15 de fevereiro de 2026 – 6º Domingo do Tempo Comum – Ano A | Indica-me, Senhor, o caminho da vida, e eu seguirei até ao fim.

Como devemos responder à oferta de salvação que Deus nos faz? A liturgia do sexto domingo comum propõe-nos algumas respostas. Entre as diversas considerações que as leituras nos trazem, sobressai esta: somos chamados por Deus a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna; não podemos, por desleixo, por comodismo, por falta de compromisso, ignorar uma proposta que nos garante a vida em plenitude.

1ª Leitura
De quem é a responsabilidade pelas más ações do homem? Qual a origem do pecado que desfeia o mundo e traz sofrimento e morte à vida do homem? E como é que Deus – o todo-poderoso, Aquele que é fonte de tudo e que tudo controla – se encaixa em tudo isto? Foi Deus que corrompeu o homem e o extraviou para que ele fizesse ações erradas? É sobre estas questões que a reflexão de Jesus Ben Sirá se debruça (cf. Sir 15,11-12).
Ben Sirá conhece bem aquele belo poema sobre as origens que aparece em Gn 1. Ele sabe que Deus criou um “mundo bom” e o confiou ao cuidado do homem. Também sabe que, depois de mostrar ao homem os caminhos que devia percorrer para ter vida, Deus o deixou tomar as suas decisões. Deus criou o homem livre (cf. Sir 15,14-15).
É aqui, precisamente, que encaixa o texto de Ben Sira que hoje nos é dado por primeira leitura. Para descrever a definição por Deus da liberdade do homem, Ben Sirá recorre à linguagem e aos conteúdos que a catequese de Israel popularizou.
Há muito que os teólogos deuteronomistas falavam da opção que o homem tem de fazer entre “dois caminhos”. De um lado está o caminho da vida e da felicidade e do outro o caminho da morte e da desgraça. Essa é, para os catequistas de Israel, a grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no “temor” de Deus e no respeito pelas propostas de Javé, então constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de abundância, de paz. Esta doutrina é muito bem desenvolvida em Dt 30,15-20.
Ben Sirá mantém a sua reflexão dentro dos mesmos parâmetros. Dirigindo-se aos israelitas tentados pelas propostas da cultura helénica, coloca-os diante das grandes lições da história: sempre que o povo respeita as indicações de Deus e vive de acordo com elas, constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas quando o Povo escolhe caminhos à margem de Javé e faz “orelhas moucas” às propostas de Deus, acaba por resvalar por caminhos de egoísmo, de injustiça, de exploração, de divisão, de ambição e, portanto, de sofrimento e de morte. Aliás, as grandes catástrofes que marcaram a história do povo, nomeadamente o exílio na Babilónia, resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos seus mandamentos.
Um pormenor particularmente relevante reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo Ben Sira, um títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com um comando; mas é um ser livre, que faz as suas escolhas – escolhas que condicionam, necessariamente, o seu futuro – e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois, respeita absolutamente as opções que o homem faz. A opção pela vida e felicidade ou pela morte e desgraça é uma opção que resulta do livre-arbítrio do homem.

2ª Leitura
Paulo não se apresentou aos coríntios na pele de um filósofo, capaz de lhes ensinar uma “sabedoria humana”, um sistema filosófico coerente. Ele veio ter com os coríntios por mandato de Deus e apresentou-lhes apenas a Boa Notícia de Jesus (“julguei não dever saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” – 1Co 2,2). Não o fez com a linguagem dos sábios, dos filósofos, dos grandes oradores, mas com a convicção de quem se encontrou com Jesus, se apaixonou pela proposta de Jesus e decidiu colocar toda a sua vida ao serviço do Evangelho de Jesus. De resto, foi o Espírito Santo que fez o resto e que tornou possível que, a partir do testemunho de Paulo, a adesão dos coríntios ao Evangelho e o nascimento da Igreja de Corinto (cf. 1Co 2,4-5).
Em qualquer caso, é verdade que Paulo ensinou aos cristãos de Corinto (os “perfeitos”) uma sabedoria; no entanto, trata-se de uma sabedoria que “não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo” (1Co 2,6). A sabedoria que Paulo propões aos coríntios é a “sabedoria de Deus”, da qual a cruz onde Jesus entregou a vida por amar é a expressão mais completa.
Para Paulo, falar da “sabedoria de Deus” é falar do projeto de salvação que Deus preparou para a humanidade. Paulo refere-se a esse projeto recorrendo à palavra grega “mystêrion” (1Co 2,7; cf. Rm 16,25; Ef 1,9-10; 3,3.4.9; Col 1,26; 2,2; 4,3). Trata-se de um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam” (1Co 2,9), no sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus manteve oculto durante muitos séculos e só revelou através do seu Filho, Jesus Cristo. Aliás, antes de revelação feita através das palavras, dos gestos, da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”.
Como podemos descrever o “mystêrion”? Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à realização plena. Por isso, veio ao encontro dos homens, fez com eles uma Aliança, apontou-lhes, de mil formas, os caminhos que levam à vida. A certa altura, na plenitude dos tempos, Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, Jesus. Ele lutou contra o pecado e a maldade, venceu-os, inseriu os homens numa dinâmica de amor e de doação da vida. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós… Esse plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos crentes pela ação do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia, como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.
É desta forma que Paulo apresenta e define a “sabedoria de Deus”.

