do medo são os maus tratos e a morte.
Jesus convida a refletir: que mal podem fazer os inimigos do Evangelho? Ofender, acusar injustamente, bater, confiscar bens, tirar a vida? Sem dúvida, mas nada mais. Nenhuma forma de violência é capaz de privar o discípulo do único bem duradouro: a vida que recebeu de Deus e que ninguém lhe pode tirar. Disto mesmo estava convicto Paulo: «A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada… nada poderá separar-nos do amor de Deus que está em Jesus Cristo, Senhor nosso».
Mas há alguém – continua Jesus – que deve ser temido; «aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo». Não se trata de alguém externo a nós, é o mal que, desde que nascemos, trazemos dentro de nós; é aquela força negativa que sugere caminhos opostos aos de Cristo. É preciso, antes de mais, temer a si mesmo e ao próprio medo. Quantas vezes, por medo de ficarmos sós, cultivamos amizades ambíguas ou comportamo-nos de modo velhaco, mentimos, cometemos injustiças? Quem tem medo não consegue fazer aquilo que o levaria a realizar a própria vida e por isso … «morre».
O terceiro motivo de medo da perseguição é que muitas vezes não nos toca apenas a nós, mas atinge também quem está próximo e pode vir a ser privado do necessário para a sua subsistência.
A esta objeção, Jesus responde lembrando a confiança na providência do Pai do Céu. Não promete aos seus discípulos que não irá acontecer nada, que serão sempre salvos, de forma prodigiosa. Mas que Deus realizará sempre neles o verdadeiro bemm se tiverem a coragem de lhe permanecer fiéis. É muito eficaz a imagem dos cabelos da cabeça, dos quais só Deus conhece o número. Nada de nosso escapa ao seu amor e ao seu cuidado. Ele que se interessa por todas as criaturas, mesmo as mais pequenas, defenderá também a causa de quem se bate pela vinda do seu Reino!
O trecho conclui com uma promessa: Jesus reconhecerá diante de seu Pai aqueles que o tiverem reconhecido diante dos homens. Não se refere ao juízo final, mas ao que acontece já hoje: Ele reconhece-se em alguns dos seus discípulos que agem no mundo, noutros não. Reconhece-se em quem não tem medo de anunciar o seu Evangelho, mesmo a custo da própria vida; não se reconhece naqueles que não reproduzem diante dos homens a sua imagem, naqueles que não tornam presente no mundo a sua palavra. Diante do Pai, Ele testemunha esta realidade.
Hoje em dia, são ainda muitas as pessoas que são mortas por causa do Evangelho; mas também onde não há derramamento de sangue a perseguição existe e é inevitável. Manifesta-se, por vezes, abertamente, com insultos, escarnecimentos públicos; outras vezes de forma disfarçada e manhosa, através da marginalização, da discriminação, da exclusão…
Quem não perturba ninguém com a sua vida, pode estar certo: talvez sem se dar conta, adequou-se aos princípios deste mundo e renunciou ao Reino de Deus.
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