Evangelho
Os líderes religiosos judaicos acusavam frequentemente Jesus de oferecer uma doutrina revolucionária, herética, contrária à tradição de Israel. A soberana liberdade de Jesus frente ao sábado (cf. Mc 1,21-28; 2,23-28; 3,1-6), a sua pouca consideração pelas tradições religiosas judaicas (cf. Mc 7,1-23), a novidade das suas palavras e dos seus gestos, a forma como Ele acolhia os “últimos”, os mais desprezados, pareciam apontar nesse sentido. Com Jesus, a Lei antiga deixou de estar vigente?
Jesus começa, no discurso que Mateus Lhe atribui, por expor a sua posição face à Lei tradicional, a Torá: “não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar” (Mt 5,17). Não, Jesus não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu povo no Sinai. A Lei de Deus conserva toda a sua validade, é eterna. No entanto, Jesus acrescenta que veio “completar” a Lei. O verbo usado no texto (“plêrosai”) pode traduzir-se como “levar à perfeição”. Jesus quer “levar à perfeição” a Lei dada por Deus no Sinai, restituindo-a à sua simplicidade e sentido original.
Na verdade, os escribas e os fariseus tinham-se apossado da Lei e tinham-na usado para criar a armadilha do “legalismo”. Para eles, a Lei comportava um conjunto de indicações fechadas que era preciso seguir à letra e que regulavam todos os passos da vida do crente. Se as leis não fossem totalmente explícitas e não abarcassem todas as situações da vida, deviam ser explicitadas por novas e sucessivas leis. Surgia, assim, um emaranhado legal que acabava por complicar enormemente a vida do crente. O crente tornava-se escravo da Lei. Quem, por causa das duras condições de vida, não conseguia cumprir todas as regras da Lei, era visto como um pecador, alguém que estava longe de Deus e da salvação.
Com a vida totalmente encerrada dentro dos limites da Lei, o crente sentia-se seguro: a Lei indicava-lhe exatamente como devia viver para agradar a Deus e ter acesso à salvação. No entanto, isto ajudava frequentemente a desenvolver uma mentalidade errada: a salvação aparecia, ao crente que vivia agarrado ao cumprimento da Lei, como uma conquista do homem e não como um dom do amor de Deus. Daí resultava o orgulho e a autossuficiência.
Este “legalismo” continha um outro perigo grave: convictos de que o cumprimento estrito da Lei assegurava a salvação, os crentes cumpriam as regras sem se envolverem ao nível do coração, da adesão plena a Deus e às suas propostas. Cumpriam a letra da Lei sem aprofundar o seu espírito. Nesse cenário, já não interessava o que se sentia em relação a Deus ou aos irmãos, desde que se cumprisse a letra da Lei. A religião tornava-se uma experiência puramente externa. Havia quem cumpria estritamente a letra da Lei, mas não tinha um pingo de amor a Deus e aos irmãos.
Tudo somado, esta não é a experiência religiosa que Jesus quer propor aos seus discípulos, àqueles a quem chama para integrar a comunidade do Reino de Deus. Por isso, avisa-os: “se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus” (Mt 5,20).
O que é que significa, na perspetiva de Jesus, “levar à perfeição” a Lei? Jesus propõe uma vivência da Lei em plenitude, sem barreiras, indo ao fundo das coisas. Trata-se de não ficar na “epiderme” da Lei, mas de cumprir a vontade de Deus na sua totalidade, mesmo para além da estrita observância da letra da Lei. Trata-se de aderir completamente a Deus, assumindo uma atitude interior de total compromisso com Deus, com as indicações de Deus, com os valores de Deus.
Enquanto os fariseus e os doutores da Lei colocavam a Lei num lugar absolutamente central, Jesus coloca no centro de tudo o Reino de Deus. O que Ele pretende é fazer nascer uma comunidade de homens e mulheres que abram o coração a Deus e façam tudo – mesmo para além da letra da Lei – para que nasça um mundo mais justo e mais fraterno.
Para que tudo isto fique mais claro, Jesus vai apresentar seis exemplos concretos da atitude que Ele preconiza face à Lei. O evangelho deste domingo traz-nos apenas os quatro primeiros desses exemplos. Os outros dois serão apresentados noutra oportunidade.
O primeiro (vers. 21-26) refere-se às relações fraternas. A Lei de Moisés exige, simplesmente, o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspetiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao irmão… Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os que aceitam o convite para integrar a comunidade do Reino de Deus não podem limitar-se a cumprir a letra da Lei; têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os leve a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do irmão. A propósito, Mateus aproveita para apresentar à sua comunidade uma catequese sobre a urgência da reconciliação (o cortar relações com o irmão, afastá-lo da relação, marginalizá-lo, não é uma forma de matar?). Na perspetiva de Mateus, a reconciliação com o irmão deve sobrepor-se ao próprio culto, pois a relação com Deus de alguém que não ama os irmãos é uma mentira que Deus não pode aceitar.
O segundo (vers. 27-30) refere-se ao adultério. A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspetiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema: o próprio coração do homem. No coração nascem os desejos que depois se traduzem em gestos concretos. Jesus propõe atuar na raiz: uma “conversão” do coração que previna qualquer desejo egoísta que possa evoluir para atitudes que danifiquem a dignidade dos indivíduos e das relações familiares. A referência a arrancar o olho que é ocasião de pecado (o olho é considerado o órgão que dá entrada aos desejos) ou a cortar a mão que é ocasião de pecado (a mão é o órgão da ação, através do qual se concretizam os desejos que nascem no coração) são expressões fortes – bem ao gosto da cultura semita mas que, no entanto, não temos de considerar à letra – para dizer que é preciso atuar lá onde as ações más do homem têm origem e eliminar, na fonte, as raízes do mal.
O terceiro (vers. 31-32) refere-se ao divórcio. A Lei de Moisés permitia ao homem repudiar a sua esposa (cf. Dt 24,1); mas praticamente vedava às mulheres a possibilidade de porem fim ao casamento. Na perspetiva de Jesus, é uma lei machista, que Moisés teve de aceitar por causa da dureza do coração do homem. Jesus considera que essa lei machista não estava nos planos de Deus quando criou o homem e a mulher para se amarem e para se completarem um ao outro (cf. Mt 19,1-9). Aqui Jesus não se limita a “completar” a Lei: propõe uma mudança da Lei no sentido do plano original de Deus para o homem e para a mulher.
Apesar desta regra geral, o texto faz referência a uma exceção: no caso de uma “união ilegal” (literalmente, “porneia”). Discute-se o que esta exceção – provavelmente praticada na comunidade de Mateus – significa. Poderia referir-se a uma concessão feita aos cristãos de origem judaica para que o marido de uma mulher infiel pudesse casar-se outra vez, pois a infidelidade da primeira esposa tornaria a união ilegal.
O quarto (vers. 33-37) refere-se à questão do julgamento. A Lei de Moisés pede, apenas, a fidelidade aos compromissos selados com um juramento (cf. Lv 19,12; Nm 20,3; Dt 23,22-24); mas, na perspetiva de Jesus, a necessidade de jurar implica a existência de um clima de desconfiança que é incompatível com a limpidez da verdade. Para os que estão inseridos na dinâmica do Reino, deve haver um tal clima de sinceridade e confiança que os simples “sim” e “não” bastam. Qualquer fórmula de juramento é supérflua e sinal de corrupção da dinâmica do Reino.
Não há dúvida: a proposta de Jesus está muito para além de um cumprimento casuístico de uma Lei externa. Implica uma atitude interior completamente nova, uma mudança do coração que leve o homem a acolher e a viver “a fundo” as indicações de Deus, um dinamismo novo que transforme os discípulos de Jesus em arautos e testemunhas fiáveis de um mundo mais justo , mais humano e mais fraterno.

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